Educação e Política


O MATADOURO DE ALMAS

           A escola é, com raríssimas exceções, um matadouro. Primeiro mata a brincadeira. Depois, a fala. E em seguida a alma. Ela usa uma fórmula precisa que soma as ignorâncias às religiosidades, às ideologias de dominação, às bestialidades morais, filosóficas, sociológicas, fisiológicas e artísticas. O resultado desta matemática do mal em nome da reprodução das ideologias do sistema é fatal: o silêncio e/ou a estupidez. Se tomarmos como base a disciplina de Língua Portuguesa e Literatura, o nosso modelo de escola mantém a criança detida (em tempo integral ou não) por, pelo menos, doze anos, para que no final deste ciclo de reclusão ela receba um diploma esvaziado, já que, na maioria das vezes, sai sem saber nem mesmo quantos tipos de palavras possui a sua língua. É evidente que também não sabe o que cada tipo de palavra faz em sua própria cabeça quando tenta pensar. Para esta vítima escolar, a sintaxe não existe e as vírgulas são meras pausas casuais.  O interessante é que qualquer filósofo de porta de boteco sabe que o bom domínio da língua materna é sinônimo de libertação. Outro dado relevante é o fato de que caso o curso fosse de açougueiro ou de algum profissional qualquer de frigorífico ou de matadouro, com toda certeza, os alunos saberiam quantos tipos de carne um boi ou uma vaca possuem. E saberiam diferenciar estes tipos de carne e inclusive saberiam o que o sexo dos bovinos influencia em sua qualidade.
          O nosso matadouro, portanto e entretanto, não é físico. Ele é um matadouro de almas. Paulatinamente mata o sonho, a vivacidade, a esperança e a criatividade da maioria das crianças e dos adolescentes que serão salvos, via de regra, se tiverem uma família que aponte a possibilidade de outros horizontes de liberdade.
          Ainda no caso da língua, a escola até que disfarça que ensina e quando dá errado, é o aluno que não aprende. Bem ou mal, o indivíduo acaba escrevendo alguma coisa e assim, os pais, que, muitas vezes, não concordam nem mesmo o sujeito com o verbo, ficam acreditando que os seus pupilos estão em uma escola. Porém, no caso da Literatura, na maioria das instituições, nem um mero disfarce ocorre. A escola consegue matar a poesia antes mesmo que ela seja sentida pela criança. Profissionais mal preparados executam cartilhas sem conteúdo e esquartejam os poemas e prosas que deveriam servir para encantar, mas que acabam servindo de inibidores da criatividade e do amaciamento destas tenras almas que depois passam a vida como icebergs da arte da palavra e mortas dentro de si. Infelizmente, a maioria dos professores de Literatura, sem saber, vira carrasco do lirismo, divulgador de autores mortos, genocida de grandes obras, “nóia” de almas infantis e acaba prestando um desserviço em nome da involução da espécie humana e em prol dos interesses de um sistema que propaga a dominação pelo esvaziamento do conhecimento acumulado pela humanidade através dos milênios.
          É evidente que além da Língua Portuguesa e da Literatura, precisaríamos debater os crimes cometidos pela História mal contada, pela Geografia que não localiza, pela Matemática que não chega no “x” da questão, pela Filosofia quase ausente, pela Política que não há, pela Arte que não leva à criação e outras tantas, mas precisaríamos de muitas páginas.  O fato é que o nosso silêncio nos coloca na condição de cúmplices de um crime inafiançável. Pois negar às novas gerações tudo o que o homem já descobriu e registrou através dos tempos é fazê-las repetir erros brutais e absolutamente desnecessários. E ponto final.


Paulo Franco

Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº29 - dezembro/2014 




AGORA É TARDE

“Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.”
Karl Marx
         
          Há quem acredite que a falta de conhecimento sistematizado leva um determinado indivíduo a uma concepção carregada de estupidez, seja em relação à política ou a qualquer outro tema, dentre as inúmeras polêmicas que a sociedade contemporânea apresenta. Tal crença, por exemplo, fez com que uma candidata à presidência da nossa pátria amada mandasse um famoso apresentador de televisão de volta para a escola para que ele finalmente consiga entender e aceitar as teses do marxismo. Entretanto há uma distância infinita entre o entender e o aceitar. Não é o conhecimento que está em questão, mas o que se faz com ele. Será que se Hitler tivesse ficado mais tempo na escola, teria virado uma espécie de madre Teresa de Calcutá?  Será que os demais candidatos à presidência do nosso país, que sacodem bandeiras ancestrais e outras em nome das mazelas do neoliberalismo, também precisam estudar um pouco mais para que as teses em questão sejam aceitas? Não! Para essa gente estudo não resolve mais. Agora é tarde.
          Vale ressaltar que a nossa escola sempre atuou como aparelho reprodutor das ideologias do sistema. A escola dos ricos, melhor estruturada, secularmente vem apresentando bons resultados no sentido de preparar os filhos dos dominadores para a manutenção desta dominação. Já a escola dos pobres é esvaziada de conteúdos, de política, de filosofia, de sociologia, de arte. Sua especialidade é fornecer merenda, via de regra, ruim e cartilhas inócuas e preparar os filhos da miséria para a aceitação da sua condição de dominado. Isso sem contar uma parcela da classe média que é vitimada pela ideia de que ideal é a escola gerenciada pelo catolicismo, pelo protestantismo ou por qualquer outro “ismo” que, obviamente, torna os seus resultados questionáveis do ponto de vista da alienação.  É. Agora é tarde. Quinhentos e quatorze anos sem formação de qualidade, pátria nenhuma suporta. A idiotização acaba sempre sendo a manchete do dia.
          E sem contar o fato de que a mente humana é falha. O que faz um ser torcer por este ou por aquele time de futebol de forma irreversível é, possivelmente, o mesmo defeito genético que gerou a ideia do voto útil. A imprensa decidiu que apenas três candidatos estão na disputa para ganhar a eleição. Logo, temos uma pátria, quase que de forma colonial, sacudindo uma dessas três bandeiras e o argumento é constantemente o mesmo: não perder o voto. Perde-se a dignidade, perde-se a vida, mas não o voto. Enquanto isso, os múltiplos lados desta moeda suja vão organizando a famigerada governabilidade futura que acaba fatiando o poder e os parcos recursos do país com mensaleiros legalizados ou não. Passada a eleição, tudo vira uma grande sopa de letrinhas partidárias em nome de novas falcatruas que o povo nem sempre vê. Mas arrasta a culpa de ter votado errado novamente. Aí é tarde demais.
          Mas, como agora a moda é todo mundo defender a escola em tempo integral, mesmo que ela não tenha as estruturas para a formação integral, quem sabe sobre uma vaguinha para o tal apresentador. E mesmo que seja tarde para que ele, do alto de sua opulência, entenda que “a história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes”, pelo menos ele estará detido na escola pública e não terá muito tempo para brincar de fazer piadinhas tendenciosas “The Noite” na televisão.

“A boa educação é moeda de ouro.
Em toda parte tem valor.
Pe. Antônio Vieira (Século XVII)


Paulo Franco
 Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº28 - outubro/2014 


SOBRE RAPOSAS, GALINHAS, SILÊNCIOS E CORRUPÇÕES

"Aquele a quem convém mais do que é lícito,
sempre quer mais do que convém." 
 Padre Antônio Vieira (século XVII)
         
          Com toda certeza, não há cadeia que resolva a índole do corrupto que vai preso com o bolso cheio de dinheiro público. Possivelmente, o ideal seria decretar a ele a liberdade plena, mas com todos os seus bens confiscados e com a proibição absoluta de que volte a ter qualquer tipo de propriedade até o fim dos seus dias. O corrupto julgado e condenado teria apenas o único direito de trabalhar para sua sobrevivência, recebendo o salário mínimo de sua pátria e usando o sistema público de saúde. Aliás, todo prisioneiro deveria trabalhar para o seu sustento e para o sustento das necessidades dos seus e do país.
      Poderíamos acrescentar nesta lei impiedosa um artigo determinando que se a corrupção aconteceu na educação, a riqueza confiscada será aplicada na educação. Acaso tenha acontecido na segurança pública, aplique-se na segurança pública, e assim por diante.
          Porém, o extermínio da corrupção não é assim tão simples, em especial, em um país no qual as raposas tomam conta do galinheiro. Inimaginável acreditarmos que os conluios que entopem as câmaras e os senados criariam leis que barrassem as suas ganâncias e os seus poderes escusos. Quando se fala em reforma política no Brasil, já se sabe que é falácia e que as impunidades continuarão imperando em nome dos interesses dos grupos que dominam a quase totalidade das riquezas da nação em detrimento de uma grande massa de miseráveis deserdados de saúde de qualidade, de educação de qualidade, de segurança, moradia, transporte, cidadania.
          Não podemos nos esquecer de que o silêncio, a cumplicidade, o desejo de comer no mesmo prato sujo que o corrupto se lambuza, também é um tipo de corrupção. Assim como a imprensa marrom, tendenciosa, esquartejadora da verdade, também é corrupção. Vale lembrar que a impunidade é o alimento das corrupções e demais crimes. Quem corrompe ou é corrompido conhece profundamente a permissividade das leis do seu país. Diga-se de passagem, os impérios dos empreiteiros, dos bancos, das igrejas, dos mensaleiros, só existem porque impera a impunidade em nome das múltiplas corrupções. Aliás, a mãe, que chantageia o filho oferecendo sorvete se ele comer toda a papinha, é uma semeadora da corrupção.
          E não acredito que o voto pelo voto venha um dia resolver essa questão. Não vejo nenhum candidato defendendo a redução da quantidade de vereadores obsoletos nas câmaras, a quantidade de deputados, de senadores, de secretarias e de cupinchas em nome, por exemplo, da quantidade de médicos ou da valorização dos professores e policiais. O custo aos cofres públicos de um deputado federal chega a quase dois milhões ao ano. E são quinhentos e treze! Para que tanto deputado, meu Deus? E fora os oitenta e um senadores e um número imenso de deputados estaduais e uma quantidade maior ainda de vereadores inócuos. Caso se faça o cálculo final desta fórmula esdrúxula, chegaríamos a um valor extraordinário que resolveria, pelo menos, o problema da saúde pública de qualquer nação. Sem contar o fato de que grande parte das cidades esparramadas pelos rincões do país não são autossustentáveis, não conseguem garantir nem mesmo os serviços básicos para os seus munícipes. Portanto esses lugarejos precisariam ser anexados a cidades maiores que garantissem um mínimo de dignidade, um mínimo de cidadania a este povo pagador de quase uma centena de impostos.
       É evidente que não devemos defender o fim da democracia, mas o fim das demagogias sim. É claro que os legisladores têm as suas incumbências. Entretanto o que se discute é a quantidade e os valores. Tirar da população cento e quarenta mil reais ao mês para manter um deputado é um absurdo e em si já é um roubo, já é uma enorme corrupção.
          Será que para resolvermos tantas mazelas teremos que retomar o velho slogan “Trabalhadores, uni-vos!”? Ou devemos ficar assistindo de forma cúmplice até sermos encurralados pelo avanço da barbárie para que finalmente esse silêncio todo seja quebrado?


Paulo Franco

 Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº27 - setembro/2014 



A DITADURA DOS PARTIDOS
E A DEMOCRACIA DA ALIENAÇÃO

                                     “... precisamente o espírito de seita e de partido é que precisa ser abolido...”

Allan Kardec
          
                  O povo brasileiro jamais foi plenamente livre para escolher os seus presidentes, governadores ou prefeitos. Isto ocorre porque há, pelo menos, dois princípios absolutamente equivocados no que diz respeito à nossa democracia: O primeiro é a ideia simplista de que nos países democráticos, o governo emana do povo em nome de uma soberania popular. O segundo é o senso comum de que para existir democracia é preciso haver partidos políticos.   Em síntese, a nossa democracia é uma grande farsa, já que apenas e tão somente os partidos têm o poder de escolher e determinar em quem o cidadão comum pode ou deve votar. Os partidos, portanto, funcionam como filtros do mal e os figurões escolhidos para serem candidatos, em especial aos cargos executivos, via de regra, são os principais maestros dos grandes esquemas, os que têm mais força junto às empreiteiras e a outros instrumentos da corrupção, que fatiam escandalosamente o poder e geram os mensalões de diversos tipos que sempre existiram e pelo andar da carruagem continuarão a existir. E ao povo resta ainda a culpa de não saber votar, quando na realidade é apenas obrigado a referendar o coronel de uma determinada legenda que normalmente está atrelada aos interesses escusos de outras tantas que forjam apoios em troca de pedaços do governo. É como se fosse uma grande pizza.  E este sistema maléfico e vicioso acaba afastando do processo eleitoral as pessoas de boa fé e ainda favorece a propagação da ideia de que a política é coisa de gente safada. Isto gera um grande prejuízo para a evolução da sociedade e para esta bela ciência, nobre filha da filosofia.
          Vale lembrar que em termos históricos esse modelo de democracia representativa é muito jovem. Ainda está na casa dos 200 anos de existência. Outros caminhos serão testados através dos séculos em busca de uma democracia de fato. Afinal, a ideia de representatividade surgiu para fazer valer a vontade do povo na administração da coisa pública, para garantir a paz social, os direitos humanos e o manuseio ideal das riquezas das nações. Entretanto, Aristóteles (384 a.C. / 322 a.C.), no livro “A Política”, já apontava a demagogia como a corrupção da democracia. E a nossa está repleta de falácias ideológicas que só se sustentam em uma pátria cicatrizada pela ignorância, pela alienação hereditária oriunda da secular ausência de escolas de qualidade. As nossas escolas, infelizmente, não privilegiam em seus currículos a arte, a sociologia, a filosofia e muito menos a política. O resultado é uma grande massa que, como gado, assiste, aplaude e torce por partidos que arrastam os fiéis das igrejas, das escolas de samba e dos times de futebol com populismos e assistencialismos inócuos à evolução da pátria. A insensatez  é tão grande que para cada nova mazela que surge em nosso meio político, tem sempre um desinformado que volta a defender o retorno de algum tipo de ditadura, ao invés de lutar pela ampliação das liberdades e direitos em nome de uma democracia de verdade.
          Pois bem. Não devemos abraçar a defesa do fim dos partidos porque isto poderia abrir espaços para tiranias indesejáveis. Mas o fim do voto obrigatório, sim! O fim da obrigatoriedade da filiação partidária para que um cidadão limpo possa se candidatar, sim! Quem disse que para que uma pessoa seja digna, idônea, competente e comprometida com uma sociedade justa, ela tenha que se atrelar a conluios aonde a falta de vergonha na cara, normalmente, é a grande senha para abrir as portas de suas fileiras de bandeiras esvaziadas e símbolos que se misturam e não representam nada?    Há uma estrela agarrada em Brasília e um tucano com garras em São Paulo. E já faz mais tempo do que sobreviveram diversas ditaduras no decorrer da história humana. Observe, caro leitor, que são duas bandeiras praticamente idênticas e defensoras do mesmo neoliberalismo privatizador e destruidor dos direitos dos trabalhadores. O partidarismo compulsório, portanto, não garante nem a liberdade e nem a lisura em nome dos direitos mínimos do cidadão.   E já que não são mais possíveis as assembleias populares da democracia ateniense, o ideal seria, pelo menos, que o cidadão comum, desvinculado de seitas e partidos, pudesse se candidatar  a qualquer cargo público, desde que plenamente limpo perante as leis da pátria. Com toda certeza, nunca mais o voto do povo ficaria refém da obrigatoriedade de ser depositado no colo das Dilmas, dos Aécios ou de mais alguns poucos iluminados que sobrevivem da democracia da alienação. 


Paulo Franco

                                Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº26 - agosto/2014 
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A FEIURA E A FELICIDADE  
       
          Vivemos em uma sociedade na qual a felicidade está atrelada à beleza e esta está diretamente ligada à paixão, seja por coisas ou por pessoas. Ninguém, por exemplo, ficaria apaixonado por um barquinho velho e furado, mas, com toda certeza, por um iate sim. O mesmo ocorreria entre uma Brasília enferrujada e uma Mercedes zero ou um casebre apodrecido e uma mansão. Já aqui, detectamos que a beleza material está para poucos. E com a paixão em relação à outra pessoa não é diferente. O triste, ou o engraçado, é que as pessoas só são todas belas nas revistas e nas novelas. Na vida real, a maioria é feia e algumas pessoas são especialmente muito feias mesmo.
          Aí, então, como ser feliz? Não se é! Alguém vai e determina a condenação dos gordos como sendo feios e os negros, os deficientes, os baixos, os vesgos, os carecas e sei lá mais o quê. Consequentemente são todos excluídos da possibilidade de felicidade, já que foram banidos do padrão sobre o que seja o belo. E já pensou se a pessoa for tudo isso ao mesmo tempo e ainda por cima for pobre e sem dente? É! É evidente que não haveria felicidade possível.
          Ser feio, portanto, não é bonito porque é muito dolorido. É só a gente andar na rua e olhar bem nos olhos de cada feio na multidão de feios, para perceber o tamanho da tristeza que carregam. Chegam a ter raiva de um ou outro belo que raramente passe. Então os feios adoecem e viram quase todos compulsivos. E correm para as bancas de revistas para comprar imagens de beleza ou se esparramam nas salas para ver formosuras nas novelas ou comem desesperadamente para suprir a insaciável sensação de vazio que a feiura gera ou simplesmente param de comer e ficam mais feios ainda. Como é triste ser feio em uma sociedade que capitaliza a beleza! E neste sentido, a mulher feia é mais ferida do que o homem feio. Alguém determinou que o homem até pode ser feio desde que seja homem. Já a mulher é diferente. Mesmo feia ela tem que gastar muito dinheiro para ficar bonita, embora sendo feia vá continuar feia e se achando bonita com todo mundo vendo que ela continua feia. E gasta com esmalte, com florzinha sobre o esmalte, com roupas psicodélicas, com um cabelo colorido e/ou espichado por semana, compra um monte de meleca para a mão, para o rosto, para os pés e tem até melequinha e sabonetinho especial para o órgão genital. Mas a coitada que teve o destino de nascer feia continua a sua sina de feia.
          Pensando bem, talvez, seja a infelicidade parida da feiura a responsável pelo sucesso mundial dos livros de autoajuda. Afinal, o feio que é feio de fato, acaba ficando sozinho e aí só se iludindo com regrinhas prontas de felicidade. Porém tem aquele feio que corre para a única solução possível que é encontrar um par igualmente feio. Sexualmente a questão emocional pode ser amenizada, já que sexo pode ser feito no escuro. Mas é só acender a luz ou raiar o dia que a porca torce o rabo. Porque, vamos combinar, é muito triste ver um casal feio fazendo dengos em público. Tanto é que em novela não tem.  E nem pode! Uma emissora de TV não vai ser a redentora de uma sociedade inteira que estabeleceu que a beleza é fundamental. Vai ela perder a audiência? Você já imaginou, caro leitor, uma propaganda da Coca-Cola só com gente feia? E uma de absorvente com uma mulher bem tipo espantalho? Difícil! Pode parecer bizarro, mas é quase impossível arrumar um jeito para o feio ser feliz em uma sociedade de consumo tão hipócrita que estabeleceu valores para a imagem e para a felicidade das pessoas.


