A Quarta Parede

A QUARTA PAREDE
(2010)
Editora Multifoco - Selo Vale em Poesia
CONTÉM POEMAS PREMIADOS EM OITO CONCURSOS LITERÁRIOS EM ÂMBITO NACIONAL ENTRE 2010 E 2011.
             
"O artista exprime apenas aquelas suas emoções que são dos outros."
Fernando Pessoa

"Bastando que haja espectadores, haverá representação."
Bertolt Brecht 


A QUARTA PAREDE - AUTENTICIDADE LÍRICA

          Nesta obra, com intensidade surpeendente, Paulo Franco nos leva a mares bravios, águas agitadas, gigantescas ondas todas arrebentando em espumas que perguntam, que questionam, nos questionam, mostrando-nos a realidade: somos náufragos em nós mesmos. Somos nós os arquitetos de nossas intransponíveis "quartas paredes", e assim sendo, também somos os responsáveis por essa sociedade acinzentada em hipocrisia, adornada num artificialismo barato, descartável.
          Reflexivo, o poeta lança de um espelho e faz com que vejamos nossa verdadeira face e todo nosso caos interior, despidos de todas as máscaras - vemos e somos vistos - numa inquietação de sensações, imagens e sentimentos.
          Sem a preocupação de seguir tendências poéticas, faz-se nítida a sensibilidade, a ousadia do poeta que estendeu-se ao limite do seu sentimento, da sua verdade, onde o ato de construir é substituído pelo ato de gerar, assim cada poema é parido, autêntico, com dor e alegria, sangue e choro, vida.
          Isto me leva, como poeta e amante da boa literatura, sem medo de críticas, a dizer que "A Quarta Parede" é uma preciosidade no campo da poesia, canto ímpar de um poeta que mesmo já tendo mostrado todo seu valor, lirismo, conhecimento da língua em obras anteriores, nesta, se supera, inserindo seu nome, sem dúvida nos mais altos patamares da Literatura. 
          E é com esse olhar que convido a vocês, leitores, para que se entreguem a essas folhas, e adentrem ao âmago da emoção e transcendam também as tantas "quartas paredes", sem máscaras, sem roteiros, no palco real do dia a dia, onde Paulo Franco colhe suas inspirações e floresce em poesia.

Tonho França
Poeta e Editor
   Selo Vale em Poesia
                                                                  

A ESTÁTUA

A alma
estendida no varal
a me conter de encantos.
Desalinhos no que sou
confundem o que sinto
num quintal de prantos.
Autônomos sentidos
que dirigem contratempos
nestes desencantos.

O cenário é um corpo nu
que desabrocha a virgindade
de um pecado necessário.
Refém das ilusões
acolho as contradições do espírito
para retalhar minhas vontades
que são crimes que me invadem.

E desafio o amor
como quem vai a um labirinto
que não tem saída.
Inusitado descaminho
do que não tem volta.

Infidelidades que ao poema
se acomodam
pra comporem versos brandos
sobre a vida vã.

Disforme no que fui
me encontro atrás da cura
para as deficiências
do que não senti.
O que supunha meu sustento
era embuste impedindo o meu intento,
era o medo das contradições
pra me manter menino
vendo um homem a se decompor
aprisionado em formas fixas
de um poema inacabado.

Salutares dores denunciam
minha estátua interior.

Olho o varal
e estendida a alma estanque
que se move à revelia da vontade
pelo vento de um sentir
que não se abala
porque é plena liberdade.

E o corpo nu em palco aberto
a me compor como um poema incerto
e a abalar a multidão
que aprisionada grita
estagnada por aquilo que não vê.

Sentenças e crenças que se mesclam
no auditório imaginário
desta ficção que aliena o que não somos.

Sopros que da alma eclodem
para sucumbir o que morreu
num picadeiro onde ninguém ri
porque o palhaço representa
um roteiro que não entendeu.

Mas a estátua aos poucos
bole a face e causa susto
pro auditório que a custo
arrebenta a parede deste imaginário
e sorridente acha imprudente
as cenas que não vê.

