A Máscara No Espelho

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 A MÁSCARA NO ESPELHO
 UMA ANTOLOGIA INACABADA 

Paulo Franco
             




NOTA PARA A PRIMEIRA EDIÇÃO

                     Esta obra reúne uma seleção criteriosa dos 100 poemas mais significativos que foram publicados nos livros NOTAS DAS HORAS (1995), PÉTALAS DE INSÔNIA (1999), PAISAGENS DO OLHAR (2001), DO OUTRO LADO DO OUTRO (2007), A QUARTA PAREDE (2010) e poemas inéditos que foram premiados em diversos concursos literários em nível nacional nos últimos anos. O título “A MÁSCARA NO ESPELHO – Uma Antologia Inacabada” é um indicativo do eixo temático central que permeou a escolha dos textos. Conota também o fato de que outros eixos poderiam ainda originar outras seleções. Por fim, há nele a denotação clara de que uma antologia organizada pelo autor estará plenamente aberta para as produções futuras que gerarão, certamente, a necessidade de inclusão de poemas novos que complementarão esta obra em edições futuras.

Ribeirão Pires, verão de 2012.

Paulo Franco
A BICA

A tempestade passou.
O vento, a relva molhada
com cheiro de infância,
a andorinha a adornar em arco o ar
insistentemente não querendo ir
a nenhum outro lugar.

A estrada de terra, o pé da serra,
os sonhos de menino,
rebento a ver no céu rasuras de brinquedos,
desenhos que mesclavam esperanças e medos.

Na bica, o ruir da água
quase morna da montanha
a se fazer de mundo.

Tudo é tão grande
quando se é pequeno
que um dia pode ser a eternidade,
uma folha que cai vira balão,
um arco-íris após a tempestade,
com certeza, é felicidade
de tão simples que é, sem ilusão.

A correnteza a esculpir na terra
formatos de pequenas serras
lembra que o mundo se modifica
com o vento que corre,
com o tempo que morre,
com o sonho no cheiro da relva
que sempre fica
nas esperanças, nos medos, na ave que voa,
na água que escorre latente ruído que verte
no bico da bica.                                 
  


A CAPTURA


Em teu olhar, reflete intensa uma procura,
com a malícia que disfarça o caçador
que vê a caça e planeja a captura
silencioso como um cão farejador.

O teu olhar, um labirinto em moldura,
fino ornamento, é da face resplendor.
Uma paixão de intensidade sem ter cura,
pois que procura um fiel e pleno amor.

Olhar, vitral de infinita calmaria,
nau que anuncia um naufrágio por vontade
para viver a intensidade que irradia.

É luz do sol, é poesia, é verdade.
Pobre quem ouse mergulhar em sua orgia!
Não voltará, pois estará na eternidade.  


A ESTÁTUA

A alma
estendida no varal
a me conter de encantos.
Desalinhos no que sou
confundem o que sinto
num quintal de prantos.
Autônomos sentidos
que dirigem contratempos
nestes desencantos.

O cenário é um corpo nu
que desabrocha a virgindade
de um pecado necessário.
Refém das ilusões
acolho as contradições do espírito
para retalhar minhas vontades
que são crimes que me invadem.

E desafio o amor
como quem vai a um labirinto
que não tem saída.
Inusitado descaminho
do que não tem volta.

Infidelidades que ao poema
se acomodam
pra comporem versos brandos
sobre a vida vã.

Disforme no que fui
me encontro atrás da cura
para as deficiências
do que não senti.
O que supunha meu sustento
era embuste impedindo o meu intento,
era o medo das contradições
pra me manter menino
vendo um homem a se decompor
aprisionado em formas fixas
de um poema inacabado.

Salutares dores denunciam
minha estátua interior.


Olho o varal
e estendida a alma estanque
que se move à revelia da vontade
pelo vento de um sentir
que não se abala
porque é plena liberdade.

E o corpo nu em palco aberto
a me compor como um poema incerto
e a abalar a multidão
que aprisionada grita
estagnada por aquilo que não vê.

Sentenças e crenças que se mesclam
no auditório imaginário
desta ficção que aliena o que não somos.

Sopros que da alma eclodem
para sucumbir o que morreu
num picadeiro onde ninguém ri
porque o palhaço representa
um roteiro que não entendeu.

Mas a estátua aos poucos
bole a face e causa susto
pro auditório que a custo
arrebenta a parede deste imaginário
e sorridente acha imprudente
as cenas que não vê.

O teatro se desfaz
e a estátua sente o outro lado
do cenário que a prendia
e vê a vida e vê o dia
e à revelia da plateia sentenciada à ilusão,
vai procurar outro roteiro
para outro palco
numa nova ordem para a velha ficção.


 A FARSA

Em meu silêncio imaginário
o incômodo de alguma coisa
que se quebrou por inteiro
violando as aparências
que adornavam os fatos.

No coração o tempo dói
como em tortura o prisioneiro
alucina-se e delata o que não viu
e delator assume pelo crime
que não cometeu.

E de ilusões desilusões são fomentadas.

Desvencilho-me dos sonhos
e sonolento esqueço
das sobrevivências incompartilháveis
que me detiveram no que nunca fui.

Falácias poéticas que deterioram
metáforas invisíveis
nas figuras das palavras
que não foram ditas.

Sonhos de vidro que se rendem
à normalidade do dia
enquanto que parafernálias metafísicas
determinam a cada verso a poesia necessária
que jamais traduz o indizível do que dói
no coração que é delator por dentro
enquanto que por fora
pela face em farsa
ri.


ALÉM DAS CERCAS DO QUINTAL

Falta coragem para ir à janela
e libertar os sonhos
que se entulham nos valores
que deprimem nossa cela.

Falta coragem pra se amar
como se ama quem nos ama a sós.
Aquele amor libertinado, de prazer de antes,
de prazer de meio e eternizado após.

Falta coragem para o sim
quando se emprega o não,
impregnado de amarras que deprimem
a liberdade que alimenta o coração.

Falta coragem para o não
quando se acata o sim à revelia da vontade,
em cumprimento ao estabelecido
que deturpa a nossa verdade.

Falta coragem pra mudar de rumo
ainda que preciso fosse a marcha ré,
para que a vida seja, tão somente,
a plenitude que ela já é.

Falta coragem pra beijar na boca,
pro abraço e pra revolução,
mesmo que revolucionariamente
a gente só liberte a nossa emoção.

Falta coragem
pra quebrar as cercas deste mal
e ver o mundo além dos muros,
além dos horizontes do nosso quintal.


 A MÃO E A LUVA

Uma chuva leve
lava o meu olhar
que peca.

A alma ardente,
o coração em chamas.

A minha mão
na luva
a esconder-se do que toca.

Dores que pulsam
incisivo tempo
de espera.

Relativo
o meu semblante vaga
no horizonte aberto
como afago pro olhar fechado
que se busca no infinito incerto.

Na chuva leve
em denso olhar
um pranto morno
a se mesclar
no frio das gotas
que me tocam
neste procurar. 



A MARIPOSA

A mariposa,
de vida breve,
pousa em minha sala
atormentada
pela luz da tela da TV
que me atormenta
reprisando o que não quero ver.

A mariposa
satiriza a minha pose,
as minhas posses
e minha fortaleza suja.

As minhas ambições,
a minha alma,
a minha vala,
a minha sala estática
de apática que é.

A mariposa,
de vida breve,
das minhas décadas
de vida afã,
ri.

Ala pela sala
e da janela
a liberdade ganha
a escapulir da minha cela
como quem tem pressa
porque ainda sonha.


 A MÁSCARA

Estranhamente posamos
sob um aspecto qualquer
da expectativa coletiva
escravizando-nos
no corriqueiro cumprimento
do que é a nós determinado.

E não vivemos mais
além do ego servil
exposto aos olhares indigestos
que espreitam o estático.

As aparências
impõem funções,
sanções, neuróticas reações
e deterioram as emoções.

Senso social maléfico?
Dialética?
Ética?
Ou réplica do caos coletivo?

Máscara fotográfica
da escravidão dos sentimentos,
encenação anômala
de fictícia missão vulgar.

Emoldurável pesadelo
a arrastar-nos nas relações
que reeditam o pânico
e mistificam a libido em meio ao sonho crônico.

O que esperaria o coletivo
para as representações
do roteiro de hoje?


A MÁSCARA NO ESPELHO

No espelho
a máscara dirige o meu cenário
de mentiras que me acalmam
no espetáculo de contradições
que represento.

E vejo a sombra que de mim
nos outros resplandece
ser o que nem sei se sou,
mas que no outro
como espelho transparece.

Máscara em mímica
que incorpora o meu papel
e hipnotiza meus sentidos
encorajando a maquiagem que me imponho
pra pensar em outro sonho
diferente do que sou.

Um figurante que protagoniza
apenas as cenas de dor.
Dublê de si
que anestesia a cara confinada
num espelho que não tem mais cor.

Máscara despida à minha frente
refletindo as várias fantasias
que estão fora do espelho
em que me assisto.

Fecham-se as cortinas
e o auditório vai embora
enquanto um louco balbucia
que não teve graça
porque a máscara despida
de pirraça ou de pavor,
era a cara maquiada
do seu próprio autor.



 A METÁFORA DO CAIXÃO

Metáforas transitórias
meio a juramentos de eternidade
na frivolidade dos olhares
que mal se espiam
na cumplicidade de uma liberdade ineficaz.

As execuções penalizam os sentimentos
sentenciados às rotinas
de um querer imaginário e inatingível.

O corpo, já bem desfalecido,
é uma coisa  a caminho do caixão
que clama pela lápide da porta
que não pode ser aberta.