Paulo Franco 
Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº25 - abril/2014 
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O MURO E O SILÊNCIO
“Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa.”    
 (Chico Buarque de Holanda)
          Às vezes, a gente faz silêncio porque não quer mesmo saber de barulho. Esse silêncio é salutar, ele não atordoa, é propício para meditarmos sobre as tormentas que envolvem a existência e nos leva à calmaria interior adocicando o nosso coração.
          Porém, há um outro tipo de silêncio, mais profundo, quase irônico, que indica letargia, aceitação. Esse é o silêncio que aliena, é um calar por convicção, é um silêncio de medo, é um não querer determinado pela ausência do desejo da fala, é o resultado da consciência de que nem mesmo o grito solucionaria as mazelas que vemos, que sentimos diante de tudo o que nos impõem, como se antagonicamente o excesso de dor gerasse a sua ausência para amenizar o insuportável destas aflições.
          E é muito fácil percebermos que depois da queda do muro, que relativamente, mais ou menos, dividia a ideologia do mundo ao meio, acabamos virando meio coisa nenhuma, meio sonsice, meio uma gosma sem lado, sem sonho, sem perspectiva. E embora inteiramente avessos a essa coisa imunda e quase una que é a globalização, que vem exterminando os direitos básicos do cidadão comum, como se fosse a reedição da escravidão em uma idade média com máscaras de democracia e roupagens tecnológicas, continuamos ainda assim meio sem fala, meio vitimados por um silêncio crônico, como se temêssemos a Santa Inquisição do excesso de informações que nos colocam na lista dos que serão remodelados pelas intermináveis reciclagens que o sistema determina-nos, como se um lixo qualquer fôssemos. Lixo sustentador de luxos. Lixo que triturado, vira sempre uma outra coisa no dia seguinte, uma outra coisa que nunca tem o tempo para se identificar. E é essa política que gera o silêncio da descaracterização das nossas personalidades e dos nossos sonhos de transformação.
          O engraçado (ou o triste) é que sempre há uma dinâmica nova para exterminar as nossas bases morais, psicológicas e, em especial, as ideológicas. E não interessa a reação que se tenha diante das premissas verdadeiras em cada “brincadeirinha” que inventam para nos socializar e facilitar a digestão, em massa, das linhas de produção. Há sempre um resultado falso para nos ridicularizar diante do coletivo. E na maioria das vezes, os próprios vitimados vitimizam o desgraçado ao lado. E riem quase todos e são risos hiênicos, como se o riso os absolvesse dos olhares taciturnos das chefias, seja nas fábricas, nas repartições públicas, nas igrejas, nos partidos ou nas escolas. Um grande poder invisível brinca com as nossas cabeças e emoções. E tem dinâmica com bolinha de sabão, com cordinha amarrada no tornozelo, com cordinha amarrada nas mãos, bunda com bunda, nariz com nariz. E há dinâmica com todos descalços, dinâmica aeróbica, dinâmica com música e dinâmica de silêncio.
          O resultado final é que a culpa é sempre nossa. Ou nós nunca estamos atualizados o suficiente, ou não estamos socializados o suficiente, ou não entendemos o espírito do empregador o suficiente. Em síntese, nunca somos o que esperam de nós o suficiente. Querem sempre mais e nos valorizam sempre menos. Haja Síndrome de Pânico, de Burnout e outras depressões!!!
          E do lado de fora das fábricas e dos governos que terceirizam e quarteirizam e quinteirizam a vida humana para baratear os custos de uma produção excessiva, executada por uma mão de obra cada vez mais desvalorizada, com jornadas desumanas que aproximam grande parte destes trabalhadores dos antigos campos de concentração, já que muito pouco ou quase nada recebem do que produzem, muito pouco ou quase nada conseguem ver as suas famílias, muito pouco ou quase nada têm de dignidade durante as suas parcas vidas, seja no transporte, no lazer, na educação, no descanso, na qualidade de suas pobres existências que não lhes garantem cidadania. E entristecidos, desesperançados, são vitimados por um silêncio de gado e novamente são reciclados para perpetuarem a geração de riquezas que não possuirão jamais.
“Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta?
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta.”  
(Chico Buarque de Holanda)

Paulo Franco

Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº24 - março/2014 
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OS MASCARADOS E OS CARAS DE PAU

          O momento é imprevisível e pode se transformar em algo incontrolável. A violência e a impunidade caminham de mãos dadas e invadem os espaços dos meios de comunicação de massa. Inúmeras famílias, com as crianças na sala, almoçam e jantam ruminando estupros, assassinatos, pedofilias, corrupções, assaltos, balas perdidas, depredações, crimes passionais e outras imagens hediondas. Por outro lado, caro leitor, observe que quem era bebê na época da chacina do Carandiru, hoje já está na plenitude de sua maioridade penal e estranhamente assiste ao vivo a um julgamento que se arrasta há décadas. Alguns envolvidos já morreram, outros se alimentaram inclusive da política e para alguns velhinhos agora a condenação quase que pouco importa.  E no paralelo desta ausência de justiça, muitas vezes o corporativismo se transforma em uma espécie de irrigação a um novo velho oeste, principalmente quando a vítima desta violência é um policial ou um membro da imprensa tupiniquim, marrom e cúmplice, seja pelo silêncio ou pelo estímulo do mal quando noticiam só o que não presta ou o que é do interesse deste ou daquele grupo social dominante.
          O fato é que, às vésperas da copa do mundo, as ruas do nosso pacífico país se transformaram em múltiplas praças de guerra. De um lado temos os mascarados, protegidos pelo anonimato e que usam uma tática de ação direta e descentralizada em nome da desordem contra os objetos para confrontar os símbolos e as forças de opressão do capitalismo selvagem, globalizado e de exploração. Do outro lado, estão os “caras de pau” da Fifa, do Senado, das Câmaras, das Empreiteiras e de outros gabinetes enrustidos nos anonimatos das corrupções que geram uma enorme violência contra as pessoas que são aviltadas todos os dias por não possuírem transporte coletivo de qualidade, moradia, educação, saúde, segurança, dignidade e cidadania. E o interessante é que atrás do mal há geralmente um discurso em nome do bem. Os mascarados divulgam ideias sobre um mundo melhor, com mais igualdade social. Mas destroem as coisas e, às vezes, as pessoas. Os “caras de pau” também são eleitos com falácias sobre um mundo melhor. Mas roubam as coisas e as pessoas.
          Do lado de fora, quem não é “black bloc” nem é “cara de pau” fica se perguntando: “Onde andará a democracia?”  -  “A moral, a ética e os bons costumes, por onde andarão?” – Torna-se vital lembrar que Hitler também defendeu um mundo melhor, porém sem democracia e com enorme violência.
          Hoje, os próprios donos do poder e do capital têm medo do descontrole que assistem. Eles se esquecem de que quem planta o nada colhe o vazio. Queriam relegar aos dominados uma educação de gado, uma educação sem qualidade, sem conhecimento, sem política, sem filosofia, sem arte, sem compromisso, sem disciplina e sem perspectiva. Aos pobres uma aprovação automática para maquiar índices internacionais. Pois bem! Esse “admirável gado novo”, essa juventude que aí está já é fruto desse projeto de deseducação que vem destruindo alunos e professores há décadas.
          Vale lembrar que nada substitui o conhecimento. Sem ele não há projeto de paz, porque o ser humano passa a viver meramente por instinto. E esse bicho, solto pelas ruas das cidades, aterroriza, destrói e mata. E ponto final!   

Paulo Franco     

                    
Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº23 - fevereiro/2014 
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A PÉROLA DA SERRA

          Em minha cidade não há corrupção. Tudo é lindo e limpo. As nossas crianças saboreiam merendas maravilhosas vendidas nas padarias que são especializadas em guloseimas como carnes e frutas e verduras. Aqui, até as concorrências públicas seguem critérios rigorosos em nome da lisura e do bom uso do dinheiro público. A minha cidade é uma Pérola na Serra. Ela não é como o Brasil que é carregado de mensalões e outras tantas mutretas. O nosso alcaide, às vezes, também diz que “não sabe de nada”, mas a gente nem percebe porque somos uma estância turística que tem uma pedra, uma igreja, um castelinho e um relógio bem grande no meio do paço, que com certeza, nem deve ter custado muito aos cofres do nosso governo. E como somos uma espécie de Pasárgada, o rei é amigo de todos, até mesmo dos donos de empórios e dos “bananas” que existem na cidade. Só “laranja” o rei não respeita por temer que os cartéis invadam o nosso pequeno paraíso. E como a nossa vocação é o turismo, dizem que teremos teleféricos e até aeroporto. Não temos saúde de qualidade, segurança e educação, mas nem ligamos porque o nosso sonho sempre foi um teleférico, já que agora temos um relógio gigante.
          É pena que a imprensa das imediações, só porque nós somos a Pérola da Serra (acho que têm inveja), andou divulgando que uma maracutaia imensa de R$ 6,8 milhões aconteceu aqui. É pouco provável, principalmente porque alegam que a mutreta seria com a verba da merenda das nossas criancinhas. Não! Aqui tudo é limpo e lindo. Elegemos sempre os melhores representantes que aceitam os cargos apenas por plena vocação de ajudar o próximo. Jamais favorecer o próximo por alguma dívida de campanha, por exemplo.  E eles são tão desprendidos que nem mesmo precisariam de partidos políticos. E isso é tão fato que fazem coligações imensas e as ideologias se misturam como se fossem uma só. É bem verdade que o salário dos eleitos é infinitamente maior do que os salários dos professores da nossa querida Pérola. Mas é justo, visto que os educadores só dão aula, nem mesmo precisam trabalhar. Já os nossos representantes têm que comparecer esporadicamente na câmara e nos gabinetes e ardorosamente debatem sobre a nossa felicidade. Isto é radiante.
          Não precisamos ir embora para Pasárgada. O Empório dos Pães que já fornecia R$5l,6 mil de lanchinhos para os nossos eventos, não deixará os nossos pupilos a pão e água.


Paulo Franco 

Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº22 - janeiro/2014 
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A BRAZUCA E O SENHOR DO BONFIM

          Um exército de repórteres de cinco continentes lutando para conseguir a imagem de uma bola é algo, no mínimo, planetariamente patético. E é o que assistimos, ao vivo e com direito a inúmeras reprises, neste religioso mês natalino que também é repleto de bolas e luzes e renas e neves e rezas e trenós e velhinhos ridiculamente vestidos de vermelho com a criminosa intenção de vender mais e mais Coca-Cola e outras bugigangas e enganar as crianças pobres dizendo que ao anoitecer entrarão pelas chaminés distribuindo presentes maravilhosos e realizando todos os sonhos daqueles que são esquecidos pelo lado opulento de uma sociedade capitalista e hipócrita.
          Porém, vale lembrar, por uma questão de justiça, que a nossa bola, apesar de ser apenas uma bola como qualquer outra bola, é especial porque foi inspirada nas curvas do Rio Amazonas e nas fitinhas coloridas do Senhor do Bonfim. A nossa bola, portanto, não é apenas uma jabulani. E você, caro leitor, sabe o que isso tudo significa? Não? Pois eu digo que não significa nada, mas as fitinhas milagrosas (e isso foi noticiado com ênfase) voltarão a ser fabricadas com algodão e não mais com tecido sintético. E isso também não significa nada. A imprensa não quis dizer a razão dessa importante mudança. Apenas informou que as fitinhas da Bahia,  que a gente usa para dar três nozinhos e fazer grandes pedidos que serão atendidos quando as fitinhas se desintegrarem, eram produzidas em São Paulo e agora serão arquitetadas nas proximidades do Senhor do Bonfim. E acho que isso também não significa nada. Entretanto, “é interessantíssimo, apesar de inútil” que a bola da copa e a fitinha do milagre ocupem os principais espaços dos noticiários no mesmo momento que o aumento dos combustíveis é anunciado como se fosse um presente natalino parido de alguma manjedoura.
          Mas o fato é que a Brazuca está lançada para rolar feliz nos gramados das milionárias arenas de um país que acabou de ser (des)classificado em 58º lugar em um ranking de educação que envolveu 65 países.
          Enquanto isso, na Costa do Sauípe, apenas para o sorteio de 32 brazuquinhas “politica e financeiramente organizadas”,  quase 30 milhões foram enterrados na areia para a recepção de 1500 iluminados que não percebem a escuridão na terra do berimbau e do Senhor do Bonfim. A tenda, levantada exclusivamente para o sorteio, no dia seguinte ao grandioso evento das bolinhas viciadas, já começará a ser desmontada.  E repito: “a tenda” (possivelmente dos milagres).
          A cada dia, acredito mais na ideia de que “toda propriedade excessiva é um roubo”. Será possível que essa gente tão nobre não vê que as mazelas que sofre o povo desta pátria são inúmeras e imensas? Já que querem se divertir e espantar a monotonia desta sociedade quase medieval, porque não contratam um bobo da corte? Ou será que se divertem muito mais por saberem que os bobos somos nós? E é bem provável que tudo isso aconteça exatamente porque nem mesmo tomamos conhecimento de que somos um dos piores países do mundo em educação.

Paulo Franco

                               Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº21 - dezembro/2013 
http://jornalmaisnoticias.com.br/category/revista-conteudo

A BANALIZAÇÃO DO MAL
         
          A gente perde o encanto de andar na rua, de espiar na janela o horizonte incerto, de votar para transformar, de fazer piquenique, de passear com o cão de estimação na praça, de sonhar. A gente, às vezes, com medo do mal, perde, inclusive, o encanto de fazer o bem.  O mal banalizado vem determinando em nós uma aceitação nociva, um silêncio perigoso, um niilismo patológico gerado pelo esvaziamento da paz em nossas almas alienadas o tempo inteiro pelo ibope que alimentamos quando assistimos só as coisas ruins.
          E a gente se acostuma com a máfia dos fiscais, com a máfia das empreiteiras, das merendas escolares, dos medicamentos, com os mensalões e com todas as corrupções que fazem a festa na maioria das cidades do país.  E a gente vê tudo isso ao vivo na rua e na televisão. Vemos a imprensa marrom sobrevivendo de estupros, assassinatos e outras misérias de alma, incluindo milagres executados por charlatões que se intitulam apóstolos do bem enquanto que extirpam o pouco que resta de um povo quase sem formação, saúde e cidadania.
          Enquanto isso, tem presunto novo na calçada, sangue fresco nos jornais e um campeonato a mais para iludir a multidão desempregada. E são mendigos que tropeçam em autoridades e risos que despencam de opulentas sacadas. E então os favelados sacam os contrastes das cidades com crianças que já nascem assaltadas. Aí, é gente branca e gente preta a premeditar alguns delitos. São muitos delinquentes que acenam para os carros que se trancam na velocidade dos gritos. O fato é que sempre tem desesperado novo na cidade e mais algum rebento a viver de esmola, pois banalizaram a corrupção na mão da autoridade que colherá prisão por não plantar escola.
          E tudo passa a ser normal. Um homem debatendo epilepsia, a morte na delegacia, o bem no mal, a covardia... Tudo passa a ser normal. Morrer de susto por ter visto o vulto humano, homens de luto enquanto há culto e contrabando. Tudo passa a ser normal. Escorbuto na senzala, morte a bala enquanto oculto um grito cala, enquanto se curte uma nova tropicália, tudo passa a ser normal. Assassinato na avenida, a multidão perdida, a solidão. Tudo passa a ser padrão. Morrer de fome produzindo pro patrão, ir pra favela e ser servente de mansão.
          E é neste quadro deprimente que constatamos que, no Brasil, a maioria dos presidiários (algo em torno de 70%) não possui nem mesmo o ensino fundamental completo. Este é, com certeza, um dos nossos índices negativos mais alarmantes. Ele entope inclusive a boca daqueles que defendem a simples redução da maioridade penal como solução para as nossas mazelas. Afinal, não basta combater os efeitos, mas é vital que se extermine as causas. E embora a ineficácia do sistema prisional brasileiro não deva servir de justificativa para aqueles que defendem a teoria de que o professor deva ser o carcereiro desarmado e redentor das misérias geradas por esse sistema de desigualdades e exclusão, a solução é, inegavelmente, a educação. Mas quando ela será, de fato, a nossa grande prioridade?
          Entretanto, apesar da banalização do mal, devemos acreditar e lutar pelo bem. Afinal, a nossa democracia é tão jovem, que ainda clama por liberdade. Este clamor vai desde eleição direta para dirigentes de ensino até a democratização dos meios de comunicação, passando por uma profunda reforma política, judiciária e legislativa. Isto só para lembrar alguns pontos impregnados de vestígios de uma ditadura do mal ampla que sustenta o estado brasileiro desde os primórdios da nossa República.  Mas podemos começar investindo em nossas crianças, criando uma profunda reforma educacional que garanta uma educação de qualidade do Oiapoque ao Chuí. É notório que o país que investe em escola de qualidade gasta pouco com cadeia. Deixemos as celas apenas para os psicopatas e para os “colarinhos brancos” e finalmente começaremos a banalizar o bem.


Paulo Franco 

Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº20 - novembro/2013 
http://jornalmaisnoticias.com.br/category/revista-conteudo/

O FIEL DA BALANÇA

“Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! “      
Castro Alves

          Dizem que religião, política e futebol não se discute. Provavelmente seja por isso que o futebol aliene tanto em meio a um mar de corrupção. A corrupção, por sua vez, é um dos ingredientes especiais da política que tem como especiaria a temperá-la a religião deste ou daquele segmento social que sempre visa fatiar o poder do estado para se sobrepor ao cidadão comum, via de regra, com baixa escolaridade, baixa autoestima, baixa renda, nenhuma propriedade e em consequência uma vítima tão frágil que sente medo de qualquer tipo de deus anunciado nos meios de comunicação, que geralmente estão nas garras de quem domina este processo de alienação. Talvez seja por isso que eu e várias outras pessoas temos tanta dificuldade para encontrar Deus. A gente nunca sabe em qual canal ele está de verdade, em qual partido, seita, religião, time, escola de samba e embora crucifiquem a todo momento um Cristo com os olhos esplendorosamente azuis, nem mesmo sabemos, com certeza, a sua cor ou a sua opção sexual. Acredito que se ele for negro e homossexual ou uma mulher negra e pobre, acabará sendo banido, inclusive da história. Nem mesmo o calvário lhe será permitido durante as festas natalinas. Tudo isso sem contar que o cristianismo nem representa a maioria do planeta. O que nos leva a crer que se algo em torno de dois terços da humanidade já nasce para ir pro inferno automaticamente, é bem provável que a gente já viva também em um tipo de inferno inconsciente e nem saiba.  É muita pretensão ocidental querer uma divindade exclusiva para o lado de cá, e imaginar que este Deus, embora “onipresente” deixaria o lado de lá ao deus-dará.  
          A questão central, porém, é por que não se discute esse “jogo-político-religioso-financeiro” se os milagres são operados ao vivo todos os dias em quase todos os meios de comunicação, embora os doentes continuem aumentando e morrendo nas filas para o povo? São cegos que voltam a enxergar, são paralíticos que andam a todo instante. Sem contar os milagres financeiros que nunca amenizam as misérias. Ou não precisamos mais de hospital ou alguém precisa urgentemente ir para a cadeia, afinal, o volume de alienados continua aumentando e para estes não há cura, tamanha é a imbecilização. Idiotizar deveria ser crime, assim como corromper, no papel, já é. De certa maneira é tudo 171.
          E é interessante como partidos, seitas e times brotam com extrema facilidade e não abrem falência. Livraria que é bom, quebraria logo no primeiro momento só com o volume de impostos, sem contar a burocracia que seria  para fechar a empresa falida. Por que não se isenta a cultura e se sobretaxa os dízimos em nome das crianças carentes, da educação, da saúde, da segurança? Afinal, a proteção divina nós já temos em Cristo, visto que está escrito que “ninguém vai ao Pai senão por Mim”. Observe, caro leitor, que Ele não disse “ninguém vai ao Pai senão pelo padre ou pelo pastor”. Vale lembrar que impostos sobre dízimos, no mínimo, minimizaria algumas lavagens de dinheiro sujo.
          O fato é que inúmeras igrejas viraram “leasing”, inúmeros partidos se transformaram em casamatas de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e almas e mensalões nacionais e internacionais. Já os times de futebol e as escolas de samba sempre foram “leasing” e casamatas do sistema e ao mesmo tempo sempre adornam a dormência popular e nos escandalizam com os valores exorbitantes e inúteis que movimentam visivelmente de forma suja, já que dinheiro não cai do céu nem mesmo para os sacerdotes. Aliás, estes segmentos são tão improdutivos quanto as bolsas de valores que mais e mais desvalorizam os setores que constroem a sociedade e evidentemente a mão-de-obra cada vez mais aviltada por esse novo modelo de escravidão que parece não mais ter fim.
          O que se pergunta é por que as altas autoridades das igrejas procuram o Albert Einsten quando ficam doentes. Por que não apelam para os seus próprios milagres? E por que as autoridades políticas também procuram o Albert Einsten? Por que não usam as unidades públicas de saúde?
          Sim! Religião, política e futebol se discute. Pelo menos em países aonde a educação é o fiel da balança contra a alienação e o professor não é feito de fantoche e impedido de discutir as artimanhas dos aparelhos reprodutores da ideologia do sistema. A função de educar não pode continuar submetida à ideia de sacerdócio, em especial, em um país no qual um Neymar analfabeto funcional vale mais do que todos os docentes da pátria.
        Valha-me, Deus!


Paulo Franco

Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº19 - outubro/2013 

A ÁRVORE QUE DÁ DINHEIRO

          Deitada eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, fulgura a corrupção no Brasil em inúmeros vieses. Um deles é o chamado FIES (Fundo de Financiamento Estudantil). Esse esquema bilionário de repasse de verbas públicas para mantenedoras privadas (incluindo igrejas e empresas de personas do alto escalão) vem iludindo grande parte da população estudantil da nossa pátria amada de forma escandalosa. Enquanto isso, um silêncio intenso e cúmplice reina nas autoridades da nossa parca democracia que tenta resistir, embora sobreviva nas garras de inúmeros lacaios. 
          O mais triste é que o discurso oficial que sempre justifica a impossibilidade de uma reforma profunda na educação do país é a falta de recursos. Entretanto, as empresas vinculadas ao FIES recebem enxurradas de dinheiro do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) como se verba pública brotasse em árvore de produção infinita. A justificativa até que é bonitinha, já que é um financiamento que acabará nas costas do cidadão comum que é iludido com propagandas tão enganosas que qualquer Procon de esquina poderia resolver. Alunos e familiares são ludibriados com falácias de gratuidade ou pagamentos simbólicos de R$ 50,00 e trabalho voluntário, quando na verdade pagarão um dia (se sobreviverem) por valores exorbitantes de mensalidades superfaturadas de cursos vagabundos que custavam cifras  irrisórias e que para alunos do FIES passam a valores absolutamente fora do preço de mercado.  O escândalo é tão grande que essas empresas nem fazem mais questão de alunos comuns, já que a rentabilidade é muito maior, mais segura e imediata quando algum bobo da corte assina com o Fundo de Financiamento Estudantil.
          E se tudo isso não bastasse, grandes grupos de idoneidade e origens suspeitas estão comprando a preço de banana todas as demais instituições que não participam do esquema  e em consequência estão virando monopólio em um setor estratégico que é a educação de uma pátria.  Sem falar que demitem os Professores Doutores e Mestres para entupir os pobres de cursos sem qualidade mantidos basicamente por auleiros, às vezes, sem a devida capacitação.
          Revendo a matemática do esquema, percebemos claramente que são muitas corrupções acontecendo ao mesmo tempo. O aluno é lesado, o dinheiro público é saqueado “legalmente”, o Fundo Nacional de DESENVOLVIMENTO da educação deixa de cumprir o seu papel social, monopólios criminosos se formam e atuam à luz das leis, o estado deixa de cumprir a sua função e larga a formação do povo a empresas privadas (privatização) e a escola pública continua relegada a último plano. Enquanto isso, há aqueles que se perguntam sobre as razões para que praticamente não exista mais quem queira ser professor e ainda se assustam com os nossos índices educacionais que estão entre os piores do planeta.
          Mas, se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria morte,
Pátria Amada, Brasil.