O teatro se desfaz
e a estátua sente o outro lado
do cenário que a prendia
e vê a vida e vê o dia
e à revelia da plateia sentenciada à ilusão,
vai procurar outro roteiro
para outro palco
numa nova ordem para a velha ficção.


A MÃO E A LUVA

Uma chuva leve
lava o meu olhar
que peca.

A alma ardente,
o coração em chamas.

A minha mão
na luva
a esconder-se do que toca.

Dores que pulsam
incisivo tempo
de espera.

Relativo
o meu semblante vaga
no horizonte aberto
como afago pro olhar fechado
que se busca no infinito incerto.

Na chuva leve
em denso olhar
um pranto morno
a se mesclar
no frio das gotas
que me tocam
neste procurar.



A MÁSCARA NO ESPELHO



No espelho
a máscara dirige o meu cenário
de mentiras que me acalmam
no espetáculo de contradições
que represento.

E vejo a sombra que de mim
nos outros resplandece
ser o que nem sei se sou,
mas que no outro
como espelho transparece.

Máscara em mímica
que incorpora o meu papel
e hipnotiza meus sentidos
encorajando a maquiagem que me imponho
pra pensar em outro sonho
diferente do que sou.

Um figurante que protagoniza
apenas as cenas de dor.
Dublê de si
que anestesia a cara confinada
num espelho que não tem mais cor.

Máscara despida à minha frente
refletindo as várias fantasias
que estão fora do espelho
em que me assisto.

Fecham-se as cortinas
e o auditório vai embora
enquanto um louco balbucia
que não teve graça
porque a máscara despida
de pirraça ou de pavor,
era a cara maquiada
do seu próprio autor.


A METÁFORA DO CAIXÃO

Metáforas transitórias
meio a juramentos de eternidade
na frivolidade dos olhares
que mal se espiam
na cumplicidade de uma liberdade ineficaz.

As execuções penalizam os sentimentos
sentenciados às rotinas
de um querer imaginário e inatingível.

O corpo, já bem desfalecido,
é uma coisa  a caminho do caixão
que clama pela lápide da porta
que não pode ser aberta.

Arrombamentos que se impõem
qual crimes necessários
ao horizonte sem tramelas
enquanto que alguns entes despencam
dos lustres no cenário das alianças.

Improváveis paixões
apunhalam a estabilidade
bem comportada do dia a dia
arrancando a paz dos corações
para supri-los com desordens
de procuras vãs.


A PESSOA

Em minhas lágrimas,
relativamente sujas,
estão as incertezas
de uma alma contraditória
e incompartilhável.

Trago no meu coração
o ópio das horas.
Indiferente a quase tudo
atormento-me
com a simples futilidade metafísica
dos que passam ao meu redor.

Imaginar que no dia seguinte
seguirei vivo
traz a insônia necessária
ao que quero compor.

Seria tão fácil se eu fosse os outros.
Dentro de mim, múltiplo,
a traição é sigilosa.

Do outro lado da minha janela
inúmeros donos de tabacaria
riem-se de mim
que não me sinto pessoa.

A ordem civil me transformou em nada.
Sintetizado em cumpridor de obrigações,
sem sensação nenhuma de vida,
desarmonizo-me
meio a uma harmonia falsa.

O universo se reconstruiria
em ideal de esperança
se o sorriso dos que passam
do outro lado da minha rua
não fosse
só um fato infeliz.

As tabacarias quase não existem mais,
mas os poetas são os mesmos
e se multiplicam em cruzes
que demarcam milenares aflições.

O pássaro que avisto no horizonte é irreal.
Melhor não ver
o que a parede do imaginário
sanciona como fato.

Acreditar que a vida
arrasta o destino das coisas
é ceder ao medo do invisível
e ir às representações
que amenizam nossos crimes inafiançáveis
e perfeitos.


A QUARTA PAREDE

No fundo do eu,
espectador do imaginário
e das contradições,
assisto o meu elenco
na passividade de plateia 
que sou.

Figurante do que sinto
enceno os dias
na arena de coadjuvantes
que protagonizam
o sonho improvisado desta ficção.

Cômica caixa cênica
em suspensão de descrença
que o auditório não vê,
embora pense que creia.