Arrombamentos que se impõem
qual crimes necessários
ao horizonte sem tramelas
enquanto que alguns entes despencam
dos lustres no cenário das alianças.

Improváveis paixões
apunhalam a estabilidade
bem comportada do dia a dia
arrancando a paz dos corações
para supri-los com desordens
de procuras vãs.


 A MÍMICA

Leio a representação alheia
pra compor o personagem
que hesita no papel imposto
pelo palco que se decompõe.

No camarim, qual mímico de si,
o espelho desmaquia o próprio olhar
e sai gritando que o cenário
determina a aparência
que a plateia tenta imaginar.

Cortinas que caem sobre o auditório,
que simplório, meio aos enganos,
roteiriza atrás dos panos
soluções aos desenganos
frente aos atos, que profanos,
se compõem por entre os anos
no imaginário que a vida
determina a se representar. 


 AMIÚDE

O poema cálido
em meu peito morno
adorna um coração
que pulsa frio
o vulcão da espera.

Do que fui
ao que será
do que não sou,
não sei,
assim como meu sonho
não é mais
o que há pouco era.

Pois minha alma no poema
enfadonha-se em segredo
e me desfaz nefasto,
enquanto que amiúde
se amiúda o coração de medo
e um grito vira o enredo 
dentro do silêncio vasto.



 ANDARILHOS DO TEMPO

Pela areia infinita dos dias
vasculhamos, andarilhos do tempo,
grãos de felicidades
que se perdem na desesperança
que rodeia o coração.

E arrastamos lento olhar
pelas entranhas dos sonhos
que adormecem na espera
qual a flor que semeada não vinga.

Verso de poeta envelhecido,
passado da hora da inspiração,
metonímia pobre
a se perder no esquecimento
como o amor não declarado
em uma vida de paixão.

Tema frio de vida fria.
Quase todo sentimento
gira em torno
de paixões que não vingaram.

O poema parou na areia infinita dos dias,
andarilhas rimas do tempo,
desesperançadas, passadas da hora,
proibidas paixões
que deformam a existência
numa espera de envelhecimento
e dor.



 ANOMALIAS

Obscenos cenários de gente,
anomalias sociais
que se confundem
no obscuro das faces
que estranhamente se fundem.

Formas geométricas
que formam fisionomias medonhas,
melancolias, gente bizarra
que no abstrato das ambições
ainda sonha.

Edifícios de medos,
tédios que se empilham
num amontoado de iras
que se cruzam
num silêncio de poucas palavras.

Frases perdidas
que escapam do significado das bocas,
que, mortas, cospem semânticas anormais
entre catarros e automóveis,
bucólicos seres que se movem
em rançosos vícios e falsas morais.



 A PESSOA

Em minhas lágrimas,
relativamente sujas,
estão as incertezas
de uma alma contraditória
e incompartilhável.

Trago no meu coração
o ópio das horas.
Indiferente a quase tudo
atormento-me
com a simples futilidade metafísica
dos que passam ao meu redor.

Imaginar que no dia seguinte
seguirei vivo
traz a insônia necessária
ao que quero compor.

Seria tão fácil se eu fosse os outros.
Dentro de mim, múltiplo,
a traição é sigilosa.

Do outro lado da minha janela
inúmeros donos de tabacaria
riem-se de mim
que não me sinto pessoa.

A ordem civil me transformou em nada.
Sintetizado em cumpridor de obrigações,
sem sensação nenhuma de vida,
desarmonizo-me
meio a uma harmonia falsa.

O universo se reconstruiria
em ideal de esperança
se o sorriso dos que passam
do outro lado da minha rua
não fosse
só um fato infeliz.

As tabacarias quase não existem mais,
mas os poetas são os mesmos
e se multiplicam em cruzes
que demarcam milenares aflições.

O pássaro que avisto no horizonte é irreal.
Melhor não ver
o que a parede do imaginário
sanciona como fato.

Acreditar que a vida
arrasta o destino das coisas
é ceder ao medo do invisível
e ir às representações
que amenizam nossos crimes inafiançáveis
e perfeitos.


 A PIPA

Os homens espiam os lírios
e os colibris, os homens.

Dos bancos das praças
os velhos olham as pipas
invejosos dos guris
que não enxergam as horas,
entretidos por uma eternidade
imaginária.

O tempo, um brinquedo
sem volta
qual o vento forte
que a linha arrebenta.

O menino espia a pipa
e não vê o céu.
O velho, o céu
sem enxergar o sol. 

Entre a pipa
e o horizonte
um vácuo de infinito
que o olhar
do menino
não atinge
enquanto que o velho
pressente. 


 APÓCRIFO

No olhar,
a linguagem da alma,
a transparência do ser
impelido ao que não pode ser visto.

No olhar, lasciva lassidão
onde as vontades,
impróprias,
viram fantoches do medo.

Laço lasso
do espírito
em nó,
que clandestino,
sedimenta o sonho títere.


 A QUARTA PAREDE

No fundo do eu,
espectador do imaginário
e das contradições,
assisto o meu elenco
na passividade de plateia 
que sou.

Figurante do que sinto
enceno os dias
na arena de coadjuvantes
que protagonizam
o sonho improvisado desta ficção.

Cômica caixa cênica
em suspensão de descrença
que o auditório não vê,
embora pense que creia.

Parede imaginária
no invisível
deste pedaço de vida
a confundir o elenco.

Palco de invasores sentimentos,
nas coxias intransitáveis da alma,
que não vêm à cena.

Mundo lúdico enredado
na rotunda da emoção.
Quarta parede a impedir o sim
quando a plateia
só enxerga o não.   



 A RUA DO DIA SEGUINTE             
                                                                           
A rua morna, a madrugada fria.
No peito o apetite voraz
de um coração que queima
vitimado por aquilo que não vê.

A procura, a alimentar a emoção
caminha na velocidade das luzes
que iluminam e não aquecem a ilusão,
que tenta, mas nem sempre crê.

Olhares estanques desfilam
e não se olham entre os muros
que cerceiam o porvir a algum lugar nenhum.
Homens e coisas que se agrupam
na cidade sonolenta que em desespero já não pode dormir.

A rua do dia seguinte
é a metamorfose do nada
equivocadamente não se transformando em coisa nenhuma.

O instante medieval,
da pedra ao apocalipse,
parece que se eterniza
em uma internet de nerds e niilismos.

A evolução sempre a um passo da bestialidade.

E a poesia insiste insossa
a sistematizar no metafísico
o que é real
de uma história que não pode ser descrita. 


AS CERCAS

O sentimento intenso que me acirra
a arrancar as cercas do meu ser
põe-me destemido a me despir
de amarras que me agridem
prisioneiro dos destinos
que não posso ver.

Lá fora, os sonhos públicos,
as minhas mágoas na rua
como se fossem coisas despidas
espiadas por pessoas estranhas
ao que sou em cada verso que sinto.

Observado
disfarço de céu intenso inferno
e não me atrevo a revidar
os que me olham nu
qual transeunte a vasculhar um falso eterno.

Havia uma utopia na aurora
e ela não chegou ao pôr-do-sol.
No meu jardim
uma esperança com pétalas
desabrocha-me inusitado a cada amanhecer.

A cerca intensa acirra no meu ser
o sentimento de liberdade
acerca dos destinos que me levam pro infinito.

Um prisioneiro no poema,
a cada verso que liberto
como um grito na nudez do que pressinto
enquanto finjo que não minto
sobre o que não é verdade,
mas que de fato sinto.


 AS COISAS

Sobre os objetos
o olhar dos homens.
Sobre os homens
o ostentar dos objetos,
mais eternos, estáticos,
depositários do olhar das gerações.

A estante, a escrivaninha,
a penteadeira incômoda
observando o pentear
de quem se vai a cada instante.

O castiçal impávido
em um cômodo
do tempo
intacto.

Lá fora a tempestade,
abstrata
como o olhar
que observo
sobre as coisas.


 AS ESTAÇÕES

Olho pras ranhuras no céu das madrugadas de setembro
e me pergunto quando chegará a primavera.
Nos meus sentimentos
algumas flores que não têm vingado
e então culpo as estações
por esta falta de cor no que avisto das coisas.

A alma fria do inverno
aguarda um tempo mais ameno.
Quem sabe as tempestades que virão
farão de mim algum verão qualquer.

O dia a pino faz da noite esquecimento.
A escuridão é uma hipótese
no espírito ao meio dividido
pelas sombras de um sol insuficiente
para aquecer-nos por inteiro.

Há um claro no outro lado do escuro
assim como é certeza
que sementes dormem pelas estações
na espera
de vingarem exclusivamente na primavera.

Uma rebelião de cores e cheiros
que invadem os jardins
e tocam os homens que dormem
no desconhecido das sensações.
                      


 A TEIA

Às vezes choramos
porque a alma dói
tudo aquilo
que o corpo já não sente.

Temos planos
adiados pelos anos
e sonhos cancelados
pelos desenganos.

Tramamos o dia
como quem a teia tece
à captura de si.

Entre os instantes,
a vida, por acinte,
pauta utopias
para a ordem do dia seguinte.

Mas mantemos calma
achando que temos alma.
E será ?



A TERRA DAS CRIANÇAS PRETAS

E os soldados brancos
sentinelam as crianças pretas.
E as crianças pretas
já não brincam de marchar
e observam os desfiles
dos soldados brancos.

E os soldados brancos
nunca brincam
vigiando
esta terra de crianças pretas.

E as crianças pretas
acostumam-se  a jamais serem soldados
e só brincam de crianças pretas
dominadas por soldados brancos.

...Pois que ser soldado
deve ser só para crianças brancas
que já nascem dominando
até os sonhos das crianças pretas.