Paulo Franco

  Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº18 - setembro/2013 


OS DISFARÇADORES DO CAOS

          A escola pública passa por uma crise bizarra. Recebe sapatos de ouro quando não possui os pés. A maioria das escolas não consegue caminhar e nós, educadores, somos as muletas. Muletas mórbidas que já não sabem ao certo se existem. Cumprimos uma sobrecarga brutal de tarefas e ainda somos acusados de negligentes pedagógicos. Somos obrigados por leis hipócritas a aprovar até mesmo os alunos que continuam analfabetos.  Sem contar que somos inspetores, assistentes sociais, psicólogos, psiquiatras, seguranças e no caso dos diretores ainda são os Office-boys do desmanche. Em uma única frase, SOMOS OS DISFARÇADORES DO CAOS e consequentemente somos acusados de quase tudo por todos os lados.
          E é nesse colapso que os governos vão incluindo os alunos que necessitam de cuidados especiais. Agora querem acabar com as Apaes por absoluta incapacidade de exterminar as possíveis corrupções e se esquecem daqueles que necessitam dessa educação diferenciada. O que chamam de inclusão acaba se transformando em uma espécie de campo de concentração.
          Mas apesar dos crimes dos governos, sejam eles municipais (por exemplo, quando fazem relógio inócuo milionário no paço), estaduais (quando aplicam a aprovação automática com cartilhas vazias) ou federais (quando tentam destruir as Apaes), nós, trabalhadores da educação, cometemos pelo menos um crime inafiançável: somos CÚMPLICES DESTE ESTADO DE CALAMIDADE, digno de alarmar a ONU. A inclusão criminosa para baratear custos e a progressão continuada que vem destruindo as crianças, em especial, das camadas populares, são bons exemplos desta cumplicidade movida a letargia e silêncio.
          Nós não estamos percebendo que os furos desta peneira são infinitos e, às vezes, propositais. Grande parte dos funcionários já foram municipalizados, terceirizados e quarteirizados (embora alguns, por comodismo ou outros interesses escusos, adorem) e a justificativa é sempre o sucateamento promovido pelos próprios governantes.
          A escola pública está morrendo enquanto clama por um socorro emergencial e nossa saúde já não é das melhores. O nosso salário nunca esteve tão amarrotado e muitos educadores estão doentes e a gente continua esperando o convite para mais um velório de professor que pedagogicamente nos ensinará que silenciamos demais.
          Nós ainda não percebemos que somos parte do executivo da demolição do sistema. Executamos as ordens como CARRASCOS CEGOS que não sentem que matam por não verem a arma que manejam. Temos acatado quase tudo. Fechamos classes, demitimos professores, superlotamos as salas. Tudo isso sem nenhuma autoridade pedagógica ou disciplinar. No máximo discutimos em sala fechada diante da orelha do Dirigente, supervisores e assessoria. Este esbravejar apenas nos desgasta e desgastados somos acusados de loucos ou esquerdistas, até que nada que façamos faça sentido, inclusive a nós mesmos.
          Com esta atitude cometemos mais dois erros: o primeiro é que todos os crimes que vemos não chegam devidamente aos pais, alunos, imprensa e sociedade em geral. O segundo é que os “desabafos” nas reuniões já estão previstos pelo sistema como “válvulas de escape” para a pressão não atingir os governos.
          E ainda há quem se pergunte sobre as razões de ninguém mais querer ser professor em meio a tanto desprestígio profissional e moral, escolas desestruturadas, salários sordidamente baixos, rotina exaustiva, descrédito social, ausência de plano digno de carreira, meritocracias vazias, dentre tantas outras mazelas.
          Um país que é quase um continente, que já é uma das maiores potências planetárias não poderia negligenciar a sua educação a esse ponto. Já se fala em importação de médicos porque as nossas taxas de mortalidade nas portas das UPAs e outros disfarces são dignas de terceiro mundo. Entretanto, a educação já morreu faz tempo e quase ninguém viu. Crianças, jovens e adultos caminham como zumbis diplomados, exércitos de mão de obra barata, que disfarçam os índices de analfabetismo para agradar os Organismos Internacionais. Importaremos professores também? É bem provável. Afinal, nós, os últimos professores sobreviventes, já estamos falando grego.
          Devemos dar um basta! Não podemos mais aceitar tanta humilhação e descaso. Nestas condições o nosso trabalho nem vale tanto a pena. Temos que usar a nossa função, a nossa formação e o nosso poder de inserção social para gerar ações concretas, resultados práticos para a escola, para a sociedade, para nossas vidas e para a nossa profissão. Temos que dizer não aos pedagogismos rampeiros e às corrupções visíveis e invisíveis na educação.

 Paulo Franco         
Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº17 - agosto/2013 



O EIXO E AS ALIENAÇÕES

           A cada cinco segundos uma criança morre em decorrência da fome no mundo. Acaso os urubus se alimentassem de crianças mortas, certamente não haveria urubus em quantidade suficiente para a faxina de um planeta vitimado pela ambição de alguns para o extermínio de muitos. E esse mesmo mundinho, inacreditavelmente, produz o dobro de alimentos que seriam necessários para saciar a fome de todos. Não consigo deixar de me sentir pequeno diante de números que denotam uma sociedade tão desigual.
         Porém, de vez em quando, em alguns lugares, gritos rompem silêncios e insistem que a liberdade existirá, que a igualdade virá, que as fronteiras desaparecerão e que as multidões desarmadas os grilhões exterminarão em nome de uma sociedade fraternal. Mas não sei!
          Abstratos, os olhares das pessoas revelam a magnitude de um tipo estranho de desesperança em meio à letargia imposta pelos dominadores dos ideais, dos sonhos, das vidas. E então, cansados, esses mesmos olhares, de maneira afoita, se lançam quase que fisicamente às grades que protegem um poder que não se sabe exatamente onde está, ou o que seja ou quem. E perdida, a juventude vasculha a rua inteira, as praças, a pátria inteira, o mundo, o universo de cada pedaço de um sistema que imagina sempre novas fórmulas para condenar, conter e cooptar os ímpetos das novas gerações.
          E banhada vemos a história em sangue, poderes e opulências. Quase sempre do silêncio ao grito. E hoje, do papel ao “face”, ao infinito.
          Mas há o medo dos ideais que se confundem. Nas ruas alguns sonhos que se debatem entre saqueadores e carabinas, entre corruptores de esquerda e de direita ou de lado nenhum que estranhamente se unem como concubinas. Muitos interesses escusos se alastram daninhos, como se fossem fagulhas de uma luz que nasce em nós para desatar a escuridão dos nossos descaminhos. E enquanto isso, a juventude sacode mastros ancestrais na ilusão de que inexistam bandeiras.
          Inadministrável ser de vocação facínora, de falácias travestidas de irracionalidades filosofais e práticas pelo próximo em causa própria revestidas de oratórias sacerdotais. Reverenciamos o princípio e não questionamos os fins. E sem finalidades perdemos os nossos princípios tornando-nos igualmente ruins. E discursamos uma sociedade fraternal paridos todos do mesmo mal. Somos iguais só no que tememos a sós e libertadores porque somos todos prisioneiros de nós. Queremos revolucionar a depressão latifundiária da nossa emoção, mas somos vítimas do nosso individualismo tribal, coletivo apenas na alienação. Somos contra a miséria do coração, mas nosso sim equivocado é eternamente soberano ao mais abençoado não. Temos uma pressa coletiva e saímos atropelando grandiosos eternos ideais com ideias efemeramente pessoais. E como dividir a propriedade que não temos? Como difundir o que nem ao certo sabemos se queremos? Como semear amor se cultivamos o ódio? Verdade se mentimos? Felicidade se não sorrimos? Igualdade se não repartimos? Fé se fingimos? Coragem se fugimos? Esperança se iludimos?
          Irrealizável sonho travestido de falácias e irracionalidades temperamentais! Como corrigir com outros erros? Como libertar com mais prisão? Como revolucionar, se não mudamos o eixo, sequer, da nossa ambição?


Paulo Franco         
Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº16 - junho/2013 


 PASÁRGADA E OS SABIÁS
“Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei.”       
Manuel Bandeira

           Minha terra tem Palmeiras, Gaviões, Flamengos e grandes arenas brotam todos os dias em todos os rincões como se fossem ervas daninhas, enquanto que não temos hospitais e escolas com qualidade e em quantidade suficientes. Na minha pátria os homens encostam os cotovelos nos balcões dos bares e riem o tempo todo, embora o assunto seja quase sempre o mesmo e com os mesmos comentários brilhantes sobre as mesmas partidas de futebol que já foram sabiamente debatidas pelos filósofos televisivos que alimentam a vocação do povo para o nada. Política não se discute e muito menos religião. Nem nos lares, nem nas escolas e muito menos nos bares. E as mulheres da minha terra espicham os cabelos o tempo todo e depois fogem da chuva para não ficarem feias. Na maioria das vezes, uma é espelho da outra e os homens nem percebem isso, já que ficam ocupados com os debates sobre as bolas.
          Na minha terra quem faz gol é rei e quem trabalha não vale nada. A minha terra é uma felicidade só. Tem carnaval, bumba-meu-boi, axé, romarias para todo lado. Na minha terra todo dia é dia de Santo. As igrejas se multiplicam na velocidade dos bares e dos estádios. A única escola que presta em lugares assim é a escola de samba. E os alcaides ficam felizes, multiplicam os seus cargos opulentos e os seus salários exorbitantes enquanto que a população dança, dança e dança.
          O engraçado é que na minha terra as crianças não precisam estudar. A evolução é automática. A nossa pedagogia valoriza o lugar comum e os vestibulares já aceitam a língua vulgar para reservar a língua culta para poucos. E os poucos que adquirem a oratória sobem nos palanques e nos púlpitos para fazerem belos discursos com linguagens figuradas que a multidão não entende, embora o tempo todo aplauda. O mais engraçado ainda é que quase todos os Conselheiros que definem os rumos das escolas públicas são donos das escolas particulares.
          Na minha pátria-mãe o hino é longo e é quase inteligível, mas é cantado solenemente antes de cada partida de quase vinte e dois analfabetos que não entendem o que cantam nas arenas, mas que ao término são ovacionados por uma enxurrada de palmas enquanto que a prole urra.
          A minha terra é muito grande, quase um continente e tem muitas riquezas. Mas foi toda picotada em pequeníssimas aldeias que não conseguem se manter e isso acaba justificando que a grande maioria das pessoas seja muito pobre. Os que grilam as riquezas acabam dominadores das cidadezinhas. Dominam o corpo e a alma dos aldeões, mas normalmente são bajulados por eles.
          Ultimamente a economia da minha terra vem sendo alimentada pela produção incansável de automóveis com redução de impostos. Os tomates, entretanto, e outras comidinhas naturais básicas têm preços enormes e fazem parte da lista de produtos que são taxados por quase uma centena de impostos que o poder central afirma categoricamente que são insuficientes para manter a segurança, a saúde e a educação dos meus conterrâneos.
          Mas em minha terra há cartão-cidadão, bolsa-família, bolsa-leite, bolsa-gás, bolsa-filho-na-escola, bolsa-prisioneiro, bolsa-desempregado e algumas cotas que escondem a necessidade de uma pátria boa para todos.
          Os poucos que vivem muito bem são donos dos partidos, igrejas, sindicatos, bingos, bichos e das empreiteiras que produzem os sambódromos e as inúmeras arenas de futebol.
          Vou-me embora para o Brasil. Os sabiás de Pasárgada já não cantam como os de lá.


Paulo Franco


Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº15 - junho/2013 


O FIM DO PROFESSOR NA TERRA DA IMPUNIDADE

         O conceito de que a disciplina pode garantir a liberdade vem caindo em desuso, pelo menos no Brasil. A impunidade está virando uma doença epidêmica e vem determinando o esvaziamento dos conceitos de moral, de compaixão, de bons costumes e de cidadania. Houve um tempo no qual a criança começava a ser educada ainda no berço. Hoje, em inúmeras famílias, os filhos começam a determinar suas vontades sobre pais omissos ainda antes da fala. Logo em seguida acabam depositados em creches mal preparadas e esvaziadas do carinho e da disciplina dos lares para que os seus progenitores vendam suas parcas forças de trabalho.  Depois vão para as escolas e continuam determinando suas mazelas emocionais sobre os professores que deveriam formá-los, mas que acabam gastando o tempo precioso das aulas tentando suprir a ausência de educação que deveria ter sido construída no convívio com os pais. E são eles, os professores, as primeiras grandes vítimas da sociedade da impunidade, além é claro, das próprias crianças que já chegam na escola deterioradas pela ausência de padrão moral e aliciadas pela avalanche de imoralidades que assimilam nas músicas de baixo calão, nos programas televisivos popularescos, nas baladas que embalam sexualidades esdrúxulas e na brutal porta para a solidão que representam as telas e os teclados dos computadores.
          E como se fossem frutos de um desmanche social amplo, dentro das escolas, essas crianças e jovens descobrem rapidamente que lá também não precisam seguir regras, leis, normas, costumes. Percebem que estudando ou não, são sempre promovidas. Tendo caderno ou não, são sempre promovidas. Tendo frequência ou não, são sempre promovidas. Tendo respeito com os colegas e professores ou não, são sempre promovidas. Enquanto isso, a sociedade não se pergunta quais serão os efeitos futuros (e o futuro já chegou) dessa promoção automática que cria aberrações sociais desqualificadas de formação sistematizada e inviabilizadas para um convívio social pleno que os façam, de fato, cidadãos.  A aula macabra (imposta pelos governos) que as nossas instituições constroem em nossos jovens é a da impunidade atrelada a um tipo escroto de irresponsabilidade e esvaziamento de alma.
          Pois bem. Os antigos diziam que quem não escuta os pais e os professores, acabará tendo que escutar o delegado. Porém, a impunidade é tamanha, que nem mesmo os delegados, acredito, estão sendo escutados. As nossas leis inócuas impedem não apenas as ações das escolas (que são impedidas de avaliar as crianças e jovens) e dos pais (que são impedidos de colocá-los em um trabalho ainda que como aprendizes), mas também impedem as ações da polícia e do poder judiciário. O resultado é um analfabetismo intelectual e funcional crônico e uma sociedade com um medo incondicional, dentro ou fora das casas. O cidadão de bem cumpre a pena de não poder ir, vir ou ficar em paz em lugar algum. Enquanto isso, a criminalidade passeia impune gargalhando sobre os nossos medos.
          Agora, além das agressões verbais, os professores, diretores e demais funcionários das escolas, também estão sendo agredidos fisicamente e está virando moda. Em contrapartida, vários estados da nossa pátria mãe gentil já não possuem professores em quantidade suficiente para suprir as salas de aula em decorrência do fato de que quase ninguém mais quer exercer essa função que no passado brasileiro já foi reverenciada e em alguns países mais evoluídos ainda é.  
          Possivelmente, o que mais nos aterroriza é sabermos as consequências para qualquer pátria que não valoriza o professor e talvez também saibamos quem são os culpados. Somos um país com 513 deputados federais e 81 senadores, todos com salários exorbitantes, mas que entretanto alimentam uma morosidade intensa, uma incapacidade extrema de análise dos problemas emergenciais que afetam a nação a curto, médio e a longo prazo e acima de tudo há a falta de coragem política ou de interesse para viabilizar as várias reformas profundas  que a nossa República tanto necessita.
          E enquanto a sociedade espera, vai contando os mortos e passando a mão na cabeça de crianças mal educadas e mal formadas que recebem diplomas falsos apenas para mascarar os índices vexatórios que somos obrigados a apresentar para o primeiro mundo fazer de conta que o imperialismo neoliberal nos vigia para que tenhamos uma juventude pensante.

Paulo Franco  
         

Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº14 - junho/2013 


O FIM DA ESCOLA

          Há um sarcasmo macabro na sala de aula. Acho que chegou o fim da escola, ou pelo menos, o fim deste modelo de escola. Não podemos continuar empilhando tijolos novos no mesmo muro velho de sempre. Paredes seculares em formato de retângulo, crianças e jovens enfileirados, giz, saliva e cartilhas sem cor e sem vida já não convencem mais. Nem sei ao certo se em algum momento da história a escola já foi útil para alguma transformação ou se sempre se prestou à reprodução dos interesses de um sistema que depende da formação de mão de obra barata e de nenhuma criticidade nos filhos das camadas populares que recebem diplomas aos montes até mesmo quando continuam parcialmente analfabetos como se fossem cabeças não pensantes de uma gigantesca boiada bem fácil de ser manuseada.
          Houve um tempo no qual a falácia para justificar as mazelas escolares era a falta de dinheiro. Acho que esse tempo já passou. Há verba em abundância inclusive para manter instituições particulares que se alimentam de projetos oriundos de programas governamentais. Fora isso, um volume descomunal de verba pública é rasgado escandalosamente todos os anos em investimentos inócuos e assistencialismos desnecessários. No caso do Estado de São Paulo, cada aluno recebe uma infinidade de livros didáticos oriundos de verbas federais (que via de regra não são utilizados) e ainda recebe toneladas de cartilhas com conteúdos desconexos e pedagogismos paridos da psiquiatria de quem, muitas vezes, sequer esteve em uma escola pública, seja como aluno ou muito menos como professor e se esteve foi por muito pouco tempo. Só não há verba para a criação de uma carreira digna para o professor que continua adoecido e desesperançado. A maioria já não suporta mais nem mesmo imaginar que escola existe, inclusive em decorrência desta ter virado uma bizarra fábrica de lunáticos tecnológicos com fones socados nos orifícios auditivos que não escutam mais.
          E se isso não bastasse, um outro tipo de lunatismo, oriundo do distanciamento da realidade por parte de alguns promotores e juízes, vem corroborando para uma espécie de eutanásia da escola que um pouco ainda pulsa. Algumas autoridades, à distância, com olhares aligeirados e sem nenhuma análise mais aprofundada das realidades das escolas, impõem matrículas à revelia, mesmo quando não há espaço físico nas salas de aula (já que não se tem construído novos prédios em quantidade suficiente)  e em alguns casos matrículas  que colocam em risco a vida dos demais alunos, dos professores e da equipe gestora. O que não se percebe é que a escola continua se prestando a curral social redentor de todas as mazelas que os demais órgãos deste Estado Político ingerente (em especial nas áreas da saúde, da segurança e assistência social) não conseguem eficácias.
          Enquanto isso, palavras de ordem sem sentido, de gente ensandecida, que também não suporta sala de aula e faz do pedagogismo um eficaz instrumento de poder e de inutilização social, ecoam há décadas no vazio deste modelo disforme de educação e emperram a execução do trabalho pedagógico e dos sonhos de quem, ainda que em estado de quase morte, resiste dentro das unidades escolares comendo o pão que o diabo não quis amassar meramente para manter o pão de cada dia.
          Os professores estão morrendo e a escola há muito tempo não respira a verdadeira cultura dos alunos que, por enquanto, em sua maioria, estão apenas contaminados pela apatia, ausência de limites e de moral familiar e nenhuma sequência de conteúdos em uma escola que deveria ser o símbolo da sistematização em nome da cultura para a liberdade, mas que impõe o lugar comum em prol da massificação e do desmanche social alimentador de municipalizações, terceirizações, quarteirizações e quem sabe um dia abrir caminho para um Estado sem função nenhuma, plenamente privatizado e obsoleto.
         Mas continuamos sonhando com uma escola ideal, livre de qualquer tipo de controle de pensamento. Ela é possível, ela é libertadora, ela tem teatro, área de esportes, ela contesta a tradição, a propriedade, ela debate política partidária, religião e derruba governos que se alimentam da corrupção e do sucateamento dos setores públicos do povo que produz a imensa riqueza deste país.