Parede imaginária
no invisível
deste pedaço de vida
a confundir o elenco.

Palco de invasores sentimentos,
nas coxias intransitáveis da alma,
que não vêm à cena.

Mundo lúdico enredado
na rotunda da emoção.
Quarta parede a impedir o sim
quando a plateia
só enxerga o não.   


AS ESTAÇÕES



Olho pras ranhuras no céu das madrugadas de setembro
e me pergunto quando chegará a primavera.
Nos meus sentimentos
algumas flores que não têm vingado
e então culpo as estações
por esta falta de cor no que avisto das coisas.

A alma fria do inverno
aguarda um tempo mais ameno.
Quem sabe as tempestades que virão
farão de mim algum verão qualquer.

O dia a pino faz da noite esquecimento.
A escuridão é uma hipótese
no espírito ao meio dividido
pelas sombras de um sol insuficiente
para aquecer-nos por inteiro.

Há um claro no outro lado do escuro
assim como é certeza
que sementes dormem pelas estações
na espera
de vingarem exclusivamente na primavera.

Uma rebelião de cores e cheiros
que invadem os jardins
e tocam os homens que dormem
no desconhecido das sensações.

Dos trens, olhares inquietos observam,
no que passa, a natureza que se move.


A TEIA

Às vezes choramos
porque a alma dói
tudo aquilo
que o corpo já não sente.

Temos planos
adiados pelos anos
e sonhos cancelados
pelos desenganos.

Tramamos o dia
como quem a teia tece
à captura de si.

Entre os instantes,
a vida, por acinte,
pauta utopias
para a ordem do dia seguinte.

Mas mantemos calma
achando que temos alma.
E será ?


BALUARTE


Debate-se um poema em toda alma presa.
Quando é bem demarcado, às vezes não tem rima.
Se tem um grande tema, falta-lhe a beleza
que exige o achado pra ser obra prima.

E o artista a procurar a arte de grandeza,
sabendo que a procura é o que ilumina,
se perde a meditar, à caça de sua presa,
qual louco atrás da cura para a própria sina.

Então em instante raro onde a poesia,
qual deusa de um castelo, presa em baluarte,
clareia-lhe o faro como a luz do dia

e o artista vira um elo para outra parte
e o verbo de tão claro a alma contagia
enfim, o imenso belo que só há em arte. 


FRUTO PROIBIDO

No perigoso precipício da véspera
do cinqüentenário do que fui
a flor que acena flui
involuntários sentimentos
de uma vida que jamais senti.

E urge amar o inusitado
neste estado de penúria
que é o tempo em marcha
como a flor que surge
e brevemente passa
no jardim que ficará.

Terminada a pressa,
o futuro incerto
de quem já viveu o permitido
e vê, à margem de um abismo,
um labirinto sem fim.

Agora eu não sou flor,
não sou jardim,
sou a semente que dormia
renascendo como o fruto proibido
mas que sempre esteve em mim.



GRITO AUSENTE


É indivisível o que sinto.
Uno, pra sonhar, às vezes,
minto.

Pra viver, nem sempre sonho
escondendo no olhar o sentimento
como se o momento
fosse um vil compartimento
de um enorme labirinto.

E o futuro
alardeador do infinito
é improvável,
eu só pressinto.

Então me guardo no silêncio
indivisível nesta imensidão
de sentimentos do presente
que aguardam o momento
para a liberdade
de um intenso grito ausente.


IMENSURÁVEL


Para fugir do medo
adornamos algumas mentiras belas
que nos fazem
heterônimos do anonimato
que sentimos.

Do cansaço do tempo
trazemos a saudade do bulir
nos proibidos, nas vergonhas
que em contraste com a solidão
germinam o prazer das coisas.

É como se o bem e o mal
a se mesclarem,
numa coisa una,
imensurável,
fossem se  compondo
no que somos de intolerável.

Assim,
pérolas e porcos
estercam a busca
da verdade vislumbrada
que a mentira ofusca.

E do inesperado,
parido deste prematuro
que o instante instala,
o brado olhar a germinar
o grito que se  expande
enquanto o sentimento cala.