 ÁVIDO


Devora-me
a sombra do ser
que segue o que sou.

Devora-me o que sou
na sombra do ser
que me segue.

Segue-me a sombra
do que sou
e me devora
o ser.

O ser que sou
devora-me
e sigo assim
a sombra
que me segue
ávida.




 BALUARTE


Debate-se um poema em toda alma presa.
Quando é bem demarcado, às vezes não tem rima.
Se tem um grande tema, falta-lhe a beleza
que exige o achado pra ser obra prima.

E o artista a procurar a arte de grandeza,
sabendo que a procura é o que ilumina,
se perde a meditar, à caça de sua presa,
qual louco atrás da cura para a própria sina.

Então em instante raro onde a poesia,
qual deusa de um castelo, presa em baluarte,
clareia-lhe o faro como a luz do dia

e o artista vira um elo para outra parte
e o verbo de tão claro a alma contagia
enfim, o imenso belo que só há em arte. 



 CARTOMANTE

Em meu espelho
a sorte incendeia
a pulsação do meu olhar
metódico.

O dia impõe a inspiração
da vida.
Ações são decretadas
nas necessidades
da lida.

O instante imposto
contrasta-se à revelia
do nosso coração
vidente.

O futuro é a incógnita
da nossa evolução
pendente.

O coração
é a cartomante sensitiva
desta depressão fugaz.

O medo impede o passo.
Vislumbro no caminho
a escuridão tão violável
pela luz do sonho e passo.

Então recorro à cartomante
como quem se entrega
à embriaguez da inspiração:

- Quando somem meus desejos,
minha fé, minha ilusão...
estão perdidos no meu eu, no infinito ?
Afinal, aonde estão ?                               



CANTO DA LIBERDADE             

A ave que não sabe que está presa
não procura a liberdade
e vê beleza pela cela
porque é parte figurante
do cenário que lhe atrela
no teatro da prisão.

Mas a ave que percebe
que o seu canto é só tristeza
porque sabe que está presa,
logo busca de verdade
descobrir se a liberdade
é de fato uma ilusão.

E com certeza sentirá
que além do canto tem beleza,
tem encanto e realeza
e verá que a fortaleza que lhe prende
é a fraqueza que lhe rende
a ser ave rastejante
que só cisca pelo chão.


 CICATRIZES

Estagnado em meu quintal
espio o sol
como quem desfalecendo
observa o que não vê.

Recolho o olhar sobre as misérias
enquanto escolho os sonhos
que reprisam as procuras
e disfarçam cicatrizes
nas loucuras do ilusório que se crê.

Um medo involuntário arrasto
pra ninar as marcas
do incurável desta solidão.

E a luz do sol
a sombrear o olhar ao chão,
reflete um corpo entristecido
a rastrear pelo quintal
o que sobrou do ser vencido
pelo tempo que a verdade da mentira
transformou em ilusão.


 DILEMA DOS DIAS

Há que se acordar
e caminhar o dilema dos dias.
Há que se adiar o riso e as agonias.
Mastigar o ódio como quem
tritura o próprio guizo
e se seguir diante de incertezas
como se viver
não fosse mais do que preciso.

Há que se ter e que se ver
que o ter não basta.
Há que se ser e se conter
maquinalmente como o gado pasta.

Há que se esperar do tempo quase tudo
vendo-se que resta do momento o futuro
e que o tempo a passar-nos sempre mudo
em silêncio ultrapassa o nosso escuro.

Há que se ver que a morte vem
e a vida em vão se vai
e da angústia
a gente assim se protegendo
vai se fazendo alicerçar de astúcia.

E se fingindo de coragem neste medo
segredamos as verdades que escondemos
nas mentiras que pintamos no segredo
das respostas ilusórias que jamais sabemos.


 EFÊMERO GRITO

Oh! Infelicidade encarcerada
nas almas que se desesperam!
A vida a debater-se nas faces
apagada na escuridão dos olhares que esperam.

Há uma loucura exposta
no cárcere do que não foi dito
no subjetivo que se mostra
no concreto deste efêmero grito.

E quase tudo dói
na abstração incômoda
deste descontrole insano.
Sentimento que destrói
esta ilusão anômala
que espelha o nosso engano.

Alucinações que se compõem
em perigosas verdades,
feridas que nos expõem
em vexatórias insobriedades.

Oh! Alienação destas mentiras!
Ilusão transtornada de invisível
a se multiplicar em violentas iras
que se debatem diante do intransponível.

E a felicidade embalsamada
em fugazes irrealizações
esconde-se da visão do nada
destas alucinações.

Clínico delírio
a conter a alma.
Mímico martírio
a manter a calma.

Há no olhar uma procura
encarcerada em um silêncio que corrói.
No riso, antagônica tortura
estampada numa solidão que,
às vezes,
dói.


ERRO


No olho do outro
o erro visível,
intenso.

Na menina dos meus olhos
a metáfora
que eu não quero ver,
no que faço,
no que minto,
no que penso,
no que não posso conter.

  

ESTAÇÃO

Outono nos corações dos homens.
Crianças arrastam seus uniformes
para algum sonho distante.

A felicidade dos loucos
contrasta-se com os gritos de liquidação.

Os sonhos, nas estações, que partem.
Nas estações, os homens, que sonham.
Nos homens, os sonhos, sem estações.




 FRUTO PROIBIDO

No perigoso precipício da véspera
do cinquentenário do que fui
a flor que acena flui
involuntários sentimentos
de uma vida que jamais senti.

E urge amar o inusitado
neste estado de penúria
que é o tempo em marcha
como a flor que surge
e brevemente passa
no jardim que ficará.

Terminada a pressa,
o futuro incerto
de quem já viveu o permitido
e vê, à margem de um abismo,
um labirinto sem fim.

Agora eu não sou flor,
não sou jardim,
sou a semente que dormia
renascendo como o fruto proibido
mas que sempre esteve em mim.


 GRITO AUSENTE

É indivisível o que sinto.
Uno, pra sonhar, às vezes,
minto. 

Pra viver, nem sempre sonho
escondendo no olhar o sentimento
como se o momento
fosse um vil compartimento
de um enorme labirinto.

E o futuro
alardeador do infinito
é improvável,
eu só pressinto.

Então me guardo no silêncio
indivisível nesta imensidão
de sentimentos do presente
que aguardam o momento
para a liberdade
de um intenso grito ausente.




IMENSURÁVEL


Para fugir do medo
adornamos algumas mentiras belas
que nos fazem
heterônimos do anonimato
que sentimos.

Do cansaço do tempo
trazemos a saudade do bulir
nos proibidos, nas vergonhas
que em contraste com a solidão
germinam o prazer das coisas.

É como se o bem e o mal
a se mesclarem,
numa coisa una,
imensurável,
fossem se  compondo
no que somos de intolerável.

Assim,
pérolas e porcos
estercam a busca
da verdade vislumbrada
que a mentira ofusca.

E do inesperado,
parido deste prematuro
que o instante instala,
o brado olhar a germinar
o grito que se  expande
enquanto o sentimento cala.

Mas pra fugir do medo
atiramos o olhar a qualquer coisa,
violando qualquer um,
inibindo a violência
que se instala
nesta síndrome de pânico comum. 



 INCONTESTÁVEL

Atravessamos o futuro
por dentro do dia a dia
deste presente incontestável.

As coisas se dão assim, irremediavelmente,
e vão alicerçando um imenso passado
sob o nosso instante frágil.

Fumamos, morremos, paramos de fumar ou de viver,
fazemos aniversário de vida e morte
até que nos esqueçam
por ausência plena de importância temporal.

Ao certo ficamos em meias verdades
inteiramente inacabadas.
Em verdade acabamos entendendo
que somos incertos demais
para o risco das verdades inteiras.

E riscamos do mapa alguns sonhos,
algumas brincadeiras, amigos, coisas, ideologias.
Procuramos o preciso para o que precisamos
neste impreciso agora.

E no abstrato
destes sentimentos impalpáveis,
na sequência dos fatos que arquitetam os instantes,
vasculhamos o futuro inadiável
destes dias de completa lentidão.

Então olhamos o pedaço de rua que nos cabe,
o recorte de horizonte possível,
os muros impávidos que cerceiam os olhares
e atravessamos o futuro por entre o dia a dia
deste tempo incontestável
qual um templo que professa ilusão.



 INFINITO

Sobre uma parte
do que sei, escrevo
e se não sei, me calo.
E do que escrevo,
uma parte eu nem sei,
e mesmo assim, às vezes, falo.

Sobre o que sinto
uma parte escrevo
pra tentar saber
o que de mim eu minto.

E nunca sei se escrevo
a parte que me cabe
do que sei de mim
e , às vezes, calo
pra fingir o que não sinto.

E sei que do que sei,
à parte, no que escrevo,
parte não me cabe
já que eu só pressinto.

E no que sinto deste pressentir
há o conflito entre o silêncio e o grito
transformando o poema
em linguagem de infinito.

INTERFACE

A me conduzir o poema perde-se
e pede que eu não o faça mais
enquanto me desfaço
refazendo versos incompartilháveis
que jamais deveriam ser escritos.

O poema que me acolhe
recolhe de mim
os dispositivos incompatíveis
com minhas sensações
de eternidade e insensatez.

A palavra que a mão conduz
é a mesma que dilacera
quando o sentimento não condiz
com o limite entre os corpos
já que a vida, muitas vezes,
não permite a conexão com a vida
e a razão vira a interface da emoção
que contamina o poema que se esvai
esfacelando-nos
sem sentido ou poesia
qual a tela que computa a dor.        