Paulo Franco 



Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº13 - março/2013 


A PRIMEIRA PEDRA
        
          Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós que cometemos o pecado do silêncio às ingerências e às corrupções que nos colocam o tempo todo à mercê de tragédias anunciadas, porém não denunciadas em tempo.
          Neste triste momento, há um pouco da dor da cidade de Santa Maria em cada um de nós que vivemos em uma pátria com excesso de leis, via de regra, inócuas, já que na maioria das vezes não são cumpridas a contento. O nosso país está abarrotado de legisladores municipais, estaduais e federais que, para mostrarem serviço, ficam remendando a Constituição com legislações vazias que apenas burocratizam a nossa Carta Magna, transformando-a em uma espécie de colcha de retalhos que não serve para proteger o direito de vida e felicidade da população. Enquanto isso, muitos morrem de fome, outros por falta de moradia, falta de saneamento básico, falta de um sistema de saúde minimamente digno, falta de segurança, falta de educação e tudo isso junto gera uma população que não reage contra as corrupções (explícitas e implícitas) que fomentam números de uma grande guerra civil. E isso quando não é a própria população que promove a corrupção oferecendo suborno a fiscais, policiais e outros representantes do estado.
          Perante as leis vigentes, se procurarem direito os culpados pela chacina dos jovens que estavam na boate Kiss, é evidente que uma grande lista de inoperantes, negligentes ou corruptos mais visíveis será encontrada. Ela será, com certeza, formada por aqueles que emitiram de forma indevida os alvarás de funcionamento, ou por aqueles que não executaram com o necessário rigor as vistorias, ou por alguém que burlou as leis independentemente de autorizações, ou por alguma autoridade que foi subornada para fazer vistas grossas e etc. Contudo há sempre uma outra lista que é invisível aos olhos daqueles que executam as leis. Essa segunda lista é formada pelas altas autoridades (governadores, prefeitos, vereadores, secretários...) que permitem que as pequenas corrupções ocorram, seja por não darem a devida importância ao tema, seja por cumplicidade, seja por incompetência ou outra razão qualquer que pode ser simplesmente a impunidade.  E essas duas listas de criminosos em potencial, a visível e a invisível, existem, possivelmente, em todas as cidades do país.
          Atire a primeira pedra a cidade que não é um pouco de Santa Maria. Atire a primeira pedra a cidade que mantém uma rígida e atualizada fiscalização de segurança em todos os ambientes públicos, sejam igrejas, teatros, cinemas, boates, botecos, repartições diversas, e o que é mais escandaloso: em todas as ESCOLAS. A maioria dos prédios escolares são antigos, arcaicos e muito mal projetados. Sem contar que no passado a quantidade de aparelhos elétricos era mínima. Em especial naquelas escolas em que há pelo menos um andar, o corredor superior é um beco sem saída. Caso ocorra um incêndio no térreo, as crianças morrem vitimadas pela negligência de quem mantém essas edificações funcionando sem as devidas adaptações às legislações atuais, que seria, no mínimo, a construção de escadas de emergência nas laterais dos prédios.
          Mais um ano letivo está começando. Só em nossa região há inúmeras unidades escolares nestas condições alarmantes. Quem vai impedir o risco de uma tragédia anunciada com as nossas crianças e jovens? O governador? Os prefeitos? Os vereadores? As autoridades da educação? Os pais? Os próprios alunos? Ou seria Santa Maria?
          Um grande “kiss” para quem atirar a primeira pedra.

Paulo Franco



Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº12 - fevereiro/2013 


O RANKING DA MORTE

          A segurança pública está na ordem dos nossos dias e dos nossos medos. Em decorrência da insegurança que assola o país ela é a vedete dos meios de comunicação, em especial, dos mais sensacionalistas. Também não é para menos. Em algumas regiões os índices indicam uma pátria em guerra civil que o estado brasileiro nem controla e nem assume que existe. Estatísticas alarmantes demonstram que até mesmo quem atua na segurança está sem segurança para ir e vir.
          Contudo, algumas outras mortes, um pouco mais silenciosas e que não estão na grande mídia, continuam causando uma verdadeira devassa nacional, como é o caso da educação e da saúde. E o interessante é que o tripé de todos os palanques eleitorais, já há muito tempo, é exatamente a segurança, a educação e a saúde.
          O bizarro é que na questão da segurança, de fato, em muitos casos, não há a possibilidade de se identificar os verdadeiros criminosos, embora algumas alterações na legislação poderiam diminuir as impunidades. Porém, no tocante à educação e à saúde os culpados são visíveis a olho nu e estão às soltas desde o descobrimento. Eles estão nas câmaras, senado, empreiteiras, prefeituras, latifúndios, presidências e infinitos outros cabides de um sistema de desigualdades sociais profundas que suga toda e qualquer possibilidade de dignidade de nosso povo. E o tempo todo essa gente de colarinho branco, verde, amarelo, azul anil tem as suas carrancas estampadas nas páginas dos jornais ou nas telinhas, que via de regra, atuam a serviço dos que geram as corrupções, as impunidades, as misérias e os extermínios dos direitos e da cidadania.
          No último dia 27 de novembro, foi divulgado o índice de qualidade na educação, batizado como Índice Global de Habilidades Cognitivas e Realizações Educacionais (que envolve o aprendizado de matemática, leitura e ciências), no qual a nossa pátria amada e mãe gentil aparece na penúltima posição de um total de 40 países, ficando à frente apenas da Indonésia.
          Enquanto isso assistimos ao vivo inúmeras demolições de estádios de futebol para a construção de outros estádios de futebol. E voltar a discutir as razões de uma educação precária para as camadas populares é chover no molhado. Ouso dizer que não há autoridade que desconheça as razões. Acredito sim que talvez até desconheçam as condições da saúde pública, principalmente porque jamais levariam um ente querido para ser socorrido nos matadouros, aos quais chamam de Hospital, UBS, UPA e outras siglas que mais parecem Campos de Concentração.
          Não tenho o número exato. Entretanto, se contarmos os mortos em decorrência da falência na segurança, das falcatruas na saúde e dos mortos vivos semianalfabetos que são paridos por esse sistema educacional falido, chegaríamos a um Ranking de mortes múltiplas dificilmente superável por outro país do mundo, em especial, países como o Brasil, detentor de riquezas imensuráveis, porém nas mãos de alguns que se sobrepõem à multidão que clama e morre impiedosamente nas ruas, nas escolas (morte da alma) e nas filas de espera para atendimento médico. E nos dias atuais, inclusive os profissionais destes três segmentos também estão morrendo em abundância: alguns a tiro, outros por loucura ou qualquer outro tipo de adoecimento gerado pelo descaso do sistema em relação às condições de sobrevivência desses profissionais. Isso sem contar que a juventude já não sonha mais com essas profissões. E isso dói.
          E ainda há quem se pergunte sobre a origem de tamanha violência.

      Paulo Franco 
Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº11 - dezembro/2012 


A ESCOLA DOS SONHOS


          Nos primeiros anos deste jovem milênio, o governo do Estado de São Paulo, tendo como mandatário o mesmo segmento partidário dos dias atuais, determinou que as comunidades escolares deveriam debater e propor “A Escola dos Sonhos”. Democrático, porém demagógico. Afinal, alunos, professores e pais sempre souberam que a escola ideal é aquela que oferece condições dignas para que o aluno aprenda e o professor ensine. Contudo, para que isto ocorra (e o governo sempre soube disto) a escola dos sonhos deve ter classes com 20 alunos e o professor deve ter uma jornada de trabalho dentro do que estabelece a Organização Mundial de Saúde e ser bem remunerado e reconhecido com um plano de carreira que o estimule a avançar e, quem sabe, ser feliz. Nestas condições até a “progressão continuada” seria possível. Caso contrário, vira escandalosamente a “aprovação automática” que está formando analfabetos e adoecendo professores (ler textos científicos sobre a Síndrome de Burnout). Aliás, a educação está doente com tantas falácias e pedagogismos. Normalmente quem tem teorizado sobre escola está bem longe dela. E quando as teorias falham, culpam o professor e chamam a comunidade, que paga os seus impostos, para amenizar o caos com populismo barato do tipo “amigos da escola”. Ninguém chama o povo para medicar pelo médico, para arquitetar para o arquiteto. Por que a população tem que resolver o problema da educação? Até as crianças sabem que nada substitui o saber. E para que ele flua é preciso paz, estrutura, disciplina e felicidade. Sem esses elementos não há educação de qualidade possível. É preciso humanizar a escola. O aluno tem sido tratado como um número, como um tijolo na parede, como gado em classes superlotadas e consequentemente o professor tem sido tratado como um nada.  À pedagogia compete facilitar a transmissão do saber.  Não cabe a ela resolver as mazelas de uma sociedade apodrecida por corrupções, falácias, violências, patologias ou construtivismos.
          Uma década depois, a escola dos sonhos ainda é um pesadelo, ainda é um amontoado de falácias e de discursos vazios que alimentam os palanques eleitorais, inclusive com uma grande quantidade de candidatos analfabetos (pelo menos funcionais) que foram vitimados pela mesma escola pública de mentira que as forças políticas, sem compromisso com a transformação da sociedade,  continuam gerando. E o mais triste é que a escola dos sonhos ainda não aconteceu porque muitas salas de aula continuam superlotadas e os professores continuam adoecidos por falta de condições dignas de trabalho e de reconhecimento. Isso sem contar que as tecnologias continuam distantes do cotidiano escolar. É como se o computador ainda fosse uma novidade, um mistério, um bicho-papão. Em geral, quando a escola possui computador, é em quantidade insuficiente e sem a devida manutenção. Infelizmente as salas de aula continuam sobrevivendo com um atraso de alguns séculos. As autoridades afirmam que há falta de dinheiro e é possível que realmente seja um fato. Afinal de contas, tudo isso acontece em um país no qual o próprio legislador estabelece os seus vencimentos agigantados. São vários milhares de reais de salário, verbas para assessores, verbas para gabinetes, verbas para gasolina, verbas para automóveis e etc. Qual o custo total para todos nós? É bem provável que a escola dos sonhos tenha que esperar que a sociedade acorde deste sono para colocar fim neste pesadelo.
          Mas vale ressaltar que é só dar à escola as condições que ela precisa e ela fará a sua parte, como  sempre fez. Assim, ela será a escola dos sonhos de todos os alunos, pais e professores.  O resto é com a polícia, com o médico, com a assistência social. O educador não aguenta mais continuar sendo visto como o carcereiro de uma sociedade libertina, vitimada pela ausência de medidas políticas, sociais e morais que a educação e a humanidade tanto clamam.
          Pensando bem, acredito que o Governo do Estado de São Paulo tenha desistido da Escola dos Sonhos, já que agora ele mascara o niilismo com cartilhas que fomentam a pedagogia do nada. 

Paulo Franco

Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº10 - outubro/2012  




A DEMOCRACIA D0S ILUMINADOS

          A nossa liberdade é torturante. Vivemos a democracia de poucos iluminados em um país de quase plena escuridão. É inconcebível que em muitas cidades do país exista apenas um candidato ao poder executivo. Quando muito, são dois ou três, que, aliás, muitas vezes fazem parte de um mesmo bando. Isso quando um não desiste da disputa para subir no palanque do outro em nome de conchavos que garantam cadeiras nas secretarias futuras.  E os jornais de cada dia, tantas vezes ligados a interesses escusos, mentem para um povo que não sabe ler e que de posse de vasta ignorância determina a mentira como verdade absoluta, já que o eleitor é como quem atira contra si por não entender os lados da arma que maneja. A ficha limpa é um oásis neste mar de podridão. Somos quase duzentos milhões de detidos nas garras de alguns poucos que roubam para si as informações, as terras, as fábricas, as leis e as corrupções. A nossa democracia é, de fato, torturante. Ela é um fardo, inclusive para os candidatos aos cargos legislativos que normalmente não são iluminados. E eles existem aos montes, entopem as nossas caixas de correio, visivelmente por ambição a um farto salário para um parco cargo quase que sem função. Via de regra, é gente ralé, hoje em dia, de qualquer classe social, que se submete aos iluminados de plantão, que já foram aprovados em todas as sabatinas de corrupção para serem a bola da vez e chefiarem as coligações. Contudo, apesar da ampla democracia no que diz respeito ao volume de candidatos a uma vaga no legislativo, quem menos manda é a urna e aí a democracia se desfaz. Há candidato laranja de todo tipo. Há aquele que não põe a campanha na rua porque é funcionário público e só quer o salário sem trabalhar. Há aquele que não receberá os votos nem mesmo dos parentes mais íntimos. Há aqueles que já saíram derrotados no formato das coligações que eles não entendem. Há aqueles que vomitam mais dinheiro na campanha do que receberão, se eleitos, durante todo o mandato.  É há aqueles que todos já sabem que estarão eleitos porque jamais saíram das asas do poder. Na maioria das cidades, poderíamos adivinhar quase todas as cadeiras nas câmaras antes mesmo da eleição.  Quanto aos poucos iluminados que se arranham pelo executivo, a disputa dessa gente limpa se dá primeiro no campo judiciário, para ver quem é que consegue esconder a sua própria ficha suja e denunciar a ficha dos outros. E só depois desta rinha, muitas vezes julgada por supremos questionáveis, é que vão às urnas que nos dão o direito apenas de votar em quem já conseguiu varrer a própria sujeira para debaixo do tapete desta hipócrita democracia de partidos de aluguel, empreiteiras, acordos, manuseio de fiéis e infinitas formas de mensalões que jamais chegarão aos tribunais.

Paulo Franco  

Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº 09 - setembro/2012  

O ACASO E O DESCASO 
        
          É deprimente, mas o Brasil perdeu de sete a três para o Cazaquistão e empatou com a Etiópia em quantidade de medalhas de ouro nas Olimpíadas de Londres e ainda tem gente que ficou triste apenas porque perdemos no futebol para o México em 28 segundos.  Amargamos uma medíocre vigésima segunda colocação no quadro geral de medalhas e somos uma das maiores potências financeiras do planeta, apesar de sermos miseráveis em educação. Mais um pouco e perderíamos para o Azerbaijão. Perdemos em quase tudo, mas os meios alienadores de plantão reafirmam a cada instante que somos os maiores no futebol, mesmo sem termos jamais conseguido um ouro olímpico neste esporte. E o pior é que criam heróis aos montes antes mesmo que os atos heróicos sejam executados. Enquanto isso, nos bastidores das nossas corrupções, os atletas dos mensalões e os cachoeiras ficaram esquecidos. Isso sem contar que somos apenas o 53º colocado no Programa Internacional de Avaliação de Alunos e ficamos abaixo da média mundial em leitura, matemática e ciências. Já tem empresa com dificuldade de preenchimento dos seus quadros, porque os candidatos, mesmo quando diplomados, são analfabetos funcionais.
          Mas seremos a sede das olimpíadas de 2016. A bandeira já está na mão do Rio que foi apresentado ao mundo, na festa de encerramento de Londres, pelo gari Sorriso que vendeu mais uma vez a imagem de um povo sambista, inculto e malemolente.  Na mesma solenidade, uma rampa simbolizando o calçadão de Copacabana recebeu índios com cocares tecnológicos iluminados executando danças típicas enquanto que Iemanjá aparecia no palco para ser seguida por uma escola de samba que se misturou com a música “Nem Vem Que Não Tem” para representar o malandro carioca e no final receber uma top model sem sentido nenhum naquela pantomima que foi encerrada com o Gari Sorriso correndo para abraçar o Pelé.
          É salutar ressaltarmos que a bizarra imagem reafirmada ao vivo para o mundo não é o retrato do nosso país porque não é a nossa realidade. Aqui os garis não passam o dia sorrindo. Alguns dependem de bolsa-miséria e mastigam migalhas. Os índios já foram quase que exterminados e os que ainda restam usam camisa do Flamengo e têm as suas culturas invadidas por religiões de homem branco. Isso quando não fazem tráfico de madeira e de outras riquezas naturais. A malemolência não é a nossa principal marca, já que trabalhamos muito para as empresas estrangeiras e as corrupções arrastarem as nossas riquezas.
          Resta saber se em quatro anos é possível preparar atletas de ponta em uma pátria que trata a educação com desdém. Já não conseguimos formar professores em qualidade e quantidade suficiente para preparar os nossos jovens. As nossas escolas, em sua grande maioria, têm um formato físico e ideológico com um atraso histórico de séculos. E enquanto isso, vemos, adormecidos, uma enxurrada de dinheiro sendo derramado na modernização de estádios de futebol para a Copa de 2014.
          Não podemos continuar esperando que os nossos atletas surjam ao acaso em decorrência de tratarmos a educação dos filhos da pátria com tamanho descaso.

               “Tem desempregado novo na cidade,
                 mais algum rebento a viver de esmola,
                 corrupção na mão de outra autoridade
                 que colherá prisão por não plantar escola”

                Paulo Franco

Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº 08 - Agosto/2012  



O JOIO E O TRIGO

          Houve um tempo no qual os homens tinham bandeiras e elas não estavam pautadas apenas em símbolos ou cores. Faziam parte do coração e eram inegociáveis porque representavam pontos de vista que não tinham preço. Nesse tempo, as igrejas eram só igrejas e os partidos eram para a reivindicação das necessidades dos homens. A fidelidade, portanto, não era apenas partidária, era ideológica e, às vezes, para a vida inteira.
          Entretanto, algum pretenso soberano reinventou a palavra governabilidade e misturou as bandeiras a tal ponto que hoje o homem já não se reconhece em sigla alguma. Em nenhum momento o impostor ideológico se importou se estava despersonificando a democracia, se estava abolindo a palavra cidadania e até mesmo o vocábulo partido. E tudo isso vem impulsionando a letargia nas pessoas, embora estejam sendo cada vez mais aviltadas pelos impostos e pela destruição dos seus direitos essenciais. E os Partidos de Aluguel, hoje, renomeados como Partidos Agregados, alimentam a ideia de que vence as eleições quem tiver o maior número de canalhas habilidosos por perto. Patético! Grandes líderes não têm o direito de barganhar a alma de um povo. Aliás, alguém assim, não deveria merecer voto nem mesmo para líder de condomínio. Além disso, estamos ensinando a nossas crianças que a democracia depende da deturpação do significado das palavras. Chantagem e barganha de poder virou governabilidade. É como o repartir de um bolo que ainda não foi feito. E se não existir partilha há retaliações, independentemente do preço pago pelo eleitor. E o pior é que por trás de vários segmentos há, geralmente, uma empreiteira, um bicheiro, uma igreja, um sindicato ou um outro lacaio qualquer.
          Mas a criatividade daqueles que lutam pelo comando das aldeias é sem fim. Agora, pelo menos na nossa região, virou uma espécie de guerra dos sexos. Perceba, caro (e) leitor, que as cinco principais chapas que disputarão as próximas eleições, talvez por mera coincidência estatística, têm uma dupla de um homem e uma mulher. É inacreditável que menosprezem o eleitor a este ponto! É como se dissessem que a simples contemplação dos dois sexos na chapa garantisse a confiança da população, independentemente do ideário que arrastem.
          Quanto às igrejas, algumas composições também demonstram a prática da junção de católicos e evangélicos à caça dos votos das ovelhas. A impressão que fica é que há fiéis servindo de massa de manobra para alavancar novos alcaides aos mesmos velhos tronos.
          E o que seria hoje, dentro deste esdrúxulo quadro de esvaziamento ideológico, a infidelidade partidária, já que as coligações, geralmente, são determinadas por gigantescos mandatários das siglas? Quantos políticos, talvez até com boas intenções, foram banidos das disputas eleitorais por discordarem ou apenas por serem vítimas destas bizarras manobras que impedem cada vez mais que se separe o joio do trigo? E quem é que vai pagar por isso? É claro que é o eleitor que na melhor das opções, por não ter opção nenhuma, acabará ratificando com o seu voto obrigatório, um pouco mais do mesmo.

Paulo Franco

Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº 07 - Julho/2012          


A FALÊNCIA DA PALAVRA

          Machado de Assis não pode mais ser encontrado em nossa cidade e também nunca foi visto na cidade vizinha. Nem Drummond, Neruda, Castro Alves, Clarice Lispector, Bertolt Brecht, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos, Lima Barreto, José de Alencar, Aluísio Azevedo,Bocage, Sousândrade, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes, Gonçalves Dias, Rubem Braga, Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Cruz e Sousa, Murilo Rubião, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca, Fernando Sabino, Carlos Heitor Cony, Hilda Hilst, Adélia Prado, Ignácio de Loyola Brandão, Luis Fernando Veríssimo, Monteiro Lobato, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Gregório de Matos Guerra, Ferreira Gullar, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac, Camões, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro, Franz Kafka, Jorge Amado, Gabriel Garcia Márquez, Ligia Fagundes Telles, Fabrício Carpinejar, José Saramago, Fernando Pessoa, eu e tantos outros. Acho que os sonhos estão indo embora da nossa região, pois a única livraria que havia fechou. E não é a primeira vez que isso acontece em Ribeirão Pires. No caso de Rio Grande da Serra, nunca houve uma livraria.
          Mas, apesar da carência de cultura, de arte e educação, ainda vemos pelas ruas alguns lelés da cuca que se misturam a autoridades. A miséria de alma é intensa. Porém também é intensa a disputa de quem sonha em amenizar este estado de quase barbárie. Vemos não sei quem do INSS, o Paulão da Oficina, o Nilson do Mercado, o Vicentinho do Mercado, a Diva do Posto, o Jacaré da Lagoa, o Copina do Trenzinho, o Maranhão do Kiko, o Saulo do Volpi, o Claudinho da Geladeira, a Lair da Apae, o Dedé da Folha, o Albino da Traansvaal, a Léo da Apraespi, O Muraki dos Japoneses, o Arnaldo dos Sapatos, a Inês do Lula, o Volpi do Chocolate, o Lucas da Monte Castelo, o Gerson da Igreja, o Gilvan da Igreja, o Paulinho da Chácara Coração, o Robson da Viola, o Banha do Partido do Dia, o Lelé da Cuca, o Fulano da Ficha Suja, o Fulano da Ficha Limpa, o Dono do Bar e tantos outros que o cidadão comum torce para que sejam eleitos e para o bem comum, alimentem a fome do povo não apenas com pão e circo.  
          Contudo, até então, a nossa região é constituída de bares, muitos bares e nenhuma livraria. A única que havia fechou e quase ninguém viu. É a falência da palavra e da visão. Talvez seja por isso que a saúde pública, a segurança, a educação, o trânsito, o planeta, os preços estão à beira do caos e também quase ninguém vê. Quanto tempo ainda resta? Quanto tempo ainda falta para que se veja que a evolução da espécie passa, necessariamente, por uma formação de qualidade, em especial no que diz respeito à cultura.
          Ainda bem que há um imenso relógio sendo construído com o nosso imenso imposto no meio do Paço Municipal de Ribeirão Pires.