Mas pra fugir do medo
atiramos o olhar a qualquer coisa,
violando qualquer um,
inibindo a violência
que se instala
nesta síndrome de pânico comum. 


INFINITO

Sobre uma parte
do que sei, escrevo
e se não sei, me calo.
E do que escrevo,
uma parte eu nem sei,
e mesmo assim, às vezes, falo.

Sobre o que sinto
uma parte escrevo
pra tentar saber
o que de mim eu minto.

E nunca sei se escrevo
a parte que me cabe
do que sei de mim
e , às vezes, calo
pra fingir o que não sinto.

E sei que do que sei,
à parte, no que escrevo,
parte não me cabe
já que eu só pressinto.

E no que sinto deste pressentir
há o conflito entre o silêncio e o grito
transformando o poema
em linguagem de infinito.


JARDIM DO ÉDEN

Em meu jardim
as flores espiam
o meu olhar parasitário
a espreitá-las sem vê-las.

Observado
fujo a face ao horizonte
que em prosopopéia
se escandaliza com os homens
que se perdem nos jardins
a procurar um belo
que não podem ver.

No dia a dia
noite a dentro
enterram-se
sementes mortas de si.

E vigiam a aurora
temerosos do que pressentem
enquanto a escuridão os contém
pra no outro dia sem medo
se perguntarem se um dia
verão as flores que afloram
lá no jardim do além.


LÁGRIMAS SECAS

Quando eu for embora,
a tampa da minha panela preferida,
o bule, o cheiro do café,
em minha casa permanecerão por mais algum tempo.

O meu cão, certamente,
a esquina espiará, à minha espera,
nos horários de minhas rotinas.

As minhas lembranças, cartas,
quinquilharias, que a mim eram riquezas,
boçais entulhos a serem incinerados virarão
aos meus descendentes,
que iludidos em suas buscas,
me esquecerão
assim que as lágrimas secarem.

Insistentemente alguns versos
determinarão a minha eternidade passageira
a um pouco mais além.

Oh! Insuficiente poesia
a burlar a alma dos outros
desdizendo as verdades,
invertendo as mentiras
para encontrar alternativas
que não servem pra ninguém.


LIVRE ARBÍTRIO

Algumas ruas cortam o meu coração
e se encruzilham na imprecisão
dos inexatos sentimentos
que permeiam  este procurar.

Perco-me abstrato
no concreto das contradições
que cobram os degredos
que não posso cumprir.

Caminhos demarcados
por passados sem lembranças
e arrependimentos sobre fugas
que impediram o que não se viveu. 

Futuro de vento
que nos deixa para trás
qual a árvore
que não cede ao vendaval.

Raízes imóveis
de um presente qualquer
ingenuamente predestinado a passado
e submisso ao que é determinado
pelo que virá.

Descaminhos que se mostram
em acenos pra desassossegos
das mentiras dentro das verdades
violando os arbítrios dos que pecam
pelas liberdades.                                          

O ABUTRE

Cacoetes de inspiração
impõem os versos
sobre o que em mim
degrada a madrugada fria.

Anestesiado pela solidão
lido com sonhos
que são coisas
que deturpam
uma sonolência que dói.

Movimenta-se sorrateiramente
o peçonhento sentimento
de náusea
e o poema
é atirado para fora
como uma gosma insossa
transformada em flor.

Alimento-me de mim
como um abutre que se nutre
de dor               
e que degusta o estranho belo 
que há no verso a se compor.      

Ideologias putrefatas
gerenciam
minha alma involuntária
de poeta ditador
que no poema
só vasculha a liberdade
e tem no sonho da verdade
a escuridão
a transformar em resplendor.


O BAOBÁ

Pela janela, o olhar respira
o horizonte que não pode ser tocado.

O achado de cada esperança
mantém o prisioneiro
visionário do que não existe.

Na desordem dos objetos
a cela de sentimentos que emboloram
e decoram as paredes intermináveis
deste imaginário.

Esperanças cansadas
contagiam os dias
com ideologias
que não foram arquivadas.