  
INTERLÚDIO DO TEMPO

Interminável interlúnio.
Parco olhar a procurar-se
nesta vasta escuridão.

Interlúdio do tempo,
maestoso intercalar de instantes
nesta teatral composição.

Lento e imponente,
a iludir-nos,
o presente.

Futuro que não vem
enquanto passa-nos.
Passado estático.

Intermúndio do tempo,
intemporal presságio.
Internúncio sem resposta.

Intenso intento de eternidade.
Maestoso procurar-se,
qual na partitura, a inspiração.

Interlúnio do tempo
no interlúdio dos instantes
a acalentar-nos
nesta interminável ficção.


  

INTERLÚDIOS

As músicas que estão em nós,
os versos, sonhos, as saudades...
fazem-nos múltiplos.

Contemporâneos, às vezes.
Passado quase sempre.

Tocamos as coisas
em dó maior do que sabemos
enquanto que a pena
rege um texto sem musicalidade alguma.

A vida é uma representação
de vagas sensações
que nos concretizam
resultado de ilusões arrítmicas.

O hoje é executado pelo ontem
ainda que não exista amanhã
e tudo isto nos transcende
à harmonia do infinito que imaginamos.

As músicas em nós
nos acordes se desatam
acalmando os desalinhos
que o silêncio faz na alma
que se orquestra em interlúdios
de um efêmero que não passa.


  
JARDIM DO ÉDEN

Em meu jardim
as flores espiam
o meu olhar parasitário
a espreitá-las sem vê-las.

Observado
fujo a face ao horizonte
que em prosopopéia
se escandaliza com os homens
que se perdem nos jardins
a procurar um belo
que não podem ver.

No dia a dia
noite a dentro
enterram-se
sementes mortas de si.

E vigiam a aurora
temerosos do que pressentem
enquanto a escuridão os contém
pra no outro dia sem medo
se perguntarem se um dia
verão as flores que afloram
lá no jardim do além.




JOGO A DOIS

Contamos as horas
enquanto lavamos os sonhos,
enxugamos as mágoas
entre o silêncio e os pratos
da noite passada.

Estendemos o novo dia
sem vermos que o sol ainda não se pôs
e o resto da noite é apenas
um pedaço a mais de escuridão.

Vasculhamos o pó do coração
enquanto varremos os resíduos da sala
que despencam da tevê
onde assistimos um jogo a dois
no qual o indivíduo não se vê.

Arrumamos a cama vazia
enquanto vagamente vem
a ilusão que já terminou
com o sonho bem comportado
num canto da penteadeira
(não sei ao certo quem o arrumou).

Na escrivaninha, trêmula,
você se vê entre o teclado e os meus dedos,
que prendem o seu coração,
trituram os instantes
que ao poema já não servem mais.

O sorriso, apenas um válvula de escape
que não conseguimos fechar,
como a torneira que pinga incessante,
enquanto o coração é uma descarga de dores
que se esvaem a cada instante.

A porta pode não se abrir
e ficaremos assim,
presos na propriedade
de termo-nos sem termos
uma janela pra a liberdade
de sermos.



LÁGRIMAS SECAS

Quando eu for embora,
a tampa da minha panela preferida,
o bule, o cheiro do café,
em minha casa permanecerão por mais algum tempo.

O meu cão, certamente,
a esquina espiará, à minha espera,
nos horários de minhas rotinas.

As minhas lembranças, cartas,
quinquilharias, que a mim eram riquezas,
boçais entulhos a serem incinerados virarão
aos meus descendentes,
que iludidos em suas buscas,
me esquecerão
assim que as lágrimas secarem.

Insistentemente alguns versos
determinarão a minha eternidade passageira
a um pouco mais além.

Oh! Insuficiente poesia
a burlar a alma dos outros
desdizendo as verdades,
invertendo as mentiras
para encontrar alternativas
que não servem pra ninguém!



  
LIVRE ARBÍTRIO

Algumas ruas cortam o meu coração
e se encruzilham na imprecisão
dos inexatos sentimentos
que permeiam  este procurar.

Perco-me abstrato
no concreto das contradições
que cobram os degredos
que não posso cumprir.

Caminhos demarcados
por passados sem lembranças
e arrependimentos sobre fugas
que impediram o que não se viveu. 

Futuro de vento
que nos deixa para trás
qual a árvore
que não cede ao vendaval.

Raízes imóveis
de um presente qualquer
ingenuamente predestinado a passado
e submisso ao que é determinado
pelo que virá.

Descaminhos que se mostram
em acenos pra desassossegos
das mentiras dentro das verdades
violando os arbítrios dos que pecam
pelas liberdades.                                          




 O ABUTRE

Cacoetes de inspiração
impõem os versos
sobre o que em mim
degrada a madrugada fria.

Anestesiado pela solidão
lido com sonhos
que são coisas
que deturpam
uma sonolência que dói.

Movimenta-se sorrateiramente
o peçonhento sentimento
de náusea
e o poema
é atirado para fora
como uma gosma insossa
transformada em flor.

Alimento-me de mim
como um abutre que se nutre
de dor               
e que degusta o estranho belo 
que há no verso a se compor.      

Ideologias putrefatas
gerenciam
minha alma involuntária
de poeta ditador
que no poema
só vasculha a liberdade
e tem no sonho da verdade
a escuridão
a transformar em resplendor.




O ARGUEIRO

No semelhante
o argueiro imenso
a competir
com nossa trave pequenina.

E na menina dos olhos
o ardor intenso da esperança
que espera oscilando
entre a fé de uma razão que contamina.  

No semelhante a miragem
de uma dor universal
que não sabemos se é por bem
que nos faz ver o nosso mal.

Semelhantes os olhares se procuram
denunciando invisíveis que torturam
previsíveis como o dia ainda não ido
ao futuro do que é desconhecido.

E no que desconhecemos,
na dor do outro que nós também temos,
o rir possível,
o prodigioso amor
que pressentimos e não percebemos
porque à nossa evolução
se mostra inteligível.




O BALÉ

A lamparina sobre a mesa
tem na chama que ilumina
um balé de bailarina
que incendeia a escuridão.

A menina imagina
o balé da bailarina
e vê na chama
que incendeia a lamparina
um grande sonho que ilumina
como um sol na imensidão.

E como vento toca a chama
que charmeia a lamparina
vem o tempo e toca a sina
e incendeia e ilumina
o que imagina a menina
pra sair da escuridão.   



O BANCO

Hoje, poderia ter feito planos,
contado estórias,
contado os dias
que arquitetam anos.

Poderia ter feito charme
ou me escurecido
em um depressivo verso branco.

Poderia ter mastigado calmante,
folheado a minha estante,
mas hoje só fiz um banco.

Sim, um banco destes de se sentar,
um banco destes de antigamente,
feio,
que nem cabe no lirismo dos meus versos.

Hoje, poderia ter feito
qualquer outra coisa,
mas fiz um banco.
Amanhã, quem sabe eu faça
um jardim.

Apetrecho fútil
parido de mim
que não me encontro.

E o interessante
é que nem mesmo preciso
de um banco.
Nem mesmo preciso-me.


  
O BAOBÁ

Pela janela, o olhar respira
o horizonte que não pode ser tocado.

O achado de cada esperança
mantém o prisioneiro
visionário do que não existe.

Na desordem dos objetos
a cela de sentimentos que emboloram
e decoram as paredes intermináveis
deste imaginário.

Esperanças cansadas
contagiam os dias
com ideologias
que não foram arquivadas.

Enraizadas
ideias daninhas
que queimam.
Toras que não frutificam,
obsoletas
como baobás de alma.



O BELO

O novo nascerá vindo do velho
qual artista que a martelo
a arte nova cria
transformando a pedra em belo.

E o belo que da pedra sai
molda o que é duro
como a luz em beco escuro
em si se sobressai.

E do velho que se vê no novo
outros sonhos reflorescem
como as gerações em cada povo
um novo revolucionar aquecem.

E assim se tece a criação
se transformando a cada renascer,
verso a vagar de mão em mão
pra no instante eternizar o ser.

E o novo que se vê no velho
é o criador a ourivar a inspiração,
qual artesão a cinzelar verso libelo
para eternizar do criador a criação.


ÓBITO

A gente morre um pouco
porque o cão de estimação
lambuza o nosso quintal,
porque queremos mais do que precisamos
e porque as folhas sujam
a sacada após o temporal.

A gente morre porque abusa,
por não ter o que fazer
ou por fazer o que não usa.

A gente morre pelo ato,
porque aperta o sapato,
porque queima a comida,
a gente morre por matar a vida.

Morremos porque amamos,
e em excesso nos escravizamos.
Morremos porque somos
vitimados pelas iras que guardamos.

Morremos por falta de tempo
de ver o pôr-do-sol
e por falta de sol porque não temos tempo.

E ainda a gente morre
porque não suporta
da tevê alienações
e porque eram falsos
os profetas das revoluções.

A gente morre de sim,
a gente morre de não,
a gente morre por não ver
o que alimenta o medo
em nossa emoção.



OBJETOS DE DOR

Amanheceu e não sabemos o que fazer.
O sol insiste, mas não abrimos a janela
e ficamos por mais algum tempo
para ver se o medo passa.

Caminhamos pela sala
na velocidade possível
de quem vasculha ao redor de si
em meio a objetos de dor.

A rua parece escurecida
por rotineiras iras.
As faces rangem os dentes
enquanto que sorriem
o sarcasmo
daqueles que cumprem pena eterna.

E nos descobrimos cumpridores
de nossas sentenças
em meio aos raios que nos transpassam
nesta escuridão
e debruçamos o pensamento na janela
à busca de, quem sabe,
um sonho que nos acene.