Paulo Franco

   Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº 06 - Junho/2012



AS SACOLINHAS E AS SAÚVAS

          Pagamos pelo menos oito dezenas de impostos para garantir a nossa cidadania e ainda assim somos afrontados o tempo todo por legislações esdrúxulas paridas pela negligência, inoperância e cumplicidade de legisladores que chegam a ganhar até dezoito

do fascismo. E tudo dentro da lei.
          Um exemplo recente desta afronta é a lei que proíbe o uso das “sacolinhas” nos supermercados.  Agora querem nos convencer de que são elas que estão destruindo o planeta. É como se tentassem provar que “as saúvas acabam com o Bra

l” e não os corruptos.  Ora! Em primeiro lugar, a sacolinha já estava paga com o valor embutido no preço dos produtos e nenhuma mercadoria diminuiu de preço por isso. Em segundo lugar, ela era reutilizada para acondicionar o lixo doméstico e, portanto acabava no lixo. Em terceiro, muitos produtos vendidos nos mercados também são acondicionados em recipientes de plástico.  Voltaremos então ao tempo do “a granel”? E os automóveis que são despejados na rua todos os dias e que também usam plástico em tonelada?   Será que a sacolinha é pior para o planeta do que é e mais ainda será em longo prazo o pré-sal?
          Mas tudo isso é pouco quando se trata de uma lei bizarra.  Onde foram parar as outras leis que garantem a higiene dos produtos para proteger a saúde da população? Para uma família de baixa renda que não tem dinheiro para ficar alimentando a máfia das sacolas biodegradáveis, os produtos adquiridos com suor são jogados nos carrinhos sujos e enferrujados como se fossem lavagem para um povo que silencia para tudo por temor à lei. Isso quando não se coloca, por exemplo, carne em caixa que acondicionava sabão, detergente, inseticida.         
          Porém, dirão ainda os incautos que este texto não é ecologicamente correto porque defende que as sacolinhas acabem com o planeta. Triste fim de Policarpo Quaresma! Nem as saúvas acabaram com o Brasil, nem as sacolinhas acabarão com o planeta. Respeito o idealismo dos apaixonados pelas questões ecológicas, ainda que, às vezes, em detrimento das necessidades do cidadão. E para demonstrar, afirmo que todos os argumentos elencados acima são meras falácias. O óbvio que já foi dito. O lado mais esdrúxulo da lei é, sem dúvida, que, inclusive os ecologistas de plantão, esqueceram de que a questão do lixo passa por uma coleta seletiva de qualidade nos municípios. Mas isso exige luta por parte dos idealistas, compromisso e trabalho por parte das autoridades e fiscalização por parte da população.
          Parece que no Brasil é bem mais fácil, em decorrência do silêncio e da aceitação coletiva, fazer política pública com leis inócuas do que com atitude e com medidas administrativas eficazes. Percebam que os mesmos caminhões que já fazem a coleta desordenada (que nós também pagamos no meio dos mais de oitenta impostos), poderiam, desde que houvesse vontade política, estabelecer um calendário para a coleta de cada tipo de lixo separadamente e com destinação específica. 
          Entretanto tudo isso é um sonho absolutamente utópico, pelo menos enquanto a população não tiver cultura para entender qual foi realmente o triste fim de Policarpo Quaresma. 

Paulo Franco   


Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº 05 - Abril/2012


A MÃO PODRE DO ESTADO E A BARBÁRIE

          Teoricamente o Estado existe para conter a insaciabilidade dos individualismos sobre as necessidades do coletivo. Sem a mão do Estado, possivelmente o homem voltaria à barbárie, embora não se saiba ao certo se em algum momento da história ele já tenha saído plenamente dela.  As corrupções, os latifúndios, os tiranos dos lares e dos países, as alienações, as ignorâncias (mesmo em época de internet), as crianças em trabalho escravo, chacinas, salário mínimo, o carnaval, são alguns dos muitos sinais de que a barbárie continua presente e absolutamente globalizada neste momento de novo neoliberalismo.
          Entretanto há sempre uma nova bandeira em mastro velho tremulando a ideia de um modelo de Estado mais eficiente que contenha a nossa involução. E todos têm a alternativa para solucionar o caos que o capitalismo insiste em instalar com discursos socializantes. É como se a Revolução Francesa não terminasse nunca. A Igualdade, a Liberdade e a Fraternidade são os velhos jargões dos que querem o poder para ampliar a desigualdade ou mantê-la sobre controle, acabar com a liberdade do homem e quebrar as fronteiras para o comércio e para a produção, visando desqualificar a cada dia mais a mão-de-obra sempre desvalorizada. E a Fraternidade, é claro, sem a igualdade e sem a liberdade, não há. Inimaginável um Estado fraternal enquanto os Partidos, as Igrejas e os Sindicatos se fizerem necessários!
          E assim, a mão podre do Estado está sempre a retalhar os sonhos dos homens. E geralmente com discurso de boa fé, de boa vontade, de esperança, de paz, de redução das desigualdades, de moralização, de boa saúde, boa educação. Contudo, quase sempre, a cada ato mais um passo é executado rumo ao sucateamento das funções estatais.
          E os exemplos estão sempre muito próximos a nós em relação à mão podre do Estado. Em nossa região, por exemplo. temos Câmaras Municipais com uma quantidade absurda de vereadores (cargo que nem mesmo precisaria ter salário, considerando o que fazem – ou não fazem), além de assessores, automóveis individuais e outros gastos, e em contrapartida há hospitais sem o número mínimo necessário de médicos e enfermeiros e escolas funcionando em condições precárias. Um exemplo recente desta mão podre do Estado é o que aconteceu com os Centros Estaduais de Educação de Jovens e Adultos – CEEJAs – que funcionavam bem, mas tiveram uma drástica redução na quantidade de professores (apenas 15 para atender quase 1.500 alunos) e hoje estão funcionando apenas parcialmente. E o interessante é que a redução na quantidade de docentes foi para conter gastos. Que matemática esdrúxula! Menos dez professores, mais seis vereadores é igual à barbárie!  
          E neste mesmo momento histórico, a gente vê pela TV que alguns homens lutam por escolas de samba e matam e morrem pelo futebol. É homérico! É bizarro! A alienação gera um tipo de reação inofensiva para o Estado. A educação de qualidade geraria, com certeza, um outro tipo de contravenção.
          O fato é que, nas últimas décadas, onde o Estado põe a mão ele estraga: sucateia, terceiriza, privatiza. Seria para se desfazer de suas funções? Mas qual a utilidade de um Estado sem papel? Gerenciar a barbárie?

Paulo Franco


           Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº 04 - Março/2012



CRÔNICA DO AMOR E DA FELICIDADE

          É interessante o quanto a busca pelo amor perfeito está atrelada à conquista da felicidade e vice-versa, como se esses vocábulos representassem uma divinal comunhão. Entretanto, de tão abstratos que são, os dois substantivos esbarram no antagonismo. Em comum têm apenas o fato de que para ambos não há receita pronta.
          Há, por exemplo, aqueles que são felizes com pouco ou quase nada e há outros que são suicidas em potencial mesmo quando têm quase tudo em abundância.
          No caso do amor, muitas vezes, o par que aos olhos dos outros seria o perfeito, a nós não causa emoção alguma. E pior que isto, em algumas situações amamos o absurdo, o improvável, o distante, o traste.
          As buscas pelo amor e pela felicidade, aparentemente, representam uma espécie de termômetro de nossa própria evolução. Afinal, temos uma tendência para depositar a nossa possibilidade de felicidade nas coisas e nos outros e não entendemos que as coisas são passageiras e muito mais efêmeras ainda são as nossas emoções ao tê-las, já que duram apenas o tempo de consegui-las. Depois vamos querer outras. Assim, numa constância milenar, reinventamos a ambição decorrente da nossa insaciabilidade. Em seguida, corremos o risco de transformá-la em busca pela fama, pelo poder, pela supremacia sobre o outro que pode ser alguém ou uma pátria.
          No caso do amor, ele também é depositado, quase que patologicamente, no outro, até mesmo quando não conseguimos amar o que somos e nem entender que o amor pelo outro jamais será eterno. Não vemos que a satisfação emocional não é e não pode representar uma mera transferência definitiva de expectativa.  Na maioria das vezes o amor acaba em negócio, com papel passado e testemunhas em solenidades civis e religiosas que estabelecem o extermínio das buscas, o que fatalmente contraria a natureza da espécie humana que passa a lutar para conter os sonhos que continuam aflorando à revelia da vontade. É possível que a nossa sociedade ainda não tenha entendido que o casamento deve ser uma opção e não uma obrigatoriedade.
          Assim, a busca pela felicidade divorciada da busca pelo pleno amor próprio estabelece a sua face mais cruel. Ela vira aquisição de coisas para suprir o vazio social e tentar conter a dor da existência. O sistema, é claro, agradece e se empanturra de comercializar bugigangas desnecessárias que não preenchem o ser, mas alimentam a sociedade de consumo, insaciável, fria e voraz.

Paulo Franco

Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº 03 - Fevereiro/2012


OS BIZARROS NÚMEROS DA DEMOCRACIA

     Por entendermos que as ditaduras são deploráveis, acabamos aceitando silenciosamente que a democracia arraste números bizarros também de forma quase que ditatorial. Vamos tomar como exemplo o fato de que grande parte das cidades do país não possui a maioria das especialidades médicas em pleno século XXI, assim como as escolas não têm psicólogos, assistentes sociais, dentistas, seguranças e consequentemente viram depósitos de crianças com professores mal remunerados assumindo as funções destes profissionais e disfarçando um caos que coloca em risco a vida e a formação destas crianças, as suas próprias vidas e, por extensão, a saúde da pátria. Em contrapartida, não há, com certeza, falta de vereadores em nenhum dos 5564 municípios da nação. Sem contar que os salários destes algozes da democracia  são sempre bem mais opulentos do que a parca remuneração de sobrevivência daqueles que de fato trabalham em prol do cidadão e/ou da cidadania. Mas o aspecto ainda mais bizarro é que não satisfeitos e cientes da impunidade, já que têm a imunidade por simbolizarem a democracia representativa,  estão aumentando a quantidade de parlamentares em quase todas as câmaras do país, em alguns casos até dobrando a quantidade daquilo que já era número grande demais se considerarmos o que não produzem.  Tomando por base a cidade de Erechim/RS que subiu de 10 vereadores para 17, chegamos em um número rápido de meio milhão de reais a mais para os cofres do lugarejo. Se colocarem dois assessores cada um, mais os custos de manutenção, chegamos ao absurdo valor de um milhão de reais ao ano.
     Pois bem. Não sei quantos moradores de rua existem em Erechim, mas sei que qualquer criança que saiba fazer as operações básicas saberá dizer que com um milhão para este fim, Erechim chegaria perto da solução deste problema. Porém lá os moradores de rua continuarão resistindo, até pelo menos o próximo inverno.
      E o mais triste de tudo isso é que apesar das câmaras municipais já terem criado mais de 7.000 novos cargos de vereadores, ainda há quem acredite que este problema só exista em Erechim.
     Deve ser por isso que o bom mesmo seja viver por aqui.

Prof. Paulo Franco

Texto Publicado na Revista Mais Conteúdo - Edição nº 02 - Novembro/2011




A CULPA DO PROFESSOR
          
            Salvo algumas ingerências, a escola pública está bela. Ela nunca esteve tão bem equipada. Pelo menos em São Paulo. Os prédios estão bem pintados, há estoque de tinta até em excesso. Há merenda para matar a insaciável fome dos que dependem dos assistencialismos desde a época do populismo do Getúlio. Vagas a escola também tem. É! A escola pública está uma graça. Agora tem até verba de embelezamento. O mobiliário é novo e há até falta de espaço para depositar tantas mesas, cadeiras, armários e outras bugigangas  que chegam em abundância.   Até computador filho de pobre já conhece. Livro, então, é o que mais tem. Vem de todo lado. Logística estranha! O governo federal envia toneladas de livros de ótimas editoras, material de primeira. E é tanto livro que o aluno não consegue carregar. Mesmo assim, não satisfeito, o governo estadual ainda manda imprimir cartilhas em tamanha quantidade que acabam empilhadas pelos corredores e porões do sistema. Material realmente não falta. O que significa que dinheiro não falta. Mas com tanto investimento, por que não funciona? Por que o país que não aceita ser vice no futebol, é, em silêncio, apenas o 53º colocado no Programa Internacional de Avaliação de Alunos, ficando abaixo da média mundial em leitura, matemática e ciência?
          “Vejas” e “Folhas”,  pedagogistas de plantão, alguns dirigentes, supervisores e diretores, que não suportariam mais a sala de aula por uma semana, insistem que a culpa é do professor. Mas qual seria essa culpa? Estar em extinção já que todos estão fugindo da sala de aula? Os professores que ainda existem, em sua maioria, estão doentes e sem capacidade de reação. Talvez esta seja a grande culpa. Agora os jovens não procuram mais a profissão. As Faculdades do setor estão fechando.  A Educação está morrendo e ninguém percebe, talvez porque a escola esteja bela, pelo menos aos olhos de uma sociedade que não enxerga o que vê. 

Prof. Paulo Franco

Texto publicado na REVISTA MAIS CONTEÚDO - Edição nº 01 - Setembro/2011 




MATÉRIA SOBRE RENÚNCIA:
http://jornalmaisnoticias.com.br/ha-oito-anos-vereador-renunciava-em-rio-grande-da-serra/


CARTA AOS DIRETORES


          A escola pública passa por uma crise bizarra. Recebe sapatos de ouro quando não possui os pés. A maioria das escolas não consegue caminhar e nós somos as muletas. Muletas mórbidas que já não sabem ao certo se existem. Cumprimos uma sobrecarga brutal de tarefas e ainda somos acusados de NEGLIGENTES PEDAGÓGICOS. Somos o vigia da escola e não conseguimos cuidar da nossa própria vida. Somos inspetores ( e só esta tarefa, nos dias atuais, já é sobre-humana ), e não vemos nossos filhos. Somos o escriturário e não conseguimos mais escriturar nossas contas. Somos o secretário, e meu Deus, quem irá nos secretariar em meio a este colapso ?
          Tudo isto, sem contar que somos assistente social, psicólogo, psiquiatra, merendeiros e Office-boys das DEs. Em uma única frase, SOMOS OS DISFARÇADORES DO CAOS. Conseqüentemente somos acusados de quase tudo por todos os lados.
          Cometemos, contudo, pelo menos dois crimes inafiançáveis: o primeiro é que não conseguimos ser pedagogos e o segundo é que acabamos sendo CÚMPLICES DESTE ESTADO DE CALAMIDADE, digno de alarmar a ONU.
          Nós não estamos percebendo que os furos desta peneira são infinitos e propositais. O próprio governo assume que está eliminando o inspetor de alunos e demais funcionários. Por mais funções que cumpramos, continuaremos sendo atacados pelo sistema. O nosso salário nunca esteve tão amarrotado. Praticamente não há mais diferença entre o salário do professor e do diretor. Considerando nossa jornada maior, não há diferença nenhuma. 
          E continuaremos sendo acusados pelas autoridades, de “omissos pedagógicos”; pelos pais, de culpados pela má qualidade da U.E.; por parte dos professores, de ditadores, de desaparecidos ( só vivemos em reunião da DE ) ou coisa pior; e por Deus, por não gritarmos ao mundo em busca de um SOCORRO que é emergencial.
          A escola pública está morrendo e nossa saúde já não é das melhores. Alguns diretores estão doentes e a gente continua esperando a REDE que nos convidará para mais um velório que pedagogicamente nos ensinará que silenciamos demais.
          Nós, diretores, ainda não percebemos que somos parte do executivo da demolição do sistema. Executamos as ordens como CARRASCOS CEGOS que não sentem os que matam por não verem a arma que manejam. Temos acatado quase tudo. Fechamos classes, demitimos professores, superlotamos as salas. Tudo isso sem nenhuma autoridade pedagógica ou disciplinar. No máximo discutimos em sala fechada diante da orelha do Dirigente, supervisores e assessoria. Este esbravejar apenas nos desgasta e desgastados somos acusados de loucos ou esquerdistas, até que nada que façamos faça sentido, inclusive a nós mesmos.
          Com esta atitude cometemos mais dois erros: o primeiro é que todos os crimes que vemos não chegam aos pais, professores, alunos e imprensa. O segundo é que os “desabafos” nas reuniões já estão previstos pelo sistema como “válvulas de escape” para a pressão não atingir o governo. A D.E. é o ladrão da represa.
          Enquanto isso, para cada reivindicação que fazemos (merenda, solicitação de funcionário ou reforma da U.E., por exemplo), o Sr. Dirigente nos diz com a serenidade costumeira dos detentores de cargos de confiança: “Isto não depende de mim.” – E nós voltamos cabisbaixos ao nosso campo de concentração, como se NÃO HAVER NINGUÉM que resolva o abandono criminoso em que a escola se encontra, FOSSE NORMAL. E na ausência de responsáveis o diretor acaba como CULPADO.
          E para acabar de vez com a nossa dignidade, somos indiretamente chamados de ladrões, via embratel. Este governo é hipócrita. Mostra uma escola mágica aos pais, pela TV, e nos enclausura sem gente dentro da U.E. que agora possui tecnologia sem ter onde instalar ou quem possa manejá-la. Nós precisamos primeiro é de gente. Gente, este material barato que sempre tocou as escolas do planeta, mesmo quando as grandes tecnologias ainda não existiam. Este mesmo material que está aí, na rua, implorando emprego. E precisamos que os alunos e professores tenham condições dignas de trabalho: salas com 20 alunos e salários minimamente compatíveis com o desgaste da função.
          Senhores, devemos dar um basta. Não podemos mais aceitar tanta humilhação e descaso. Nestas condições o nosso cargo nem vale tanto a pena. Temos que usar a nossa função, a nossa formação e o nosso poder de inserção social para gerar ações concretas, resultados práticos para a escola, para a sociedade, para nossas vidas e para a nossa profissão.

Prof. Paulo Franco
Ex-diretor de diversas escolas 

Este texto foi publicado em jornais e no Boletim informativo nº 2 da UDEMO em Abril de 1996.
SERÁ QUE ELE ENVELHECEU OU CONTINUAMOS DISFARÇADORES DO CAOS ?


Prêmio Destaque 1998 - Categoria Diretor de Escola






200 DIAS LETIVOS: A DITADURA DO TEMPO

     Dentre as tantas hipocrisias que adornam o atual modelo de educação, a obrigatoriedade do cumprimento dos 200 dias letivos é, possivelmente, uma das mais nocivas e criminosas para um processo de formação de qualidade. Para entendermos com a devida precisão, precisaríamos imaginar uma linha de produção onde, apesar de estar apresentando defeitos inutilizadores em suas peças, fosse impossível parar o processo de fabricação para sanar o foco gerador dos problemas.
     Comodamente, como em outros temas polêmicos em nossa sociedade, silenciamos em bloco. O calendário de 200 dias não permite tempo qualitativo para reuniões de pais e os pais silenciam. Não permite reuniões verdadeiramente pedagógicas e os professores silenciam. Não permite que a escola, como um todo, se organize e os diretores silenciam. Não permite um contato efetivo entre as partes envolvidas nos esboços de projetos e a supervisão silencia. Não permite que a nossa linha de produção produza cidadania com atuação plena dos conselhos de escola, APM, grêmio estudantil e convenientemente o governo silencia.
     E escravizados pela ditadura do tempo, muitos diretores escandalosamente burlam as leis (com boa intenção) e inventam atas de reuniões que nunca existiram, conselhos de classe sem professores e alunos, balanços financeiros daquilo que ninguém viu e grêmios que só existem no papel. Enquanto isso os pares executam um silêncio cúmplice assinando a legalização do nada e os supervisores fazem pose de mal, disfarçando suas ineficácias e determinando o cumprimento de horários fantasmas até o final de dezembro, mesmo cientes de que os alunos, aprendizes da transgressão, já não comparecem desde novembro.
     E aí vivenciamos aberrações como formaturas executadas antes de conselhos de classe, recursos de alunos retidos que acabam aprovados porque a escola não tem sustentação jurídica e para adornar esta panacéia vemos avaliações finais forjadas pelo próprio governo que vincula o parecer sobre a qualidade pedagógica apresentada pela escola aos critérios que serão levados em conta para o momento de se ratear o bônus mérito, qual um suborno governamental, como se fundamental fosse o nosso endosso para o mundo ver uma escola de qualidade total inexistente. E o pior é que encurralados pela miséria profissional, financeira e sindical, endossamos.
     Não sei se de fato o vocábulo hipocrisia é suficientemente capaz de representar esta pantomima.