Enraizadas
ideias daninhas
que queimam.
Toras que não frutificam,
obsoletas
como baobás de alma.


O BOBO

Sereno mato a minha dor
e estrangulo quem não sou
para saber de mim.

Acato a solidão que me detém
na multidão extasiada
que maquia os seus prantos
com comédias sobre um nada
que jamais tem fim.

O roteiro é um silêncio
de caras e bocas que se movem
entre as farsas de um amor ruim.

Da tragédia ao lírico, um instante.
Script incerto
onde o tempo é da morte
o seu fiel amante.

Um bobo cortejado pela corte
que sorri da pantomima
que dispersa o foco do seu drama
pra fingir que é ironia
a traição do coração que se comporta
pra esconder o que de fato ama.


O CAMAROTE

Do camarote
observo as aflições
no camarim.

Alguém que teme
se representar
maquia em prantos
uma máscara de risos.

A peça é parte arredia
do contexto de paixões intensas
que se quebram em instantes
desfazendo as emoções dos outros
para sempre.

Alguns amores
despencam em contradições
e se arrebentam no tempo
como se jamais tivessem existido.

O público a compor a cena
no cenário não se encontra
e vaia a cortina que despenca
denunciando o ator
que maquiado
no espelho
estava
nu.



O CIRCO

Do alto do meu espetáculo
observo na platéia
o que não quero ser
e represento pros que aplaudem
o teatro do que somos
nas coxias onde estamos,
mas mostrando um picadeiro
que não quero ver.

E assisto as reprises dos meus sonhos,
enfadonhos sentimentos
de um palhaço que se pinta por dentro
pra se esconder.

Lá fora de mim,
a estrada que procuro pra não ser
o espetáculo que agrada
aos transeuntes que me entornam
boquiabertos à espera
dos meus atos
pra sentirem tudo aquilo
que não podem crer.

No entorno do palco
as revelações esparramadas nos olhares
dos que espiam as esquinas do que represento
pra plateia, que patética, sorri.


Ah! Vulgares vidas que vagam
vivendo as várias vadiagens do artista,
que volúvel,
vê no vago
um vazio intenso.                                                         

O CONDENADO

O sol a incinerar
da noite os restos dos sonhos
crema as melancolias
desta insônia sobre o nada
em quase tudo que incomoda.

O pedaço de corpo
a me conter
contém o que da alma
em mim pressinto
nesta estrada que me molda.

Latente vida
que da morte
escapa
mais um pouco.

Vidente em mim
um sóbrio insano
se transforma
em mais um louco.

E um caminhar que oscila
entre a queda e a correria,
a me levar a outro lado,
faz de mim o que não sei,
o que não sou,
como o silêncio
faz do grito um condenado.     


  
ON LINE

Amordaçado pelo senso comum
eu meço as mágoas que me moldam
meditando sobre o medo
que decora o meu jardim.

Imaculados sentimentos
não suportam o poema ao vivo.
Preferível o poeta morto
no quintal esparramado entre cães e fezes,
com vizinhos que vigiam a inspiração.

On line
a vida em ânsia
pulsa intolerâncias ao que é afã.

Conectar-se ao que é de fato
intimida o sentimento imediato
como quem tem medo de tocar no que morreu.

E navegar tem riscos.
As tormentas absorvem
os que invadem nosso inusitado.

O mar está além do que é possível se ver.
Abstrações e buscas se misturam
nos caminhos deste desbravar.

Mas nem tudo que se move é terra.
O sol é só a luz possível
pra quem vê o tempo todo a escuridão.

E o tempo sentencia o libertário à própria sorte.
A liberdade vira um risco, já que livres,
vulneráveis mais ficamos para a morte.

E libertinos, libertamos nossos medos
meditando contratempos
como a flor que ingenuamente
não suporta o seu jardim.

É como um poço,
um precipício de vontades.
Labirinto de desejos que se mesclam
ao suicídio das raízes
que pra flor é uma dor que não tem fim.


O PARALELEPÍPEDO

Sujo, observo no clamor do dia claro
o que escorre no olhar que sente medo.
Na rotina da prisão que me acalma
algumas rugas se contorcem pela  face
enquanto a alma ironiza o meu segredo.