Amanheceu e o sol insiste
refletindo
o enfurecido sarcasmo
dos que cumprem esta pena que não passa.

E não sabemos,
objetos de dor,
o quanto suportamos
desta eternidade
vil.



O BOBO

Sereno mato a minha dor
e estrangulo quem não sou
para saber de mim.

Acato a solidão que me detém
na multidão extasiada
que maquia os seus prantos
com comédias sobre um nada
que jamais tem fim.

O roteiro é um silêncio
de caras e bocas que se movem
entre as farsas de um amor ruim.

Do lírico ao trágico, um instante.
Script incerto
onde o tempo é da morte
o seu fiel amante.

Um bobo cortejado pela corte
que sorri da pantomima
que dispersa o foco do seu drama
pra fingir que é ironia
a traição do coração que se comporta
pra esconder o que de fato ama.




O CACTO

Vejo o mundo caminhando
como um caminheiro
no deserto vê um cacto.

Vejo esgoto escorrendo
sob nuvens que passeiam
e pessoas rastejando feito ratos.

Vejo a flor
que brota desse esgoto
e a dor que, feito nuvem,
esgota a flor do rosto.

Vejo os restos
dos sentidos que ensinaram
se tornarem continência
e a flor secando pelo rosto
como um cacto
em redor da ausência.



 O CAMAROTE

Do camarote
observo as aflições
no camarim.

Alguém que teme
se representar
maquia em prantos
uma máscara de risos.

A peça é parte arredia
do contexto de paixões intensas
que se quebram em instantes
desfazendo as emoções dos outros
para sempre.

Alguns amores
despencam em contradições
e se arrebentam no tempo
como se jamais tivessem existido.

O público a compor a cena
no cenário não se encontra
e vaia a cortina que despenca
denunciando o ator
que maquiado
no espelho
estava
nu.



O CARPINTAR

Agonizam empoeirados
em meio a velhos ideais
alguns poemas mal concebidos.

Os móveis, desordenados,
impedem o plantio dos sonhos,
que daninhos, esmorecem.

O verso impõe a solidão desnecessária.

É impreciso o meu olhar
no interior do que pressinto
a vasculhar o meu futuro
no presente que restou
deste passado falso.

O que havia de sabedoria
nesses sonhos que jamais sonhei,
mas que impostos, se deterioraram?

A agonia arrasta-se, maligna,
a contaminar a minha face
envelhecida pelo riso que não veio.

Os amigos partiram na renúncia
do que era falso da espera,
que subordinada ao sonho, se desfez.

E o silêncio, carpintando o vago,
esculpi a luminosidade
de outras portas...

Possibilidades do instante
que arquiteta incessante
o extermínio da agonia
restaurando um outro verso
para a mesma poesia.



O CASTELO

Encastelados em si
os homens vigiam os ventos
como se temessem no horizonte
o que chamam de eternidade.

E tocam o semelhante
com saliva gasta.

Incapacitados de alma
viram sombras indiscretas
do que não conseguem sentir
na dor que o coração arrasta.

E pintam de novo o erro antigo,
pregam o céu,
o certo pelo duvidoso,
enquanto a dor na cor do olhar
encerra um inimigo.

Palavras inanimadas no hálito
do que já foi dito
movem o teor vago das coisas
que invadem as sensações
e vagam na nova ordem
de cada conflito.

Vigiado
o coração ao vento
encastela-se de infinito
como se o olhar ao universo
buscasse o reverso do silêncio
na inviabilidade
do grito.


 O CIRCO

Do alto do meu espetáculo
observo na platéia
o que não quero ser
e represento pros que aplaudem
o teatro do que somos
nas coxias onde estamos,
mas mostrando um picadeiro
que não quero ver.

E assisto as reprises dos meus sonhos,
enfadonhos sentimentos
de um palhaço que se pinta por dentro
para se esconder.

Lá fora de mim,
a estrada que procuro pra não ser
o espetáculo que agrada
aos transeuntes que me entornam
boquiabertos à espera
dos meus atos
pra sentirem tudo aquilo
que não podem crer.

No entorno do palco
as revelações esparramadas nos olhares
dos que espiam as esquinas do que represento
pra plateia, que patética, sorri.

Ah! Vulgares vidas que vagam
vivendo as várias vadiagens do artista,
que volúvel,
vê no vago
um vazio intenso.                                                          



O CONDENADO

O sol a incinerar
da noite os restos dos sonhos
crema as melancolias
desta insônia sobre o nada
em quase tudo que incomoda.

O pedaço de corpo
a me conter
contém o que da alma
em mim pressinto
nesta estrada que me molda.

Latente vida
que da morte
escapa
mais um pouco.

Vidente em mim
um sóbrio insano
se transforma
em mais um louco.

E um caminhar que oscila
entre a queda e a correria,
a me levar a outro lado,
faz de mim o que não sei,
o que não sou,
como o silêncio
faz do grito um condenado.        



O CRACK

A rua está fria
e não há poesia
no ar que envolve
o mascarar destes sorrisos.

A esperança
a ser pavimentada,
em abandono
clama
pela Providência.

Há que se ter prudência
na abordagem do olhar.
Há um crime no clima
que envolve este clamar.

Alguém pode sacar
a arma da palavra
e a depressão do coletivo
pode abalar a bolsa
dos nossos valores.

A rua está fria
e o sonho,
mal agasalhado,
é só mais um pedinte
desabrigado de ilusão,
que pulsa por acinte
flagelado no coração.

Há que se ter prudência
na abordagem do olhar.
Há um crime no clima
que envolve este clamar.



ODE AO SILÊNCIO

E do silêncio arrancamos o atordoamento das horas.
Emolduramos nossos medos que nos bestificam.
Escondemos as iras, as paixões e contravenções
do que está a nós determinado que seja, sem sermos.

E do silêncio as canções,
os versos raros,
as grandes invenções se dão.

E do silêncio a dor que se abstrai.
...E parecemos distraídos compenetrando-nos
no universo vazio de nossas cores vagas
enquanto nos violentando nos defendemos de nós.

Silêncio que nos executa
triturando as sensações que escondemos,
os sonhos que detemos
para não doer a realidade alheia.

Silêncio, teia infinita sem som,
falta de voz, obra sem tom,
todas as tonalidades de emoções
que se misturam para descobrirmo-nos.

E o olhar, este traidor absoluto,
a entregar nossas verdades.
Mecanismos do silêncio que confundem
o que exigem do lado de fora de nós.

E delatados balbuciamos
uma negação facial de riso ou pranto,
enquanto que o silêncio se recompõe
sólido de encanto
com a probabilidade efêmera de infinito
como acordes que se encontram
na composição de um novo canto.


 O EIXO

Inadministrável ser de vocação facínora,
de falácias travestidas de irracionalidades filosofais
e práticas pelo próximo em causa própria
revestidas de oratórias sacerdotais.

Reverenciamos o princípio e não questionamos os fins.
E sem finalidades perdemos os nossos princípios
tornando-nos igualmente ruins.

E discursamos uma sociedade fraternal
paridos todos do mesmo mal.
Somos iguais só no que tememos a sós
e libertadores porque somos todos prisioneiros de nós.

Queremos revolucionar
a depressão latifundiária de nossa emoção,
mas somos vítimas do nosso individualismo tribal,
coletivo apenas na solidão.

Somos contra a miséria do coração,
mas nosso sim equivocado
é eternamente soberano
ao mais abençoado não.

Temos uma pressa coletiva
e saímos atropelando
grandiosos eternos ideais
com ideias efemeramente pessoais.

E como dividir a propriedade que não temos?
Como difundir o que nem ao certo sabemos se queremos?
Como semear amor se cultivamos o ódio?
Verdade se mentimos? Felicidade se não sorrimos?
Igualdade se não repartimos? Fé se fingimos?
Coragem se fugimos? Esperança se iludimos?

Irrealizável sonho travestido de falácias
e irracionalidades temperamentais!

Como corrigir com outro erro?
Como libertar com mais prisão?
Como revolucionar, se não mudamos o eixo,
sequer, da nossa ambição? 


O GARI


O mundo anda sujo.

Um homem varre
o canto da calçada
e canta
um canto de encantar
o mundo,
um canto de encantar
todo mundo,
como se aquele canto
fosse o último desencanto
a se limpar
para se restaurar
todo o encanto do mundo.



O GRITO

Na musicalidade dos versos
a rebelião silenciosa
das palavras enobrecidas
que lavram uma busca incansável.

Em cada ponto,
em cada canto pelos ares,
suprindo os desencontros
atrás do reencanto dos sonhares.

Na melodia dos olhares
a insurreição das frases no infinito,
alimentadas pelos sentimentos,
que reagem ao silêncio
insubordinadas
pela necessidade do grito.



 O LABIRINTO

Calculo o dia seguinte
na exaustiva mansidão que me pressinto.
O hoje a desdobrar-se nos instantes
sedimenta o coração
que avalia o volume das dores
enquanto que em sorrisos
minto.

Computar os delírios
a cada momento de lucidez,
quarar o olhar
como quem busca escapulir
da escuridão
é fuga vã e pouco basta
para o muito que sinto.

E deletar paixões,
banir a paz das ilusões,
o sonho quantioso
a acuar o instinto
que denigre o que não sou
posto que estou parte da tela
como um ponto na aquarela
de um enorme labirinto.  


  
OLHARES

Olhamos de lado
e nos olha o outro,
mudo, num mundo surdo,
a nos espreitar
como se um espelho fosse
a representar, talvez,
uma outra parte do que somos.

E profundamente
vasculhamos o outro lado do outro,
a nos procurar,
e olhares outros repartimos na escuridão
pra clarear a multiplicidade de sentidos
no que olhamos.