Prof. Paulo Franco


         A ESCOLA DOS SONHOS 

          Em 2003 o governo do Estado de São Paulo determinou que as comunidades escolares deveriam debater e propor “A Escola dos Sonhos”. Democrático, porém demagógico. Afinal, alunos, professores e pais sabem qual é a escola ideal: é um lugar aonde o aluno aprende e o professor ensina e vice-verso. Contudo, para que isto ocorra (e o governo sempre soube disto) a escola dos sonhos deve ter classes com 20 alunos e o professor deve ter uma jornada de trabalho dentro do que estabelece a Organização Mundial de Saúde e ser bem remunerado. Nestas condições até a “progressão continuada” seria possível. Caso contrário, vira escandalosamente a “aprovação automática” que está formando analfabetos e adoecendo professores (ler textos científicos sobre a Síndrome de Burnout). Aliás, e educação está doente com tantas falácias e pedagogismos. Normalmente quem tem teorizado sobre escola está bem longe dela. E quando as teorias falham, chamam a comunidade, que paga os seus impostos, para amenizar o caos com populismo barato. Ninguém chama o povo para medicar pelo médico, para arquitetar para o arquiteto. Por que a população tem que resolver o problema da educação ? Até as crianças sabem que nada substitui o saber. E para que ele flua é preciso paz, estrutura e disciplina. É preciso humanizar a escola. O aluno tem sido tratado como um número, como um tijolo na parede, como gado em classes superlotadas. À pedagogia compete facilitar a transmissão do saber.  Não cabe a ela resolver as mazelas de uma sociedade apodrecida por corrupções, falácias, violências, patologias e etc.
          Senhoras autoridades, dêem para a escola as condições que ela precisa e ela fará a sua parte, como  sempre fez. Assim ela será a escola dos sonhos de todos os alunos, pais e professores.  O resto é com a polícia, com o médico, com a assistência social. O educador não agüenta mais continuar sendo visto como o carcereiro de uma sociedade libertina, vitimada pela ausência de medidas que a educação e a humanidade tanto necessitam.

Prof. Paulo Franco

Texto publicado no jornal Diário do Grande ABC em 02/04/03

TESE COMPROVADA PELO TEMPO. A Escola dos sonhos ainda não aconteceu. As salas continuam superlotadas e os professores continuam adoecendo. Aliás, o volume de readaptados e inválidos emocionais é imenso.


O DUALISMO ENRUSTIDO NA EDUCAÇÃO CONSTRUTIVISTA: CONSTATAÇÕES E CRÍTICAS  NECESSÁRIAS

Trabalho de Conclusão de Curso   (Monografia) apresentado como exigência parcial para aprovação na Especialização em Formação de Educadores para o Ensino Superior da Universidade Paulista no Sistema Presencial Interativo, sob orientação do Prof. Joenilton Santana

UNIVERSIDADE PAULISTA- UNIP

SÃO PAULO
2010
PAULO FRANCO

RESUMO
            Esta monografia desenvolve a concepção de que o construtivismo possui forte elo com o neoliberalismo, representando a manutenção do status quo, ou seja, a permanência de um modelo de sociedade dualista e de uma educação que re­presenta este modelo social sendo, portanto, também dualista. O construtivismo mascara a realidade desigual na qual vivemos e é mais um modelo pedagógico que apesar de sua aparência democrática e científica, está, na verdade, assentado em bases pseudo-ci­entíficas ou cientificistas que se limita ao campo da falácia, sendo vendedor de uma imagem modernizante e com pretensões de fornecer educação de qualidade para to­dos, defendendo o princípio de que todos podem construir conhecimentos, porém, somente alguns indivíduos dentre o conjunto destes “todos” conseguem efetivamente aprender e se desenvolver integralmente como verdadeiros cidadãos. Percebe-se que pela liga­ção com o Neoliberalismo e pela manutenção desta sociedade capitalista e classista, tal modelo não aspira à transformação social e muito menos à formação de seres críti­cos e capazes de alterar positivamente os caminhos do mundo. Para tanto, discutem-se as principais falácias ou motes construtivistas tais como: “o aprender a aprender”, “a pedagogia das competências”, a alfabetização construtivista e o esvaziamento do currí­culo que a nosso ver representam toda a negatividade de uma teoria que se enruste de pretensões salvacionistas, mas esconde uma realidade educacional que está muito longe da perfeição.

Palavras-chave: Educação, Construtivismo, Neoliberalismo.

ABSTRACT
            This paper seeks to develop the idea that constructivism has strong link with the new liberalism, representing maintaining status quo, the persistence of a dualistic model of society and a school that represents this social model, and thus dualistic. Construtivism masks the unequal reality in which we live and it is a pedagogical model which, despistes  its appearance is scientific  and  democratic, in fact, grounded  on a scientific advancement or  pseudocientism  which  is  limited  to the field of  fallacy  and  despite the  sale of a modernizing to the field of fallacy and despite the sale of a modernizing image and meet the demands of quality education for of to arguing that everyone can build knowledge, however, only a few individuals within the set of "all" can effectively learn and develop themselves fully as real citizens. We can see that the leaguetion with Neoliberalism and the maintenance of capitalist society and class that the model does not aspire to social and even less training in human critics and able to positively change the ways of the world. To this end, we discuss here the main fallacies or constructivist slogans such as: “learning to learn”, “teaching skills”, literacy and constructivist curriculum as emptying that we believe represents all the negativity of a theory that "closeted" of claims Salvationists but hides a reality that education is far from the perfection.  

Keywords: Education, Constructivism, Neoliberalism.

1 INTRODUÇÃO

          Esta Monografia desenvolve a concepção de que o dualismo social permanece enrustido nas teorias e práticas construtivistas, visto que vivemos em uma sociedade dividida em classes e portanto há a impossibilidade de existir uma escola única e neutra, já que as camadas sociais segregadas à miséria são vitimadas não apenas pela divisão desigual dos bens materiais e renda, mas sobretudo pelas desigualdades culturais. Neste sentido, o construtivismo acaba se colocando mais como um programa compensatório, como se a educação estivesse a serviço da assistência social e menos do que em nome da transformação social. Considerando que conhecimento e desenvolvimento são resultados de um processo de construção, ele deve se pautar num conjunto de propostas de ensino que levem ao desenvolvimento global do educando, dando-lhe condições de construir os saberes em contato com seu grupo e tendo o professor como mediador deste processo de interação, porém, há que se analisar em primeiro lugar que a escola tem a função de reprodução de conhecimentos acumulados historicamente e é a reprodutora do modelo social vigente ao longo da história já que ela transporta para dentro de si os interesses da sociedade vigente, os valores morais, econômicos e políticos que regem um determinado local e momento histórico. Como a sociedade é marcadamente dividida em duas classes sociais antagônicas, daí se conclui que o modelo construtivista é mais um modelo tanto de reprodução quanto de manutenção do status quo, funcionando como preparador da nova mão-de-obra exigida atualmente tanto para o sistema capitalista quanto para a novíssima sociedade da informação que tem como motes, os “aprender a ser, a fazer, aprender a aprender”, daí derivando práticas de ensino que visam modelar no educando habilidades e competências tais quais a capacidade de resolver problemas, de ser flexível, e que tem como objetivo final a formação de um profissional que seja múltiplo e que atenda à demanda atual de trabalho e produção de capital . O dualismo do construtivismo se apresenta ainda mais cruel e a serviço dos interesses da classe social dominante quando defende que se deve partir dos conhecimentos que o aluno já possui e a partir deles construir novos conhecimentos. Há que se analisar com cuidado esta questão já que dois sujeitos de diferentes níveis sociais e culturais partindo de níveis diferenciados de conhecimento e de cultura dificilmente chegarão ao mesmo nível de excelência ao final do processo de ensino e aprendizagem. Este problema perpassa pela questão da equidade, já que é notório que filhos de classes abastadas carregam muitos dos conhecimentos valorizados pela humanidade, tendo desde crianças contato com uma ampla gama de informações e tendo todas as condições de se aculturar desde o berço dentro dos padrões mais elitistas da cultura. Já o oposto disto ocorre com os sujeitos vindos das classes baixas cujo repertório cultural é ínfimo ou, se limita à riqueza de seu meio, de sua própria origem que é sabido por todos não é uma cultura ou um conhecimento relevante à competição pelo mercado de trabalho. Quando se defende que a atual sociedade da informação é democrática e que as informações estão a serviço de todos e que os conhecimentos devem ser valorizados deve-se ter clareza de que longe desta democratização está ocorrendo um verdadeiro processo de segregação informal, com os verdadeiros tesouros da ciência e da tecnologia, da arte e da filosofia sendo retirados dos círculos dos menos abastados já que se tem observado um esvaziamento dos currículos e dos conteúdos, além de uma menor participação do professor que deixa de ser o transmissor de conhecimentos relevantes e passa a ser mero agente mediador do processo. Conclui-se, portanto que tal modelo de ensino mascara a sociedade da exclusão na qual vivemos baseando-se no pressuposto de que “escola única é ilusão”.

 1.1 Justificativa

            Este estudo monográfico justifica-se inicialmente pela necessidade de refletir que se o modelo construtivista está amplamente disseminado nos discursos oficiais, deriva-se de que ele não possua nenhuma pretensão emancipadora ou transformadora da realidade social, nem há interesse de que as desigualdades sociais se eliminem e que os bens culturais acumulados por gerações sejam compartilhados por todos os atores sociais com vistas à construção de uma sociedade verdadeiramente justa e democrática. Entendendo ainda que a educação na modernidade caracteriza-se pelo seu propalado rebaixamento de qualidade em contraposição ao oferecimento universal a grandes contingentes populacionais, o grande dilema que se coloca é: Que tipo de formação deve se oferecer ao jovem? Deve-se privilegiar a formação de um indivíduo de forma plena ou prepará-lo para o momento atual no qual ele deve saber de todas as coisas, porém, de forma rápida e superficial para que se conforme ao plano social vigente e que seja uma mão-de-obra adequada ao atual modelo de produção capitalista?
           Nesta esfera do papel da educação para a formação do ser humano precisamos questionar que tipo de conteúdos se quer transmitir? Se tomarmos como referências para a definição dos conteúdos, as formas mais desenvolvidas de cultura e conhecimento, os conteúdos, os métodos de ensino e toda a organização do sistema educacional (em todos os níveis, não somente no Ensino Superior) deverá se voltar para a reprodução da riqueza universal do gênero humano e é este papel que a educação da atualidade não vem cumprindo, pelo contrário, estamos bem distantes desta perspectiva.
          Esta monografia justifica-se ainda, pela necessidade de desmontar o paradigma dos motes tais quais: “a pedagogia das competências”, “a pedagogia dos projetos”, entre outros, além do propalado “aprender a aprender” que elimina a importância da transmissão de conhecimentos objetivos em detrimento do processo de construção em si. Tal visão deve ser combatida em virtude de uma alarmante precarização e rebaixamento da qualidade do ensino ofertado nas escolas e instituições de ensino superior deste país, num disfarce horroroso que tem servido apenas para mal preparar um enorme contingente de indivíduos para a empregabilidade em um âmbito profissionalizante superficial e vazio de conteúdos mais sistemáticos que servem para dar um suporte de formação que garanta o exercício pleno da cidadania e plena condição de competição no mercado, sem prejuízos tais como a exclusão e o dualismo cruel que divide os seres humanos em lideranças e capachos sociais; em grupos bem preparados e com melhores postos e outros que ficam com as piores e mais desqualificadas funções. Sem esta equalização seguramente não se conseguirá destruir a escola dualista.

1.2  Fundamentos (Objetivos gerais e específicos)

           Os objetivos e concepções teóricas que fundamentam este texto são:
·                    Realizar uma revisão teórica de alguns dos motes do construtivismo, tais quais: “o aprender a aprender”, a “pedagogia das competências”, “dos projetos”, “o professor mediador”, teorias que balizam o atual modelo de educação presente no Sistema Educacional brasileiro em todos os seus níveis: Do básico ao superior, visando desvendar processos de sedução e alienação presentes neste ideário;
·         Revelar a forma retórica e ideológica pela qual tal ideário constrói sua imagem no meio educacional e difunde determinadas categorias valorativas que o aproximam do universo ideológico contemporâneo, tornando-o assim, um discurso filosófico, psicológico e pedagógico fortemente envolvente;
·         Analisar e apontar as razões da vulnerabilidade dos indivíduos a determinados processos de sedução, desvendando os processos de alienação presentes na difusão deste ideário, demonstrando que o modelo teórico construtivista se configura mais por ter um caráter retórico e ideológico que faz com que permaneça inalterada a desigualdade de condições e oportunidades e que permaneça a mesma estrutura desigual na distribuição dos bens culturais e por conseqüência a desigual disputa no mercado de trabalho;
·         Estabelecer a forte conexão entre o construtivismo e o neoliberalismo, apontando a forma como o construtivismo está a serviço dos interesses do capital ao propor uma educação fragmentária e individual bem característica deste modelo econômico e político de sociedade que vivemos na atualidade;
·         Demonstrar de que forma o construtivismo se apropriou de conceitos progressistas, de teorias e modelos pedagógicos do passado, montando de forma precisa e cirúrgica um arcabouço ideológico que envolve e confunde os profissionais da educação de forma a enrustir em seu bojo, intenções maléficas, excludentes e classistas de divisão social proposta pelo neoliberalismo em educação, que continua mascarando quem é educado para dominar e quem é educado para ser dominado.

1.3  Metodologia

            Esta monografia segue os pressupostos da Pedagogia Marxista e da Histórica-crítica, para balizar suas concepções teóricas sendo que o estudo se realizará por meio de pesquisa bibliográfica e institucional.

  1.4  Apresentação dos capítulos

No primeiro capítulo discutimos a apropriação pelo construtivismo das diversas teorias pedagógicas construídas ao longo da história para a defesa dos interesses neoliberais, desde sua conexão com a Escola Nova até o uso e a deturpação que foi feita à teoria vigotskyana. Discuti-se também, a definição de escola dualista, expressão que define a divisão social e escolar, dentro do campo das pedagogias críticas-reprodutivistas. Descrevemos as relações de poder dentro do que se conhece como “sociedades de controle”, expressão foucaltiana, situando o construtivismo como exercendo este papel de controle, porém, enrustido numa forma progressista e pseudo-democrática altamente envolvente e sedutora.
 No segundo capítulo analisamos e fazemos uma crítica à forma como ocorreu a disseminação do construtivismo nos discursos oficiais e as políticas públicas para a educação básica no Estado de São Paulo e no Brasil através do estudo de publicações institucionais, além de uma análise da situação do ensino dentro do contexto construtivista neste cenário de globalização e de novos paradigmas de construção de conhecimentos.
              No terceiro capítulo apresentamos uma visão geral do ensino superior no Brasil e as consequências negativas de sua adesão ao construtivismo, partindo do contexto histórico atual no qual se inserem as Instituições de Ensino Superior, qual seu papel e analisamos as consequências negativas do esvaziamento dos currículos que tem gerado uma crescente queda na qualidade do ensino ofertado aos jovens universitários.
            No quarto capítulo apontamos onde se enruste o dualismo construtivista demonstrando as conexões existentes entre o construtivismo e o neoliberalismo, sendo que este dita as regras da política educacional num contexto de crise econômica e de desemprego global.                        
  No quinto capítulo, elencamos as conseqüências negativas do modelo construtivista neoliberal, primeiramente fazendo críticas aos seus motes principais, que são as diretrizes ou os princípios valorativos que compõem o cenário educacional atual e que comprovadamente representam uma armadilha que enreda e ilude toda uma sociedade vitimada pela desigualdade e pela exclusão. Para finalizar apontamos uma alternativa a este estado de coisas defendendo a implantação de uma Pedagogia Marxista que supere as desigualdades do capital e do neoliberalismo em educação, com vistas à construção de um modelo de ensino que efetivamente prime pela qualidade e pela equidade, nobre princípio capaz de assegurar a formação de seres humanos íntegros e integrais em contraposição ao fragmentarismo e ao individualismo egoísta característicos deste momento de caos em que vivemos.



2  CONSTRUÇÃO DA DISSIMULAÇÃO: DE QUE FORMA O CONSTRUTIVISMO SE APROPRIOU DE TEORIAS DIVERSAS PARA A DEFESA DE INTERESSES NEOLIBERAIS


2.1  Conceitualização e Revisão de literatura


  Dentro do campo das pedagogias críticas-reprodutivistas a educação atua como um instrumento de discriminação social, fator de marginalização e desigualdade. A sociedade é marcada pela divisão entre grupos ou classes sociais an­tagônicas que se relacionam à base da força (violência simbólica), além daquela desi­gualdade mais escancarada que se manifesta nas condições da produção da vida mate­rial dos indivíduos. Dentro desta concepção, o sistema de ensino reforça de modo dissimulado, essas relações de força e poder através de mecanismo de dominação cultural, tendo a ação pedagógica sido exercida como imposição cultural arbitrária dos grupos sociais dominantes aos dominados, os tornando duplamente marginaliza­dos: socialmente, por não possuírem força material, e culturalmente, por não pos­suírem força simbólica. A escola é vista por estas teorias como aparelho ideológico do Estado, sendo o instrumento mais acabado e consistente de reprodução das rela­ções de produção do tipo capitalista. Há ainda a teoria da escola dualista de Baudelot e Stablet, segundo os quais, a sociedade e também a escola são divididas em duas grandes redes: A burguesia e o proletariado e seu papel dual é o de contribuir para a formação da força de trabalho e da inculcação da ideologia burguesa além de qualificar o trabalho intelectual e des­qualificar o trabalho manual. Estas ideias caracterizam a educação como dependente da estrutura social, geradora de marginalização e exercendo a função de reforçamento e legitimação desta marginalização com o objetivo único de manutenção do sistema dividido em classes e do domínio do modo de produção Capitalista. Para os autores, a escola, em que pese sua aparência humanitária e unificadora trabalha a serviço da burguesia e dizem ainda que “escola única é ilusão”. Estas teorias crítico-reprodutivistas apesar de não proporem uma alternativa pedagó­gica, demonstram o caráter seletivo da escola.
  Dentro do campo das pedagogias não-críticas, a Pedagogia Nova ou Escola Nova é um exemplo de teoria que visa reforçar os laços sociais, promover a coesão e garantir democraticamente a integração de todos os indivíduos no corpo social sendo, portanto, estritamente conservadora. Ela veio para atacar os pressupostos da pedago­gia tradicional, mudando radicalmente o enfoque educacional, defendendo a inclusão dos rejeitados, defendendo que educar é ajustar os sujeitos à sociedade. Segundo De­merval Saviani, “trata-se de uma teoria pedagógica que considera que o importante não é aprender, mas aprender a aprender” (SAVIANI, 2001). A função da escola seria o estímulo ao aluno, a partir da própria iniciativa deste, tornando-se um ser dinâmico e alegre. Na verdade, sabemos que a proposta escolanovista acabou por rebaixar a qualidade do ensino das classes populares e aprofundou ainda mais o fosso de estratificação social presente na realidade brasileira. Na realidade, esta pequena introdução resumida deve-se ao fato de que não dá para falar em construtivismo sem antes mencionar as origens da Escola Nova, já que a mesma advoga um tratamento diferencial a partir da “descoberta” das diferenças individuais que para tal teoria é essencial, sendo o aluno considerado como foco central, sendo que o conteúdo está em segundo plano, pois se entende que o mais importante é a forma como o saber foi adquirido (processo) e não propriamente o que se aprendeu. Assim, a Escola Nova deslocou

  O eixo da questão pedagógica do intelecto para o sentimento; do aspecto lógico para o psicológico; dos conteúdos cognitivos para os métodos ou pro­cessos pedagógicos; do professor para o aluno; do esforço para o interesse; da disciplina para a espontaneidade; da quantidade para a qualidade; de uma pedagogia de inspiração filosófica centrada na ciência da lógica para uma pedagogia de inspiração experimental baseada principalmente nas contribui­ções da biologia e da psicologia. (SAVIANI, 2001, p.9).


A identificação entre o movimento da Escola Nova e o construtivismo pode ser verificada pelo fato de que ambos centralizam o processo educativo no aluno e, como tal, “no aprender a aprender”. Há nestes dois movimentos um esvaziamento de conteúdos e, portanto, para Newton Duarte (2001) “novidade o construtivismo não trouxe. Apenas retomou, sem explicitar suas origens, aquilo que a Nova Escola havia proposto décadas antes” (DUARTE, 2001, p.59-60).
     É necessário analisar que o movimento construtivista buscou resgatar aspectos positivos das teorias firmadas no cotidiano escolar (as não-críticas), articulando-as no modelo que conhecemos hoje. Assim, resgatou da pedagogia Tradicional a importân­cia da dimensão do saber; da Escola Nova, a dimensão do saber ser e da Tecnicista o saber fazer não trazendo nenhuma novidade, fazendo, no entanto, apropriações com­petentes dos saberes já cristalizados e postulados pelas teorias pedagógicas prece­dentes. Do ponto de vista didático, o pensamento educacional burguês nunca superou a oposição entre a escola Tradicional e a Escola Nova. Esta oposição foi reeditada pelo construtivismo que repetiu a estratégia já usada pelos escolanovistas de apre­sentar a escola tradicional como portadora de todos os vícios e defeitos. Em síntese pode-se dizer então que a aproximação entre construtivismo e escolanovismo se con­firma pela semelhança de suas ideias. Para João Henrique Rossler (2004), o construtivismo em suas raízes piagetianas, centra os esforços nos meios de aprendizagem e não nos fins, en­foca o desenvolvimento de estratégias e marca os elementos de afinação necessários à ordem liberal burguesa. Nas palavras de Jean Piaget (1987, p.225):

O ideal da educação não é aprender o máximo, maximi­zar os resultados, mas antes de tudo aprender a aprender e se desenvolver e continuar a se desenvolver depois da es­cola.  (PIAGET,1987, p. 225).