Um homem duplo que não é ninguém.
A vida múltipla apagando o personagem
de um teatro sem paredes
que é detido pelo palco,
libertino, porque lhe convém.

O sol não absolve o pecador
que a escuridão contém.
Os heterônimos escapam pelos versos,
sorrateiros,
enquanto que o autor é condenado
pelo medo que o detém.

O poema é um prostíbulo de emoções histéricas.
Absorve nos lirismos fantasias homéricas
que permitem ao poeta se representar,
meio a figuras, sobre o que de fato é.

A rua indócil é um esconderijo
para aqueles que se perdem.
O coração, reencontrado,
é um paralelepípedo que teme.


O RETRATO

O dia acorda
atropelando os homens
estacionados
na noite.

As mulheres
enxugam seus hímens
que choram
a solidão da pressa.

O tempo
escancara guizos
de velocidade
sobre nosso lento olhar
cambaleante.

O instante
é que não para.
O tempo
é um retrato
do que não restou.


OS LÍRIOS DO CAOS

Aguardamos pelos lírios
que virão do que sobrar
do caos.

Demolidos resistimos
indecisos na ambição
que nos obriga à solidão
do nosso estágio insosso.

Devaneios apunhalam
nossa alma sã.
E em sã consciência
acatamos a demência do dia
na ordem desconexa
desse desamor.

Por entre os obstáculos das ruas
os tropeços nos detritos do que somos,
nos delírios, no que estamos.

Oh! Sombra do sonhar em ser
sentenciando-nos a flagelos
sobre o indizível.

E condenados ao inevitável
evitamos os adornos da razão,
que apunhalam com os fatos
nossa ordem de fardos
na desordem destes lírios que virão.     


PONTO DE PARTIDA

Tenho saudades de lugares por onde não passei,
lembranças de pessoas as quais não conheci.
Procuro versos que jamais farei,
poemas sobre o que não sei
e conto coisas sobre o que não vi.

Ando sempre pelas mesmas ruas
vendo as mesmas caras e coisas
como se no ciclo da vida perdido estivesse
e em círculo voltasse ao ponto de partida.

Talvez o medo impeça
o arriscar-se a novos caminhos.
As direções, múltiplas, assustam
e eu me escondo no quintal
de um endereço qualquer
para me proteger de mim.

Vejo as pessoas passando
e me pergunto sobre os seus destinos.
Serão mais belos que os meus?
Do outro lado do planeta eu seria outro?
Em outro tempo os dias seriam mais amenos?

Acordar e escarrar o amargo da noite
para vasculhar o labirinto do novo dia
enquanto reordenar a casa
à procura do que não sabemos
virou uma rotina incurável.

E a poesia, qual peçonhento inseto de alma,
colide as sensações entre os vazios e as inspirações
para versificar o tédio de cada esquina,
de cada insônia e amenizar o tempo que nos elimina.

Os lugares por onde passei,
as pessoas que passaram por mim 
fazem parte dos meus esquecimentos
e alimentam as lembranças
sobre os seres que já fui
e me arrastam para o que serei
em decorrência do que sou
exclusivamente neste instante,
único, impreciso e irremediável.


REGÊNCIA

Pela janela,
à caça de Deus,
o olhar
que no horizonte esvai-se.

Das certezas da vida
às dúvidas que a morte impõe
(ou o oposto disto),
uma réstia de tempo
a nos contemplar
na inexatidão da espera.

Surtos de um delírio
demarcado em calendário
religiosamente cristão,
mas impreciso.

Meticulosos lirismos
intercalados em risos
ritmizam versos brancos
sobre relógios que regem silêncios
qual adornos de alma.


SACADA

Na porta
sombreada em sol
ao chão
vejo a saída
para o impreciso.

Improváveis versos
saltam-me na mente
como um repente
que nunca será.

Um cão,
que no tapete dorme,
causa inveja
aos meus sonhos
que sonambuleiam
numa correnteza
que não cessa.

E turbulento
fecho a porta
pra matar as sombras
que me guardam da sacada
do meu próprio
olhar.