Olhares que são grãos de areia
no infinito da procura.
Mar de buscas nestes prantos.
Acalantos pro sonhar
que no horizonte perde-se entre encantos
sem ter cura.

E para nos encontrar do outro lado
do que imaginamos que vemos neste vai e vem,
olhamos desesperançados do outro lado da rua
como o prisioneiro que transcende
para a liberdade que não tem.

E do outro lado o outro nos olha de lado,
disfarçando o sentimento como lhe convém,
procurando  nos olhares que se perdem
o mesmo intrigante achado
que o outro procura também.


  
OLHOS TORPES

Metáforas que refletem
nas vidraças das faces
fáceis sonhos falsos
que viram suplícios,
intransponíveis precipícios
nos edifícios das ambições dos homens.

As ruas velozes
refletem
o desespero da existência
estática.

A insistência humana
em comandar os mundos
é uma arma que dói
uniformizada nos segundos
entre os transeuntes das metrópoles
como fardas que enclausuram sonhos
no quartel dos olhos torpes.

Metáforas velozes
que incandescem os precipícios
da existência.

Insistente dor intransponível
neste falso sonho em farda
inviolável.

Torpe olhar enclausurado
de ambições que não refletem
a felicidade questionável.



O LOUCO

Não tinha o lápis em mãos.
Então não mudei o mundo.
Como vítima do inesperado
o poema se perdeu no segundo.

Do outro lado da cama
uma máquina sem fita,
fora de moda, fora do tempo
qual o poema que se foi.

Do outro lado da rua,
a rir, um louco,
como se de mim zombasse
por me ter furtado o lápis em desuso.

E pra fazer de conta
coloquei-me ao teclado,
impávido como um mouse
a aguardar a mão
que a esperar por sentimento
não se move.

E novamente
o louco riu
e a acenar-me foi embora,
como se tivesse hora,
como um sonho bem real que esvaeceu
ou como o poema que no agora me feriu
e desapareceu.


  
O MITO

É vasto
o canto em que te guardo
neste coração de pedra.

Vasto silêncio
no meu grito.

Vasta emoção
que no meu peito
medra
de infinito.

E se és razão
em mim
pra desapego,
eu tenho medo
e neste canto
te transformo
em segredo e mito.



 ON LINE

Amordaçado pelo senso comum
eu meço as mágoas que me moldam
meditando sobre o medo
que decora o meu jardim.

Imaculados sentimentos
não suportam o poema ao vivo.
Preferível o poeta morto
no quintal esparramado entre cães e fezes,
com vizinhos que vigiam a inspiração.

On line
a vida em ânsia
pulsa intolerâncias ao que é afã.

Conectar-se ao que é de fato
intimida o sentimento imediato
como quem tem medo de tocar no que morreu.

E navegar tem riscos.
As tormentas absorvem
os que invadem nosso inusitado.

O mar está além do que é possível se ver.
Abstrações e buscas se misturam
nos caminhos deste desbravar.

Mas nem tudo que se move é terra.
O sol é só a luz possível
pra quem vê o tempo todo a escuridão.

E o tempo sentencia o libertário à própria sorte.
A liberdade vira um risco, já que livres,
vulneráveis mais ficamos para a morte.

E libertinos, libertamos nossos medos
meditando contratempos
como a flor que ingenuamente
não suporta o seu jardim.

É como um poço,
um precipício de vontades.
Labirinto de desejos que se mesclam
ao suicídio das raízes
que para a flor é uma dor que não tem fim.


O PARALELEPÍPEDO

Sujo, observo no clamor do dia claro
o que escorre no olhar que sente medo.
Na rotina da prisão que me acalma
algumas rugas se contorcem pela face
enquanto a alma ironiza o meu segredo.

Um homem duplo que não é ninguém.
A vida múltipla apagando o personagem
de um teatro sem paredes
que é detido pelo palco,
libertino, porque lhe convém.

O sol não absolve o pecador
que a escuridão contém.
Os heterônimos escapam pelos versos,
sorrateiros,
enquanto que o autor é condenado
pelo medo que o detém.

O poema é um prostíbulo de emoções histéricas.
Absorve nos lirismos fantasias homéricas
que permitem ao poeta se representar,
meio a figuras, sobre o que de fato é.

A rua indócil é um esconderijo
para aqueles que se perdem.
O coração, reencontrado,
é um paralelepípedo que teme.

  

O PECADOR

Do concreto acato os desacatos
que me acolhem
como quem daninhas ervas
num jardim de prantos colhe.

Acolho nos olhares que me entornam
sentimentos que transtornam
o que a face esconde
no semblante que não ri.

Pecador me perco
a me procurar
meio a parábolas
que não entendi.

Contorno os entornos de uma fé
que não possuo pra não ser ateu
e me absolvo dos pecados
que não cometi.

E possuído pela inexatidão do agora
passo a limpo o amanhã
e me confesso por aquilo que não fiz
para quem sabe ser o condenado pelo que não sei.

E me pergunto, pecador:
Por que me invade esta verdade que transcende
e que ninguém verá
posto que a vida que ninguém entende
gera perguntas sobre o que será?


  

O PORTÃO E O MUNDO

Entre o portão e o mundo
as janelas para o infinito
involuntário.

O passo trêmulo,
o olhar envelhecido
pelas horas que não cedem
ao descaso do presente insosso.

A decisão sempre tardia,
o mundo impávido a violentar a alma
presa no quintal
qual a guardiã do pouco bem
que é vitimado por todo esse mal.

O cálculo do ter
metodicamente insuficiente
para o ser que não se basta
e se entedia incapaz de ver
o pôr-do-sol que insiste em se compor
perante a vida vasta.

E o portão,
sempre a um passo do infinito,
é o divisor entre o silêncio e o grito
e anuncia a calçada para a rua intransitável
qual a fronteira para um mundo
que nos chama ao desconhecido
de um futuro inevitável.


  
ORDEM DO DIA

Na ordem do dia
o momento secular
a ser desvendado.
O mistério do instante
em sequência eternizado.

A vida
nos encurrala à história.
O colapso dos sonhos
vai alicerçando
o destino instintivo
nem sempre coroado de glória.

E ingenuamente
acreditamos conduzir
a execução da hora,
o fato do dia,
a palavra de ordem
na desordem do mundo
que se perde globalizado
no indivíduo entristecido.

Na pauta,
a ficção do que sentimos,
o libertar que coagimos
pra fraudar nosso discurso iludidor
e convencer do que queremos
o que nem ao certo sabemos
se devemos
neste projeto de dor.



 O RELICÁRIO

Finjo um sentimento de esfinge,
um fragmento de mim
que em verso finge
o que não quero pressentir
quando não estou para prosa.

O olhar é uma pedra que reluz
o que conduz o coração do dia
que não mais sente a utopia
exterminada no nada
qual o sonho que jamais existiu.

O peito, um relicário
de amores velozmente vividos
que no agora inexistem
enquanto que o tempo
já não passa.

Lembranças acomodam-se na dor
qual mimos de estimação
que incomodam na saudade
que também não passa.

O tempo é o esconderijo
que absorve o esquecimento,
lúdico e necessário,
para não nos vermos por inteiro
a cada porvir.

Somos a parte que nos cabe
na contradição de cada momento,
causa e efeito de sonho e ilusão
em cada novo sentimento.



 O RUIR DAS HORAS

Na lembrança, qual um palco imaginário,
o cenário de coisas que vivi,
algumas pessoas, cães, carinhos que não foram percebidos
por entre as metáforas  não entendidas
enquanto a vida era apenas uma ordem.

Na desordem da natureza do tempo que nos deteriora, 
perdemo-nos um pouco a cada instante
e ainda à caça da felicidade para um futuro distante
sem vermos que não vemos nem mesmo o momento seguinte.

A casa a ruir abriga-nos dos sonhos que detemos
em cada quarto que nos prende
a rende-nos às nossas verdades e imaginários
e em cada um a quarta parede cai
desvendando um cenário de expectativas
desperdiçadas no que não sentimos no agora
que se esvai
como se fosse a lembrança
daquilo que jamais existiu.


  
O SARCÓFAGO

As minhas musas
mumificaram-se
na estante empoeirada
dos meus versos.

O tempo determinou
os seus sarcófagos.

Minha neurótica rotina
já não contamina
minha inspiração
com versos brandos.

O meu poema
é de contorcer o coração
que se petrificou.

Não há lirismo
quando a vida
é uma sobrevivência.

Não há poesia
nos sarcófagos
e as múmias
não inspiram
o poeta ainda vivo.


O SERPEAR

Fingidor me entrego neste riso
e afago a dor,
que disfarçada,
se transforma em guizo.

Enveneno-me de mim
e prendo o coração
que contamina
a serpear a ilusão
que não tem fim
no verso que ilumina.

Serpenteio-me na noite,
qual felino saltimbanco
a se fingir de eterno
entre as insônias
que se curvam no cansaço
de um verso branco.

E fingidor me entrego neste quizo
e afago a dor,
que camuflada
se transforma em riso.


 O SINO E O SILÊNCIO

A badalar o coração
que não aceita ser tocado
de mim só sei o que me sinto
e não me reconheço em cada sentimento
como um grito no silêncio aprisionado.

Vago pelas emoções
como à deriva, ao ar,
a folha velha acha que voa
sem saber que apenas cai.

E qual o sino que não soa
ao toque do sineiro,
em segredo a mudez é sobrenatural,
como de alma que retém o instinto
desfalecido no que dói, posto que minto,
no intenso labirinto
que passeia entre o bem e o mal.

Passageiro de mim
observo-me nas estações
nas quais me assisto passando.

Espelho que reflete o que se vai
sem volta e sem saber pra onde,
sempre a partir sem paradeiro como quem se esconde.
Parte de um caminho sem destino
de procuras insolúveis em tudo e em todo lugar,
um hospedeiro instintivo do que sente
um perdido caminheiro sempre a caminhar.

E a badalar no coração,
como sinos que não dobram mesmo ao toque do sineiro,
o poema, que no peito não aceita ser tocado,
representa a cada verso
o intenso infinito que é o silêncio
que não pode ser quebrado.         



 OS LÍRIOS DO CAOS

Aguardamos pelos lírios
que virão do que sobrar
do caos.

Demolidos resistimos
indecisos na ambição
que nos obriga à solidão
do nosso estágio insosso.

Devaneios apunhalam
nossa alma vã.
E em sã consciência
acatamos a demência do dia
na ordem desconexa
desse desamor.

Por entre os obstáculos das ruas
os tropeços nos detritos do que somos,
nos delírios, no que estamos.

Oh! Sombra do sonhar em ser
sentenciando-nos a flagelos
sobre o indizível.

E condenados ao inevitável
evitamos os adornos da razão,
que apunhalam com os fatos
nossa ordem de fardos
na desordem destes lírios que virão.     


 OS VENTOS

Lembro-me dos ventos
nos agostos
da minha infância.

Na inexatidão
dos sonhos de criança,
involuntária,
a esperança
era uma marcha de fé.

Os cheiros, as manhãs,
os orvalhos
eram as partes de um eterno
presente futuro
como se o tempo não tivesse muro
e a vida caminhasse de marcha a ré.

O infinito não passava
da primeira esquina,
o universo estava na ponta da linha
em desenhos leves
nas rabiolas das pipas
que se mesclavam ao balé das aves de rapina.

A galinha no quintal
era como um deus ciscando o mundo
à caça de felicidades
sob um sol não refletido
já que a lamparina era a luz possível
a amenizar a escuridão.

A bola, o estilingue, a mãe,
a bica de águas cristalinas,
alimentavam o poeta de calças curtas
que ainda não sabia
a razão de quase nada
mas que se assustava com as crenças sobre o fim do mundo.

Lembro-me dos ventos dos agostos
porque os sentia com mais contundência.


 Lembro-me da fome
e de quem, como em santa ceia
sem multiplicação de pães,
repartia-nos o pouco que havia
como a manter-se pela Providência
de um amor imensurável.

O tempo era o passageiro instante
a trepidar nos galhos das árvores
que derramavam folhas amarelas
sobre as trilhas das arapucas mal armadas
meio a araçás em um quintal desconhecido de grande,
mas aquecido por brincadeiras de roda.

Mas o tempo nos ventos
esvaiu-se. Assim como os agostos e as décadas.
Na lembrança
a criança guardada em algum ponto
do cinqüentenário passando.

Criança e homem que brincam
em tempos distintos
no mesmo corpo
que por instinto
vê no vento um horizonte
de intentos e pipas que tremulam.

Frágeis linhas
de um belo a bailar no olhar
na arte de sentir
o que o tempo como vento
na lembrança nos permite eternizar.


 PARA HOJE

Ainda para hoje
vasculhamos a vida na janela.
Chove e o dia chora
o sol que fez do coração a cela.

Algumas lágrimas
alagam  para-brisas de emoção.
O caminho, confuso,
distorce a nossa direção.

As dores ninam
a canção que nos embala
e a inspiração, que de excessiva,
o verso embriaga e o sentimento cala.

Ainda para hoje
a poesia vasculhamos  na janela
para que o coração liberte o dia
e a vida, como em arte, se apresente bela.


 PERMITIR-SE

O eu poeta, a poesia,
a minha rima e o meu mundo
permitir-me-ão o quê?

Metáforas que me arrastam a antíteses
dentro das profundas catacreses
que estão nas meias coisas 
ainda passageiras
nos ilusionismos das paixões
que não são de ninguém,
mas que estão mim?

Ah! A vida e o passado!
Este status de quem não se sente vivo
e que morre afrontado de futuro
quando o presente ativo
estabelece que o tempo
é um quase inexistir.

Viver sem vida é uma sórdida tarefa,
é uma sobrevida em cada sonho que se inventa,
em cada sensação de sentimento em quem lamenta
porque se arrepende por não ter vivido
já que nem sequer o permitido
permitiu-se.                             


 PÉTALAS DE INSÔNIA

Tempestades de sensações
inundam o peito que não dorme.
O olhar embriaga-se
no rústico silêncio
da alvenaria dos instantes
que atormentam.

Momento pós muro. Pós queda.
Nova ordem de rancores e iras
metralham nosso medo doce
de quem teme o sonho
na fragilidade que o emoldura.

Tempestades de dúvidas
disparam pétalas de insônias
em nossos sonhos arregalados
que espreitam os ponteiros
de um relógio que não dorme.



 PLANTA


Estacionado em meus aposentos
alimento os transeuntes
com olhares de escárnio
maldizendo o vaso
em que me encontro.

Uma planta de fé
fincada em raízes
de aflição e medo
sobre o nada.

Um pé
de qualquer coisa
plantado na contramão dos sonhos
e atropelado
pela própria estrada.



 PONTO DE PARTIDA

Tenho saudades de lugares por onde não passei,
lembranças de pessoas as quais não conheci.
Procuro versos que jamais farei,
poemas sobre o que não sei
e conto coisas sobre o que não vi.

Ando sempre pelas mesmas ruas
vendo as mesmas caras e coisas
como se no ciclo da vida perdido estivesse
e em círculo voltasse ao ponto de partida.

Talvez o medo impeça
o arriscar-se a novos caminhos.
As direções, múltiplas, assustam
e eu me escondo no quintal
de um endereço qualquer
para me proteger de mim.

Vejo as pessoas passando
e me pergunto sobre os seus destinos.
Serão mais belos do que os meus?
Do outro lado do planeta eu seria outro?
Em outro tempo os dias seriam mais amenos?

Acordar e escarrar o amargo da noite
para vasculhar o labirinto do novo dia
enquanto reordenar a casa
à procura do que não sabemos
virou uma rotina incurável.

E a poesia, qual peçonhento inseto de alma,
colide as sensações entre os vazios e as inspirações
para versificar o tédio de cada esquina,
de cada insônia e amenizar o tempo que nos elimina.

Os lugares por onde passei,
as pessoas que passaram por mim 
fazem parte dos meus esquecimentos
e alimentam as lembranças
sobre os seres que já fui
e me arrastam para o que serei
em decorrência do que sou
exclusivamente neste instante,
único, impreciso e irremediável.


PRISIONEIROS DAS ABSTRAÇÕES DO ESTAR

Frases entrecortadas
sacodem a ilusão
nos sótãos da esperança
em meio aos esconderijos
do que somos a cada amanhecer.

A mulher sacode na varanda
a vida que não passa
enquanto que passeio
os olhos pela praça
a revirar velha moldura
que apesar da pose,
não tem graça.

Vida feita de móveis sentimentos
que não modelam a existência.
Sentidos tolos atordoados
entre metafísicos tormentos
que incomodam o momento
no qual tudo está perfeito.

E reinventamos nossas verdades
em meio às mediocridades
que congestionamos
universalmente em nós.

Mas revivemos.
Pulsamos o sonho que repulsa.
Sorrimos instintivamente
entre os instantes.

O relógio pára.
E em nós,
a engrenagem fria
no pulsar ainda se move.



PROFISSÃO DE PEDRA

Ao ser que tem por profissão a pedra
e que de pranto enfeita a dor que medra,
enquanto pra ser gente feito germe geme
pra ajeitar a terra e edificar o mundo.

Ser que ao sol é mudo
e tem no ofício o difícil sacrifício
de moldar o latifúndio.
Enquanto empilha a pedra, desintegra a vida
observando como um muro a flor murchando.

Ser de pedra ao sol marchando,
marmitando o sarro da sarjeta
e concretando o sonho feito em barro
amassado pela mão
que ao medo a raiva injeta, enrijecendo o riso
morto em quem vegeta pra fingir que é vivo.

Nasce em seu peito um canto ao coração que é calo,
amortecendo a voz que cala e acalma a alma
num cimento magro de um silêncio mágico
de quem já morreu.

Na face um canto ateu, num canto um violão.
No prato o fel de um pranto,
na parede um santo de tijolo e oração.

Na ração a dor que gera a morte
pelo pão que falta frente à mesa farta
e pela mão que implora pela sorte e pela hora
de ser pedra em paz.


  
REGÊNCIA

Pela janela,
à caça de Deus,
o olhar
que no horizonte esvai-se.

Das certezas da vida
às dúvidas que a morte impõe
(ou o oposto disto),
uma réstia de tempo
a nos contemplar
na inexatidão da espera.

Surtos de um delírio
demarcado em calendário
religiosamente cristão,
mas impreciso.

Meticulosos lirismos
intercalados em risos
ritmizam versos brancos
sobre relógios que regem silêncios
qual adornos de alma.




SACADA

Na porta
sombreada em sol
ao chão
vejo a saída
para o impreciso.

Improváveis versos
saltam-me na mente
como um repente
que nunca será.

Um cão,
que no tapete dorme,
causa inveja
aos meus sonhos
que sonambuleiam
numa correnteza
que não cessa.

E turbulento
fecho a porta
pra matar as sombras
que me guardam da sacada
do meu próprio
olhar.



 SEMÂNTICA

Viaja em mim
a alma de um poeta
e a espada
de um guerreiro ateu.

Vejo o mundo
como um espelho antigo,
angústia e solidão
retraída e muda.