SOBERANOS DO HOJE

Ilusórios do tempo,
olhamos o ontem com desdém
vislumbrando no horizonte
um incerto além.

Soberanos do hoje
construímos coisas
demolindo paixões.

Em pressa instintiva
aceleramos contra nós
um tempo que mata
contaminado de ilusões.

A felicidade
sempre premeditada
esvai-se no agora
das coisas.

Uma vida de tédios
entrecortada por amores
disfarçados nas dores
que disparam risos.

Frágeis sentimentos
soberanos no instante
deste denso eterno
de tormentos e guizos.


SONETO DA ETERNIDADE

Eu quero a vida inteira à minha frente
que pode ser apenas um segundo
vivendo uma paixão intensamente
indiferente às razões do mundo.

Porque viver é sempre um caso urgente
se desabrocha um amor profundo
que avassala e embriaga a mente
mesmo que a dor se instale lá no fundo.

Que a vida inteira pra fazer sentido
numa alquimia de imortalidade
não pode ter nenhum sonho contido,

pois quando o amor é pleno de verdade
um só instante dele bem vivido
faz do momento a própria eternidade.


SONETO DA PAIXÃO CONTIDA

Não quero mais conter o amor que sinto,
e declarar ao mundo o meu engano.
Só é feliz quem deixa livre o instinto,
pra libertar um grande amor profano.

E sei que sou fiel só porque minto,
já que meu peito infiel e insano
planeja a fuga deste labirinto
que é o coração de todo ser humano.

Quem busca ou teve um amor eterno
nunca viveu intensamente a vida.
Conteve amores e viveu no inferno,

que a maior grade é o medo da partida.
Verão de amor um dia vira inverno
pra primavera da paixão contida.


SONETO DO AMOR DESFEITO

O imperfeito amor que avassala
de infinito o coração em chama
e causa dor e embaraça a fala
atormentando o peito de quem ama

é o mesmo amor que a criança embala
quando recria num brinquedo um drama
ou o amor que o tirano cala
pra iludir e por a terra em chama.

É, com certeza, o sentir mais forte
que pode haver pra embriagar o peito,
pois gera vida e depois a morte

já que depois se torna rarefeito
e o sentimento que era a grande sorte
vira um vazio coração desfeito.


SONETO DO AMOR IMPERFEITO

Não quero mais buscar o amor perfeito
pra camuflar o sentimento em chama
e amortecer o que me dói no peito,
a mesma dor de todo ser que ama.

Que amar assim, eu sei, não é direito,
pois todo peito preso nesta trama
adoecido faz do olhar um leito
pra adormecer a fonte deste drama.

Vou procurar amar só o instante
um amor maior, porém um passageiro
tão transeunte quanto o amante

que tenha amores pelo mundo inteiro
e ao invés da dor o peito sempre cante
o imperfeito amor que é o verdadeiro.
 

TEXTO AO VIVO

Espio bem o transeunte sempre igual
que me espreita da calçada
temeroso do meu mal
atrás do verso que não sai.

Pela parede imaginária do meu muro
eu escondo o meu escuro
a me conter do que pressinto
semelhante ao que deduzem que não sou.

E represento,
escondido atrás de um verbo insuficiente,
as mazelas que me cospem no sorriso
e me imponho impreciso pra plateia
que espera um desfecho
que alimente a ilusão.

E em outro ato
o limite entre o invisível e o fato
contamina o sentimento coletivo
e faz da vida um texto ao vivo
pra iludir nosso roteiro
no teatro da razão.


UNIVERSO PARALELO

O medo sobre nada
a consumir o dia intragável,
excessivo.
Nas relações, o impreciso
das telas que nos distanciam
e alimentam a deformação do riso.

Em meus e-mails o contato insosso
de combatedor
que morre em seu esconderijo.

Paralelo ao que vejo há o que existe.
Virtual, não tenho alma
e posso ser o que não sou
sabendo que não são
os que rodeiam
a janela que me esconde.

Os homens, abstratos,
se percebem
coagidos
quando param no farol.

Olhar de lado e não se ver,
não ver o outro
que também é consumido
sob o mesmo sol.
Paulo Franco