Meu verso,
na luz
não vale nada.

Minha rima
é só uma estrada
tornando a vida
mais fácil de ser digerida.

Minha semântica
é medo,
é solidão.

Minha ilusão, espírito
e pouca coisa mais
além do que pressinto
desta escuridão.


 SOBERANOS DO HOJE

Ilusórios do tempo,
olhamos o ontem com desdém
vislumbrando no horizonte
um incerto além.

Soberanos do hoje
construímos coisas
demolindo paixões.

Em pressa instintiva
aceleramos contra nós
um tempo que mata
contaminado de ilusões.

A felicidade
sempre premeditada
esvai-se no agora
das coisas.

Uma vida de tédios
entrecortada por amores
disfarçados nas dores
que disparam risos.

Frágeis sentimentos
soberanos no instante
deste denso eterno
de tormentos e guizos.


  
SONETO AO AMOR ABSOLUTO

Será de Deus o amor a complacência
para acalmar os corações humanos,
por conceder a ele a onipotência,
já que senti-lo, faz-nos soberanos?

Em nosso olhar há a onisciência
a denunciar dentro de nós enganos
por ver no alheio olhar vasta demência,
infiéis paixões em corações profanos.

Fim último de tudo o que existe
é o amor princípio e atributo,
verdade que transcende e que persiste

como a flor que anuncia o fruto.
É força oculta e embora não se aviste
onipresente, é pleno, absoluto. 



 SONETO AO AMOR DESFEITO

O imperfeito amor que avassala
de infinito o coração em chama
e causa dor e embaraça a fala
atormentando o peito de quem ama

é o mesmo amor que a criança embala
quando recria num brinquedo um drama
ou o amor que o tirano cala
pra iludir e por a terra em chama.

É, com certeza, o sentir mais forte
que pode haver pra embriagar o peito,
pois gera vida e depois a morte

já que depois se torna rarefeito
e o sentimento que era a grande sorte
vira um vazio coração desfeito.



  
SONETO DO AMOR IMPERFEITO

Não quero mais buscar o amor perfeito
pra camuflar o sentimento em chama
e amortecer o que me dói no peito,
a mesma dor de todo ser que ama.

Que amar assim, eu sei, não é direito,
pois todo peito preso nesta trama
adoecido faz do olhar um leito
pra adormecer a fonte deste drama.

Vou procurar amar só o instante
um amor maior, porém um passageiro
tão transeunte quanto o amante

que tenha amores pelo mundo inteiro
e ao invés da dor o peito sempre cante
o imperfeito amor que é o verdadeiro.
 

  
TEXTO AO VIVO

Espio bem o transeunte sempre igual
que me espreita da calçada
temeroso do meu mal
atrás do verso que não sai.

Pela parede imaginária do meu muro
eu escondo o meu escuro
a me conter do que pressinto
semelhante ao que deduzem que não sou.

E represento,
escondido atrás de um verbo insuficiente,
as mazelas que me cospem no sorriso
e me imponho impreciso pra plateia
que espera um desfecho
que alimente a ilusão.

E em outro ato
o limite entre o invisível e o fato
contamina o sentimento coletivo
e faz da vida um texto ao vivo
pra iludir nosso roteiro
no teatro da razão.



 TRANSEUNTE EFÊMERO

Não sou o que sonhei ou fui.
Sequer concretizei os versos pobres
da primeira infância.

...Tudo uma brincadeira, que jamais passou.

Hoje, permito-me esquecer que sou
um transeunte estranho
por dentro de minhas emoções.

Caminhos que se deformam
e em abismos se transformam
por dentro de mim.

E o tempo escorregadio
que não se deixa tocar.

Enquanto corro, morro
em seus labirintos
que deslizam no ar.

Eu sou o relógio efêmero da eternidade:
Pra quase tudo ainda é cedo
e pra sonhar
é quase sempre tarde.


 TRAVESSURAS DA IMAGINAÇÃO

Eu queria um mundo de brinquedo,
onde sorrir não fosse quase que pecado.
Queria um sonho imaginado à luz do dia,
onde a poesia não fosse apenas
uma ilusão feliz a mais.

Queria imaginar um cais em caracol
em volta do universo,
onde os planetas fossem refletores
de um gigantesco circo sem lei de gravidade,
sem lei pra ser cumprida ou burlada,
sem lei de não, onde o sim fizesse valer
todas as travessuras da imaginação
...e mais nada.

Queria um mundo sem adultérios,
onde os adultos, sem mistérios,
fossem eternamente crianças
e a mente humana simplesmente
uma semente de paz e esperanças.

Queria um sonho de brinquedo
que fosse verdade,
uma verdade de brincadeira
para se brincar de mentirinha
que a liberdade não existe.

E que a liberdade
fosse a lei maior da sabedoria humana,
a única sabedoria possível
no impossível a ser atingido
na lei da imaginação.



UNIVERSO PARALELO

O medo sobre nada
a consumir o dia intragável,
excessivo.
Nas relações, o impreciso
das telas que nos distanciam
e alimentam a deformação do riso.

Em meus e-mails o contato insosso
de combatedor
que morre em seu esconderijo.

Paralelo ao que vejo há o que existe.
Virtual, não tenho alma
e posso ser o que não sou
sabendo que não são
os que rodeiam
a janela que me esconde.

Os homens, abstratos,
se percebem
coagidos
quando param no farol.

Olhar de lado e não se ver,
não ver o outro
que também é consumido
sob o mesmo sol.


  


TEXTOS PREMIADOS EM PROSA E VERSO:
1.   
      EM PROSA:

“Peralta, o Pato do Galinheiro”
Prêmio SESC de Contos Infantis “Monteiro Lobato”
Brasília/DF – 2011

 “Conto do Vigário”
- III Concurso Claudionor Ribeiro de Contos
Academia Cachoeirense de Letras
Cachoeiro de Itapemirim/ES – 2011
- Concurso Novo Milênio de Literatura
Vila Velha/ES - 2010

“A Estatística”
Concurso Literário “Pérolas da Literatura”
Guarujá/SP - 2011

“Uma Escola Fabulosa”
- VII Prêmio Barueri – Conto
Barueri/SP – 2010
- Concurso de Contos “Prêmio Cataratas”
Foz do Iguaçu/PR – 2008

2.    EM VERSO:

“Os Ventos”
7º Prêmio Literário “Acrísio de Camargo”
Indaiatuba/SP – 2011

“Soneto do Amor Imperfeito”
- 1º Concurso Literário “Academia Metropolitana de Letras, Artes e Ciências”
Vinhedo/SP – 2011
- I Concurso Nacional de Poesia de Cordeiro
Cordeiro/RJ - 2008

“A Rua do Dia Seguinte”
V CLIPP – Concurso Literário de Presidente Prudente
Presidente Prudente/SP – 2011



“A Farsa”
V CLIPP – Concurso Literário de Presidente Prudente
Presidente Prudente/SP – 2011

“Soneto ao Amor Absoluto”
5º Festival de sonetos “Chave de Ouro”
Jacareí/SP - 2011

“A Captura”
5º Festival de sonetos “Chave de Ouro”
Jacareí/SP – 2011

“A Bica”
Prêmio SESC de Poesia “Carlos Drummond de Andrade”
Brasília/SF – 2011

“O Balé”
13º Concurso de Poesia da Biblioteca Popular de Afogados
Recife/PE – 2011

“A Máscara no Espelho”
- XIV Prêmio “Cidadão de Poesia”
Limeira/SP -2011
- II CD de Literatura do Pavio da Cultura
Suzano/SP – 2011
- Concurso “Prêmio Cataratas”
Foz do Iguaçu/PR – 2011
- I Concurso de Poesia – Revista Literária
Brasília/DF – 2010
- XII FESTCAMPOS de Poesia Falada
Campos dos Goytacazes/RJ – 2010

“O Pecador”
7º Prêmio Literário de Suzano – Edição Moacyr Scliar
Suzano/SP – 2011

“Interlúdios”
Troféu III Festival “Um jardim de poesia”
Bom Jardim/RJ – 2011

“O Ruir das Horas”
Sexto Concurso On-Line de Poesia
Florianópolis/SC – 2011

“Interface”
V Concurso Poesiarte
Cabo Frio/RJ – 2011

“A Pessoa”
3º Prêmio Literário Sérgio Farina
São Leopoldo/RS – 2011

“Canto da Liberdade”
Concurso de Poesia da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios
São Vicente/SP – 2011

“O Brinco”
XXI Concurso de Poesia da Academia de Letras e Artes de Paranapuã
Tijuca/RJ – 2010

“A Pipa”
XX Prêmio Moutounnée de Poesia
Salto/SP – 2010

“Soneto do Amor Desfeito”
Concurso Nacional de Poesia “Cassiano Nunes”
Brasília/DF – 2009

“O Infinito”
IV Varal de Poesias da UNIFAMMA
Maringá/PR – 2009

“ Baluarte”
4º Concurso Nacional de Poesias
Prêmio “Affonso Romano de Sant’ana”
 Colatina/ES – 2008

“Além das Cercas do Quintal”
- Poesia do Ano da Comunidade Literária “Navegantes das Estrelas”
São Paulo/SP – 2007

“Olhares”
I Concurso de Poesias “Brincando de Poetar” - 2007

“A Puta”
I Concurso de Poesias sobre a mulher
Colégio Brasileiro de Letras – 2007

“Arrastando a Massa”
V Concurso “Raimundo Correa”
Rio de Janeiro/RJ – 1986

“Minha Terra”
Concurso de Poesia Ginásio Estadual Octávio Figueiredo
Rio Grande da Serra - 1974


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