 Podemos notar ainda que após a queda do modelo de produção dos anos 70, há influência marcante de ideias construtivistas, tomando a educação como forma de organizar a formação de um novo modelo de trabalhador afinado com as novas neces­sidades mercadológicas. Também nesta perspectiva, surgem cursos de formação para professores nos anos 80, com a disseminação de ideologias hegemônicas marcadas pela chegada ao país das propostas educacionais denominadas por Duarte (2000) de “Pedagogias do aprender a aprender”. É neste sentido que há a necessidade de uma análise contextualizada abrangendo não apenas a questão do construtivismo enquanto modelo teórico e suas reais implicações sobre a educação, mas também, se faz neces­sária a busca do esclarecimento das conexões existentes historicamente entre o mundo capitalista do trabalho e a educação. Para Duarte, (2000),

Nossa crítica não pode deixar de estar articu­lada aos movimentos de hoje que res­soam mais fortemente nos modelos pautados no construtivismo, que junto a outros paradigmas educacionais, como também suas novas feições, negam a sociedade de classes, a centralidade do trabalho e a educação neste contexto, assume o papel de grande propagadora ideológica a ser­viço do capital. (DUARTE, 2000, p.107).


  Ainda segundo o mesmo autor, a ênfase na aprendizagem, significa uma valori­zação das atividades cotidianas e que resultam “numa demasiada negação do ensino e do conhecimento historicamente acumulado pela humanidade” (DUARTE, 2000, p.107).
2.2  A Construção do conhecimento e as relações de poder no interior da sociedade e da escola

          Muitos teóricos de educação vêm demonstrando em pesquisas a forma como o construtivismo se apropriou da pedagogia como um discurso científico e o refor­mulou, adaptando este instrumento de poder às necessidades históricas contemporâ­neas. A crítica feita ao construtivismo deriva do fato de que tal modelo defende métodos similares ao tradicional, porém, enrustido debaixo de um verniz moderni­zante de progressão continuada, autoavaliação e espontaneidade do aluno, que infe­lizmente mais os têm prejudicado do que auxiliado, acabando ainda por mascarar me­canismos excludentes de relações de poder tradicionais dentro dos espaços escolares. Estas relações de poder vêm sendo estudadas por pensadores desde o século XIX, tais como os estudos anarquistas de Proudhon e Bakunin, para os quais os conceitos mais elementares de liberdade, solidariedade e autonomia foram da mesma forma apropri­ados pelos construtivistas na construção de sua ideia educacional e esta noção tam­bém é muito similar as da pedagogia tradicional tão criticadas por eles mesmos, pois, ao fazermos um análise destas  relações, podemos perceber um hiato em termos de autonomia, liberdade, prazer em buscar o conhecimento.
             O filósofo francês Michell Foucault (1926/1984), demonstrou em seus estu­dos a forma como os discursos que regulamentam a punição e controle legal sobre os indivíduos sofreram modificações ao longo do tempo gerando uma rede de novas relações sempre baseadas no poder de uns sobre outros e a pedagogia também tem o seu papel controlador específico dentro do que Focault chama de “Sociedades Disci­plinares” (Foucault, 1996), cabendo mencionar que o construtivismo também bebeu nestas fontes ideológicas, permeando o processo de ensino com suas ideias de saber e verdade ou formas de “poder-saber”, que em síntese são representadas pela transfor­mação dos exercícios de poder feitas sob sugestão de “especialistas” por meio da construção das verdades que se quer que os indivíduos acreditem e a forma como se deseja que eles  vivam. Atualmente estas sociedades disciplinares estão sendo subs­tituídas por sociedades de controle, nas quais as práticas de normalização e o confi­namento se misturam à rivalidade, à competição e à avaliação contínua, sendo o pro­cesso e o tempo de execução da produção os elementos principais que estão na ordem do dia. Para Gilles Deleuze (2000), acerca das análises de Foucault,

As atuais relações (...) não são mais marcadas pela disci­plina, mas por controle contínuo e comunicação instantâ­nea (...) o que está sendo implantado, às cegas, são novos tipos de sanções, de educação, de tratamento (...) Pode-se prever que a educação será cada vez menos um meio fe­chado(...) mas desaparecerá em favor de uma terrível for­mação permanente, de um controle contínuo se exercendo sobre o operário-aluno ou o executivo-universitário.(...). (DELEUZE, 2000, p. 215-216).


 Mais uma vez retorna-se o foco ao construtivismo amarrando as suas concep­ções às novas formas de controle social tendo a pedagogia como maneira pela qual “a produção da verdade” é formulada e passada por meio dos conteúdos curriculares, isto é, transmitidos como verdadeiros e universais por instituições a serviço do capi­talismo Neoliberal, controlando não somente os corpos, mas, as mentes dos indiví­duos, sob relações mascaradas e reguladas por meio de motivação, treinamento e par­ticipação. Para Maria Pey (1995):

(...) A escola deixa de ser aquele lugar onde a educação deixa de ter uma história. Não é o lugar onde a pessoa passa certo tempo e acabou. Não. O sujeito vai sendo escolarizado a vida inteira. Ele entra num determinado controlato e não sai nunca mais. (PEY, 1995, p.188).

 Com a aparente desculpa de que este tipo de aula (a construtivista) é a mais liber­tadora das características tradicionais e autoritárias, ela acaba, às vezes se tornando muito mais opressiva, pois o aluno se sente no dever de participar, opinar, em assun­tos que muitas vezes nem são tão interessantes assim, sendo vigiado de perto pelos colegas em práticas tão comuns nas escolas atuais que são marcadas pelo “sócio-inte­racionismo” ou interação grupal, que mais uma vez reforça a ideia do quanto de opressão o construtivismo, enquanto modelo pedagógico, esconde por trás de sua prática, ou seja, é um modelo que supostamente possui práticas libertadoras, mas que não têm nenhum efeito positivo prático garantido.
 Para finalizar é necessário colocar que não há como separar poder de saber e supor que ambos não estejam ligados. Em relação à sociedade de controle, a escola legitima a ordem hierárquica do saber e do mercado de trabalho e à sociedade de con­sumo, elementos estes que acabarão por formar a subjetividade dos alunos, tornando-os disciplinados, enquadrados, burocratizados e formados a partir de modelos curri­culares adaptados a cada “realidade” teórica inventada, ou melhor, de acordo com as teorias mais aceitas pelos “discursos da verdade”, que já citamos anteriormente, e é exatamente neste ponto que colocamos o construtivismo como mais um modelo teó­rico a serviço de todo este constructo de poder e domínio dos indivíduos.

 2.3  A sedução construtivista

 Não dá para negar o forte poder de sedução que tal modelo teórico trouxe ao Brasil a partir dos anos 80. Segundo Rossler (2006) pode ser muito sedutora a ma­neira como um ideário tido como crítico, prescritivo, traz respostas concretas para o dia-a-dia escolar. Uma teoria investida de prestígio científico e não uma mera especulação. O autor coloca que:
                                  
Ideias são geradas, ideias são difundidas, ecoam e, por­tanto, causam impacto. Cria-se toda uma cultura tanto material quanto simbólica, (...) que existe objetivamente posta na realidade. No caso específico do construtivismo no Brasil, ideias foram produzidas, configuradas na forma de um ideário, difundidas por diferentes meios (...) modi­ficando o ambiente da escola ou (...) a “cultura da escola” ou a “cultura do cotidiano escolar. (ROSSLER, 2006, p. 9).  


           Para Martha Lourenço Vieira, houve um endeusamento desta teoria, a tal ponto de podermos notar um tom de perfeição insubstituível e parafraseando a autora, um tom quase “religioso”, seguindo passos similares ao domínio religioso:

No início, a descrença e a resistência; depois as dúvidas, dificuldades e críticas dos que “optaram” pelo mesmo ca­minho; e finalmente a conversão total pela certeza da es­colha - o convertido passa a apregoar e defender os princí­pios que o transformaram. E durante todo o processo, a conquista de adeptos (...), pois é esta conquista que garante a manutenção da doutrina. (...). (VIEIRA, 1998, p. 84).   
 

            Segundo Tomaz Tadeu da Silva (1998), o construtivismo:

Aparece como uma teoria progressista, satisfazendo aos critérios políticos exigidos por pessoas em geral, classifi­cadas como ‘de esquerda’. De outro lado (...) fornece uma direção relativamente clara para a prática pedagógica, além de ter como base uma teoria da aprendizagem e do desenvolvimento humano com forte prestígio científico. (SILVA, 1998, p.136).


           A sedução e o encantamento construtivistas chegam a se utilizar até mesmo das concepções mais anárquicas e libertárias de autonomia e liberdade para a busca do conhecimento, pelo desejo e pelo interesse, porém, segundo críticas feitas por es­tudiosos anarquistas, tal modelo acaba por transformar a educação em experiências didáticas às voltas com apostilas, direcionamentos e parâmetros curriculares burocrá­ticos institucionalizados e hierarquizados que mesmo em face de lindas falácias en­volventes, representam, ainda que de forma enrustida, os ve­lhos mecanismos da educação tradicional. Como nos diz Valerie Walkerdine (1998, p.154) “(...) Não há nenhuma sala de aula que esteja fora da órbita de alguma constelação de aparatos discursivos e administrativos.”
           Faz-se premente incluir na análise da montagem do verdadeiro quebra-ca­beças teórico em que se transformou o construtivismo, as concepções de John Dewey, pensador preocupado com o desenvolvimento geral da sociedade, que pregava a defesa do pragmatismo, no qual a racionalidade é uma ferramenta que deve ser usada em conjunto com as experiências. O pragmatismo conecta teoria e prática, e o pensamento torna-se para Dewey, uma forma de ação. Para ele, ser é fazer e fazer é agir e completa afirmando que “rejeitando os conhecimentos do passado como fim de educação, iremos apenas dar-lhe maior importância como meio de educação.” (DEWEY, 1970, p.23) Ou seja, os conhecimentos consolidados não devem ser o objetivo final do processo educativo, mas sim os meios pelos quais novos conhecimentos serão gerados. Percebe-se aqui a utilização de Dewey, filósofo da educa­ção americano, reconhecidamente defensor de ideias de cunho liberal-progressista e positivista, na montagem do arcabouço teórico construtivista.                  Sabe-se que o marco da introdução das ideias construtivistas foi o advento da epistemologia genética de Jean Piaget, mas, um dos grandes problemas detectados é que Piaget não formulou postulados para se ensinar. A pedagogia se apropriou da epistemologia piagetiana para levar tal modelo às bases da educação, esquecendo-se que a mesma se refere apenas à forma como o conhecimento é produzido e não indica como se deve ensinar para se chegar a esta construção. No entanto, por pura empol­gação, muitos embarcaram nestes princípios que representavam o que havia de mais moderno em ter­mos de pedagogia, pois se encontravam bastante contextualizados ao mundo atual, além de considerar a realidade do aluno e colocar a escola e o professor como mediadores do conhecimento, numa relação entre conhecimento prévio, adquirido na escola e a continuação deste processo após a saída da escola e ao longo de toda a vida.
           São muitos os exemplos de como o processo de endeusamento foi construído e da forma como elementos, ideias e conceitos foram deturpados e assimilados vi­sando o inebriamento dos sentidos. Na obra “Vygótsky Esterilizado”, o psicólogo e mestre em educação Oriomar Skalinski Jr., defende a tese de que  as ideias de Lev Seminióvitch Vygótsky (1896-1934) também foram manipuladas, pois o pensador é um exemplo emblemático do quanto pressupostos podem ser forjados em determi­nado contexto em função de uma nova organização dos modos de produção.  As­sim, algumas teorias educacionais contemporâneas carregadas do espírito neoliberal foram incorporando muitos dos conceitos de Vygótsky ao seu corpo teórico de modo a esvaziá-lo das bases materialistas-históricas sobre as quais foram construídos. Tal pen­sador, é bom que se diga, estava ligado a um projeto de educação socialista, de base marxista, onde o desenvolvimento das funções psicológicas superiores pudesse ser explicado a partir das relações sociais estabelecidas historicamente entre os homens. Sua obra não poderia ser dissociada do contexto da revolução russa, e muito menos ocorrer uma reprodução estéril de suas ideias. Nota-se uma nítida tendência em trans­formar o social mencionado por Vygótsky em uma espécie de categoria genérica que faz referência ao meio do indivíduo, deixando de se contemplar as relações de traba­lho e a estruturação social, deturpando completamente o significado essencial do au­tor. Para Catherine Twomey Fosnot (1998, p. 43):

A ênfase de Vygótsky sobre o aspecto social do conhe­cimento (...) faz sentido a partir do ponto de vista da inte­ração. A cultura e, dentro dela os indivíduos coletivos criam uma dialética que faz com que o indivíduo se equi­libre; porém, reciprocamente, o todo é desequilibrado pe­los indivíduos à medida em que eles constroem seu ambi­ente. Assim, o pensamento individual progride em direção a ideias culturalmente aceitas, mas sempre em uma estru­tura dinâmica capaz de inovação criativa. (FOSNOT,1998, p.43).


2.4  O preço da sedução


 É muito importante uma análise cuidadosa de tudo quanto foi exposto até aqui, pois o que se vê na prática é que se trata de uma falácia ou um engodo mascarado por este ideário que, não cansamos de repetir, tem trazido problemas sérios à atual prática de ensino e aprendizagem no ambiente escolar e nas Instituições de Ensino Superior (IES) uma vez que constatamos que o aluno tem permanecido muito próximo aos seus conhecimentos iniciais e esta propalada educação permanente baseada na construção pelo indivíduo não tem funcionado. É evidente que as causas são múltiplas e variadas passando por um esvaziamento dos currículos e por um forte direcionamento dos mesmos nos últimos anos pelas políti­cas públicas que vem sendo implantadas, (tema que analisaremos mais à frente neste texto), porém, de momento, faz-se necessário apontar mais alguns equívocos que tal ideário vem cometendo, tais quais: o conceito de se aprender com e através do meio e das experiências, pois elas se referem aos alunos e suas trocas, vivências, sentimentos e questionamentos dentro e fora da escola. Na verdade estas experiências têm sido burocratizadas pelas equipes pedagógicas das escolas e IES (reitores, diretores, coordenadores, pro­fessores, etc.), sendo os temas e assuntos previamente discutidos e “acertados”, cabendo ao aluno receber as experiências decididas previamente e não necessariamente as viven­ciadas por eles, numa incorporação de práticas que são re-conceituadas, como o jogo simbólico, por exemplo, e que são transformadas em objeto científico. Em síntese, apesar do forte apelo democrático e até revolucionário do construtivismo, o ensino continua voltado para relações de poder, de hierarquias, de discursos que pouco tem a ver com a realidade dos educandos e quando têm, comete-se o grave erro de, ao modi­ficar estes conhecimentos prévios em cultura sistematizada, não ocorre nenhuma construção de saberes que possam efetivamente colaborar na forma­ção efetiva e eficaz dos indivíduos. Peca-se em alguns casos pelo excesso de burocra­cia e peca-se igualmente pelo espontaneísmo de algumas práticas e pela não consoli­dação dos conhecimentos culturais necessários a uma educação que se pretenda ser de qualidade.  
           Para Walkerdine, (1998, p.154-155), a pedagogia construtivista se caracteriza pelo ato de normalizar e regular a escolarização. O saber que deveria ser o “libertador da ignorância”, (ibdem) torna-se o fator principal desta normalização. Para os educa­dores libertários, este modelo, ao se institucionalizar como “ciência”, perdeu seu ca­ráter renovador e vem perdendo seu poder de sedução e de convencimento de que se trata de uma pedagogia transformadora, demonstrando aquilo que dissemos no início, se tratar efetivamente de uma pedagogia dualista “enrustida” que trabalha a serviço do neoliberalismo e do sistema capitalista.     
            Outro fator que chama nossa atenção diz respeito ao aspecto social da teoria de Vygótsky que acaba reduzido a uma espécie de “relativismo cultural”, em que as pe­culiaridades de cada cultura devem ser consideradas para se entender os indivíduos. Contudo, estas diferenças são naturalizadas, desvinculadas das relações sociais que as constituem. As bases materiais e econômicas que constituem esta realidade não são sequer mencionadas, não fazendo, portanto, menção ao neoliberalismo e suas impli­cações na constituição dos indivíduos e do conhecimento. Conforme Duarte (2001) este é um artifício ideológico constantemente empregado pelas teorias educacionais num repetitivo esforço em caracterizar a psicologia vygotskiana como sendo de cu­nho interacionista ou sócio-interacionista construtivista. É através destas estratégias ideológicas que as teorias filiadas ao “aprender a aprender” vão se sustentando à me­dida que os sujeitos vão se tornando mais individualistas, inativos e pragmatistas em função do atual modo de organização do trabalho que em síntese “têm conduzido os indivíduos ao niilismo e à inatividade política” (Duarte, 2001, p. 40) “numa escalada de fragmentação do social que na verdade é uma demonstração da crise cultural contemporânea” (Ibdem). Assim, quando pesquisadores se aproximam da obra de Vygótsky e retiram os conceitos que lhes interessam de forma cirúrgica e esterilizada, torna-se impossível a compreensão da totalidade de sua obra, utilizando-o com o ob­jeto de uma progressiva deteriorização das relações de trabalho e consequentemente da deteriorização do próprio ambiente escolar no qual ressoam tais ideários, numa tendência relativista e fragmentária da construção do conhecimento que nos leva a confirmar o quanto ideários podem ser manipulados e utilizados ideologicamente quando se tem por objetivo o já mencionado inebriamento dos sentidos dos indiví­duos.
             À parte todo o processo de endeusamento, é urgente que se  reflita que o ato de ensinar deve sempre possibilitar a auto-formação e o desejo da busca do saber, transformando-se todos, professores e alunos em eternos estudantes. O que se deve levar em conta é o fato de que a pedagogia não deveria se reduzir à ciência e a educação a seu objeto, mas a vontade de se buscar realmente conheci­mentos e autonomia. A educação deve estar voltada à própria vida e sua transforma­ção; à construção dos indivíduos em si mesmos e em coletivo, mudando sim, tudo o que está estagnado; de propor algo novo que realmente alimente o prazer de aprender, porém, sempre sobre bases efetivamente democráticas e não maquiadas por inte­resses dos setores dominantes da sociedade.
3 O CONSTRUTIVISMO DISSEMINADO NOS DISCURSO OFICIAIS E AS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A ALFABETIZAÇÃO E PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA

  3.1   As políticas públicas, brasileira e paulista, para a educação básica
   
           O Brasil sempre teve dificuldade de lidar com a questão da educação, do ensino e da alfabetização propriamente dita. A questão do analfabetismo é problema histórico e crônico em uma nação marcada por forte dependência de origem colonialista, que em consequência nunca deu para a educação o devido valor. Às voltas com métodos e metodologias, teorias e modelos (muitas vezes importados), o país não tem conseguido superar as tristes estatísticas que apontam baixíssimos índices em leitura, escrita e interpretação de textos, dados estes am­plamente divulgados pela mídia e por órgãos de ensino e obtidos através de avaliações exter­nas colocando o Brasil no nível das nações mais miseráveis do mundo com índices alar­mantes que o situam como uma pátria de analfabetos e iletrados (analfabetos funcionais), cer­cados por uma pequena minoria de letrados.
           Com a adoção da concepção construtivista para respaldar todo o processo de ensino-aprendizagem da alfabetização, o governo brasileiro, a partir da publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, os PCN’s (Brasil – MEC – FNDE – 1997), propôs alterações profun­das nas práticas de ensino, reformulando conceitos e metodologias que provocassem o aban­dono de concepções e formas de ensino tradicionais (ensino com uso de cartilhas e centrado no professor), porém, foram feitas tentativas frustradas de se tentar “didatizar” as teorias construtivistas, além da tomada de medidas irrefletidas e lançadas por meio de documentos oficiais “de cima para baixo”, tais quais, critérios pouco claros para a realização de cursos emergenciais de formação que mais confundiram do que auxiliaram os alfabeti­zadores, além do estabelecimento de regras para a escolha de livros didáticos (em substituição às cartilhas) que muito os desagradaram. Estas ações, dentre outras descaracterizaram a alfa­betização em seu sentido mais restrito.
           Executando um modelo de alfabetização notadamente marcado por processos espon­taneístas de trabalho com atividades usando textos complexos (textos reais), o nível de enten­dimento pelas crianças passou a ser questionado e dentro deste contexto, pressionado pelos índices, pelos meios de comunicação e por setores do meio acadêmico, o governo resolveu propor algumas alterações de concepção de ensino e por meio do documento “Pró-Letra­mento” (Brasília- MEC- FNDE- 2006), procurou rever algumas falhas teóricas definindo a especificidade da alfabetização enquanto “domínio do sistema alfabético de escrita, que con­siste em decodificar os sinais gráficos (leitura) e codificar os sons da fala (escrita)” sepa­rando-a do conceito de letramento definindo-o como “uso da habilidade de leitura e escrita em diversas práticas sociais (...) como processo de inserção e participação  na cultura es­crita”(Brasília- p.10), propondo que apesar de processos diferentes, são complementa­res, devendo ser  ensinados concomitantemente, para que o aluno  possa ter equilíbrio na alfa­betização e no letramento. O governo buscou superar as visões incoerentes do passado onde só se alfabetizava sem a preocupação em desenvolver práticas de leitura, além de dar uma resposta às críticas de que atualmente busca-se o letramento sem uma preocupação em alfa­betizar as crianças. No entanto, tal discussão não chegou ao conjunto dos professores, visto que até houve a distribuição do referido material em todo o país, mas não surtiu o efeito de­sejado sendo que na maioria das escolas não chegou sequer a ser lido.
          Outro passo governamental importante foi a implantação da Lei nº 11274/06, que insti­tuiu o Ensino Fundamental de nove anos e a inclusão de crianças de seis anos de idade na es­cola regular que era antiga reivindicação de estudiosos. No documento “Ensino Fundamental de nove anos” – orientação para a inclusão de crianças de seis anos de idade (Brasil- MEC- FNDE- 2006), dois dos nove capítulos foram dedicados ao tema da alfabetização, porém, ao contrário do documento anterior, houve novamente a priorização do letramento em detrimento da alfabetização propriamente dita. Em linhas gerais o seu  conteúdo resume-se de instruções  com base teórica da Psicogênese da Língua e a Psicologia Cognitivista e Interacionista baseada em Piaget e Vigotsky, um trabalho com diferentes textos e gêneros, ensino lúdico e mental, elaboração construtiva da apropriação do sistema alfabético, valorização das relações som-grafia e da consciência fonológica através de jogos e atividades significativas, avaliação formativa, reguladora e coerente, trabalho coletivo, sem uso de cartilhas ou treinamentos rí­gidos e participação ativa da criança na organização dos espaços. As propostas metodológicas de atividades foram contempladas num curso de capacitação oferecido pela secretaria estadual de educação, conhecido como “Letra e Vida”, mostrando uma articulação das políticas públi­cas, federal e estadual.
          No recente documento “São Paulo faz Escola” (SP-SEE-2007) - Subsídios para o pla­nejamento do ensino da língua para o ano letivo de 2008 - o governo estadual manteve a de­fesa da mesma concepção de ensino, alegando que o que falta é a introdução de práticas mais competentes por parte do professor e que a teoria não precisa ser modificada e criou um novo programa com 10 metas para serem atingidas até 2010, sendo que dentre elas, propôs que to­dos os alunos de 8 anos de idade estejam totalmente alfabetizados, aumento de desempenho em 10% nas avaliações externas nacionais e estaduais, diminuição das taxas de reprovação e prioridade para a Municipalização do Ensino de 1ª a 4ª séries, além de obras de infra-estrutura nas escolas e formação continuada e capacitação da equipe. Lançou também, o Projeto “Ler e Escrever” para 1ª e 2ª séries, no qual restringiu o currículo especificamente ao ensino de Lín­gua Portuguesa e Matemática, criou o PIC- Projeto Intensivo no Ciclo, classes especiais para recuperação de alunos ainda não-alfabetizados de 3ª e 4ª séries e modificou as capacitações e horários de HTPC, visando que efetivamente sejam funcionais e surtam o efeito esperado. Para o ensino fundamental e médio, propôs a reestruturação curricular e um projeto que busca a interdisciplinariedade e o desenvolvimento de práticas baseadas na pesquisa, interação gru­pal e uso de novas tecnologias com forte ênfase para o desenvolvimento de habilidades de competências dentro do mote: “Aprender a ser, a fazer e aprender a aprender”, além, é claro da implantação desde 1997, da Progressão Continuada.
           Postulada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9394/96), a Progressão Con­tinuada (conhecida pejorativamente por Promoção Automática), apesar de garantir a diminui­ção da exclusão de milhares de crianças e jovens da escola, na prática tornou-se uma política perversa de aprovação sem critérios, gerando problemas de defasagem de conteúdos (fato comprovado também através das avaliações externas cujos resultados indicam que os alunos de 8ª série apresentaram nível de conhecimentos equivalentes à 4ª série do ensino funda­mental e alunos do 3º ano do ensino médio apresentaram nível de 8ª série). Não é por acaso que, em recente comunicado, o governo de São Paulo divulgou que fará mudanças nos crité­rios de aprovação no ensino fundamental, além de manter a reprovação no ensino médio. Outra medida recente tomada pelo governo paulista em relação ao ensino fundamental e mé­dio, foi a implantação, em 2008, da Proposta Curricular e da criação de material didá­tico próprio, (Cadernos do Professor) conhecido como as “Cartilhas” do professor e do aluno, numa clara tentativa de direcionar todo o processo de ensino de conteúdos de forma  institucionalizada que conforme avaliamos anteriormente, coloca por terra, de forma bastante contraditória, os postulados do modelo construtivista tão largamente defendido por seus técnicos e teóricos. O fato é que a burocracia e as decisões de “cima para baixo” continuam imperando e ditando as regras do sistema de ensino e o que se nota na edu­cação paulista é um pleno processo educativo imposto sem nenhuma forma de possibilidade de intervenção por parte da comunidade escolar e sem a menor liberdade de se contestar ou modificar a linha curricular proposta. Isso tudo acontecendo de forma escancarada e deixando os educadores perplexos e sem ação, uma vez que, na sua maioria, são completamente despolitizados e possuem ideias muito fragmentadas e parciais sobre o contexto em que vivem. Muitos não conseguiram se­quer apreender a proporção da manipulação dos sentidos, o quanto de engodos, falácias e promessas estão enrustidas e  mascaradas por uma realidade que por ser história viva, recentíssima, ainda não se consegue medir quais serão as consequências do estrago que po­derá ocorrer na educação paulista.
           A partir das colocações acima, é importante mencionar quão ideológicas foram as mudanças propostas pelos governos brasileiro e paulista em relação à mudança das práticas de sala de aula, pois o que se observa é o repintar de novos e velhos discursos esfar­rapados de educação pública e de qualidade para todos, escondendo uma realidade caótica  que atende com primazia aos interesses neoliberais.

      3.2  Métodos de alfabetização e modelos de ensino

           Segundo Magda Soares (2004), com a valorização de atividades que tinham por obje­tivo desenvolver a competência leitora das crianças, ocorreu um processo de práticas desconexas, que culminaram por gerar uma “nova geração de analfabetos” (SOARES, 2004, p.62). Por ausência de orientações metodológicas claras, tendo que se submeter às orientações propostas pela teoria construtivista e nenhum método a ser seguido, utilizando as palavras de Soares (2004, p.6): “Antes tínhamos um método e nenhuma teoria. Hoje temos uma teoria e nenhum método”, ocorreu, segundo a mesma, a “desinvenção da alfabetização”, a perda de sua especificidade e seu consequente apagamento. Em detrimento de se promover o letramento, ao se incentivar a construção de saberes pelas crianças, reduziu-se o papel do professor. Ao se privilegiar uma faceta psicológica da alfabetização, obscureceram-se as fa­cetas linguística, fonética e fonológica da aprendizagem da língua escrita, que devem ser ex­plicitamente ensinadas pelo professor.  Soares (2004, p.4-8) coloca que, quando a teoria construtivista nega irredutivelmente os métodos de ensino (e o governo corrobora quando propõe orientações metodológicas que negam o avanço das pesquisas), tratando-os pejorati­vamente por tradicionais (e, portanto, ruins), impede que se pense em alternativas que facili­tem o aprendizado, cabendo uma reflexão madura sobre qual metodologia adotar, pois ensinar exige uso de diferentes recursos didáticos para contemplar na criança os dois processos indissociáveis, de forma equânime e com qualidade que são a alfabetização e o le­tramento, sem perder as especificidades de cada um. Deve-se “alfabetizar letrando ou letrar alfabetizando”. (SOARES, 2005, p.47).   
           Para Rosa (1996), métodos devem ser entendidos como “passos de ensino e não devem ser confundidos com processos de aprendizagem (...). Métodos, por definição (meta = para e odos = caminho), propõem caminhos para se chegar a um determinado fim” (ROSA, 1996, p.19). Segundo a mesma, o que vemos com frequência são referências aos chamados “Méto­dos de Emília Ferreiro”, “Método Piagetiano”, que, em essência, são interpretações inapropri­adas em relação ao como se ensinar em lugar de como se aprender. Não existem métodos in­falíveis, assim como não há metodologias totalmente contra-indicadas.
           Boa parte dos teóricos que criticam o construtivismo, apontam a necessidade de uma nova proposta pedagógica que viabilize o efetivo ensino, já que o construtivismo veio ao seu tempo nos mostrar como a criança aprende, mas fica no vácuo quando não consegue dar uma resposta convincente de como melhor ensiná-la para potencializar a sua capacidade de cons­trução. Neste sentido, há bons exemplos a serem seguidos de práticas comprometidas e sérias, mostrando que é possível formar cidadãos letrados e donos de seus destinos, sem modismos e invenções miraculosas. Estas práticas colocam os bons profissionais num patamar invejável de excelência. Usando outras palavras, são aqueles educadores que se colocam numa perspectiva de educa­ção crítica e de uma Pedagogia Social, que efetivamente contribuem para a real formação de indivíduos letrados e plenamente alfabetizados e, por conseguinte bem formados na educação básica em geral.
3.3  O engodo construtivista como causa do fracasso do sistema de ensino
          A discussão sobre métodos ou metodologias é bastante relevante, mas não são os métodos ou a falta deles, a única razão do fracasso da alfabetização. A discussão envolve desde questões metodológicas, estruturais e principalmente ideológicas e sociais, além do contexto mundial de globalização econômica, que traz subjacentes diversos problemas de di­fícil solução para o Brasil enquanto país em desenvolvimento. Para Antônio Bosco de Lima (2004, p. 31 e 32):
(...) A escola tem servido aos interesses do Estado Capitalista (que) não con­templa a qualidade do ensino (...). Políticas sociais inexistem. O que existem são projetos, programas e ações que resultam em novos problemas e que irão buscar “solução” em novos projetos, programas e ações (...) como é o caso das classes de aceleração de São Paulo (...) que ao buscar a correlação idade/série, aceleram o processo de estudos, tendo como conseqüência uma pseudo-aprendizagem. O resultado estampa-se nos péssimos índices de esco­larização. Além disso, não há uma gestão verdadeiramente democrática. (...) É importante que os professores sejam autônomos e não tutelados por deci­sões externas. (LIMA, 2004, p.31-32).

           Há mais alguns fatores que devem ser destacados pela relevância na composição do problema, tais como: A má formação e remuneração dos professores que trabalham em pés­simas condições, com carga horária de trabalho desumana, proletarizados e desmoralizados em seu ofício. Muitos deles desconhecem sua clientela e têm preconceitos em relação à lin­guagem, à cultura e ao modo de ser e viver das crianças e dos jovens. A maioria dos prédios escolares está deteriorada, são mal projetados e não tem equipamentos, ambientes e materiais pedagógicos adequados e em número suficiente. Além do mais, há problemas na gestão do ensino com equipes escolares que não falam a mesma língua e que não dão conta de elaborar projetos que possam ir de encontro às necessidades locais. Há uma forte ausência dos pais e da comunidade nas decisões da escola, elevado número de crianças por classe e o mito de que as mais pobres têm carência de repertório e que não há práticas letradas nas comunidades ca­rentes, pois, segundo Sandra Maria Sawaia (1999), trata-se de mito a ideia de que as crianças pobres não conseguem aprender por que em seu meio não há práticas letradas, já que em pesquisa reali­zada em comunidade carente, comprovou que há grande quantidade de textos circulando em seu meio, com diferentes finalidades de usos e funções e que as pessoas em geral, incluindo as crianças ainda não alfabetizadas, têm acesso e deles fazem uso. Estes materiais escritos são de origem e foco populares e não são aceitos, por não se tratarem de produções científicas e literárias da elite dominante (que a escola tem o papel de reproduzir) e, por não se encaixarem nos padrões formais são descartados como lixo cultural. (SAWAIA, 1999, pg. 67- 80). Este tipo de visão reforça justificativas perversas para a péssima qualidade de ensino ofertada nas es­colas. 
           Toda esta situação é resultado de um longo processo histórico de abandono por parte do setor público que não consegue perceber que a melhoria e o desenvolvimento da nação passam por melhorar a qualidade da educação e não há outro caminho a não ser encontrar uma saída, propondo debates e discussões que envolvam todos os setores sociais interessados e, num esforço conjunto, tomar atitudes para que se pro­movam as mudanças necessárias. A importância destas ações é incentivar o debate pelo país afora, lançando sementes e novas esperanças de efetiva melhoria, no entanto, a experiência acumulada por sucessivos fracassos causados pelas descontinuidades das políticas públicas, pelas ingerências e toda sorte de insucessos obtidos, nos coloca em posição de descrença. Esta pedagogia burguesa supostamente progressista que é o construtivismo, através do “aprender a aprender, pedagogia dos projetos e das habilidades e competências”, que encantam parte dos educadores mais desavisados, tornou-se pedagogia oficial e produziu uma escola repleta de atividades e vazia de conteúdos. O resultado é a manutenção do analfabetismo e da ignorância por parte da instituição que deveria difundir a cultura escrita para toda a sociedade.
          É muito necessário que se promovam mudanças em todos os setores do ensino público, através de um projeto político-pedagógico sério, previamente debatido e que efetivamente, minimize a distância entre a qualidade ofertada pela escola pública e a privada. Neste sentido é preciso que sejam feitos investimentos significativos a partir de novos paradigmas. O go­verno e a sociedade devem ver a educação com mais seriedade. Não adianta nada se propor projetos mirabolantes, desperdiçando vultosas verbas e os índices continuarem perfi­lando o Brasil ao nível das nações mais miseráveis do mundo. Neste sentido não se justificam os parcos recursos orçamentários que se dirigem para a educação, assim como não é possível desperdiçar recursos com projetos sem sustentação alguma e que terminam sem dar o retorno necessário. Não podemos deixar nossas crianças à mercê de ingerências e má administração do dinheiro público, devendo haver uma fiscalização séria pelos órgãos competentes para ga­rantir a execução das ações propostas, assim como devem ser estabelecidos critérios claros nestas formas de fiscalização que têm que ser pontuais e objetivas, em relação ás Diretorias de Ensino, aos gestores das escolas, aos profissionais em geral. Melhorar a formação dos profes­sores, os seus salários e as suas condições de trabalho. Deve haver a diminuição da quanti­dade de crianças por sala de aula e a construção de novos e bem equipados prédios escolares. Precisam ser adquiridos materiais pedagógicos de qualidade e em quantidade suficiente.
           É muito importante que os professores sejam bem orientados e que estejam seguros sobre qual caminho seguir para melhor exercer sua função, tendo clareza e autonomia para encontrar o método de ensino, que seja capaz de garantir a alfabetização e o letramento das crianças, além da garantia de obterem a efetiva aprendizagem dos alunos com competência e dentro dos princípios democráticos de equidade, e em especial, que saibam “O quê”, e  “Como” ensinar às crianças e jovens tendo condições estruturais para isso. Somente com lousa, giz e saliva não há possibilidade de se conseguir bons resultados.
           No que concerne às questões teóricas, há que se melhor preparar o educador no exercí­cio de sua função, porém, há que se ponderar também, sobre a importância do uso dos méto­dos enquanto auxiliares no processo da construção dos conhecimentos e que se compreenda que cada procedimento didático visa um tipo de aprendizagem e que cada objeto de conheci­mento exige um método diferente. Jamais devemos defender o retorno do ensino mecânico e sem sentido para nossos alunos, mas não é possível negar que o espontaneísmo, além de não educá-los, os escraviza em novas formas de analfabetismo, ausência ou má qualidade na aprendizagem dos conhecimentos sistemáticos produzidos historicamente pela humanidade e isto é inconcebível.



4 VISÃO GERAL DO ENSINO SUPERIOR NO BRASIL E AS CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS DO  CONSTRUTIVISMO
 4.1  Contexto histórico
          Os recentes e intensos impactos sócio-econômicos e culturais que se propagam com uma espantosa velocidade e, graças à evolução tecnológica, afetam, em diferentes graus, as rotinas dos países do mundo, confirmam a natureza universal do atual processo de globaliza­ção da sociedade contemporânea. Este processo tem gerado mudanças que se tornam cada vez mais visíveis no cotidiano do cidadão. Para Lima (2004, p.35),
Nesse sentido, a principal característica deste novo tempo é o fabuloso acú­mulo da informação em todos os domínios, com surpreendente potencial de armazenamento. Embora esse conhecimento não seja produzido necessaria­mente na universidade, é dela que se originam os técnicos e pesquisadores que integram as instituições, que estão no mercado e que trabalham com ciên­cia e tecnologia. Toda a sua atividade está relacionada à produção e divulga­ção do saber que devido a estas mudanças sobre as sociedades humanas tem recebido a denominação de Sociedade do Conhecimento, Sociedade da In­formação ou Era do Conhecimento. Constata-se, na tentativa de aproximação da natureza do conhecimento da sociedade globalizada, a crise da matriz epistemológica cartesiana. Essa crise, tem sido caracterizada como o con­fronto entre a concepção de que o desenvolvimento histórico do indivíduo e da sociedade se dá por meio do uso correto da razão contra aquele que afirma o fim da história, enquanto história de avanços e progressos. (LIMA, 2004, p. 35).
            O conhecimento neste novo período tem priorizado a dimensão tecnológica, em es­treita sintonia com as relações de mercado. O saber e o conhecimento, no mundo globalizado, parecem perder muito de sua função de busca de sentido para a vida, para o destino humano e para a sociedade, para tornar-se "produto comercial de circulação" orientado pelo novo paradigma da aplicabilidade. Os paradigmas da modernidade, que ensejavam rotas previstas para o desenho do futuro humano, estão em crise. É evidente a crise do pressuposto epistemo­lógico moderno e o mundo caminha para uma hegemonia absoluta da pós-modernidade e do conhecimento como exclusivo processo comercial de circulação.
            A nova sociedade globalizada, que prioriza o econômico e os interesses comerciais, contribui, além disso, para o estreitamento da esfera pública, e coloca em crise o tradicional papel do Estado. A esfera pública, ao se privatizar, coloca em evidência um novo "modelo de cidadania" que não se nutre mais dos valores coletivos e, consequentemente, constata-se a emergência de uma nova ética, na qual se valoriza, não mais o humano, mas o que atende aos interesses do mundo econômico.
           Neste novo cenário, a produção globalizada de bens, justificada pela incessante competi­ção que associa qualidade e lucro, convive com a brutal exclusão social e desemprego especi­almente naqueles países do terceiro mundo, rotulados como emergentes.
            Apesar de sua pretensa hegemonia, a globalização da sociedade não consegue eliminar a "cultura regional", as minorias que cultivam identidades próprias, as realidades que se ali­mentam do "local", do diferente. Pode a história ser concebida como um decurso unitário? Esta noção pode ser vista como resultado da ação de grupos e classes sociais dominantes, com vistas à hegemonia. De qualquer forma, abolida a ideia de uma racionalidade central da histó­ria, as minorias podem tomar a palavra de modo a instituir-se um mundo da diferença, de pluralidade de culturas. Esta análise salienta a necessidade dos múltiplos olhares sobre a reali­dade social contemporânea, o que deveria ser obrigação da universidade.
 4.2 O papel das Instituições de Ensino Superior (IES) no cenário mundial atual
          Diante de tal conjuntura cabe analisar como as universidades brasileiras têm rea­gido frente a essas mudanças e como poderiam atingir um melhor nível de qualidade no pro­cesso ensino-aprendizagem. Podemos dizer que tais mudanças produzem deslocamento do papel social da universidade e apresentam como resultado a desvalorização do papel dela como instituição fundamental para a produção do saber.
           O papel da universidade relacionado à formação profissional necessita de uma redefini­ção que possibilite acompanhar a evolução tecnológica que defina os contornos do exercício profissional contemporâneo, de forma a considerar a formação acadêmica como tarefa que se realiza, necessariamente, em tempos diferentes daquele em que acontecem as inovações. A este dado se acrescenta outro, o fato de que não se concebe mais exercício profissional homo­gêneo durante o período de inserção no mundo do trabalho. Também não se admite que a formação do profissional, qualquer que seja, deva se encerrar com sua diplomação. Desse fato nasceu a chamada Educação Continuada, também conhecida como Educação Permanente.
          Do ponto de vista da Graduação, em particular, a formação para o exercício da profis­são em uma era de rápidas, constantes e profundas mudanças, requer, cuidadosa atenção por parte das Instituições de Ensino Superior. É neste contexto também de “aprender a aprender“ e de “habilidades e competências” que se insere a teoria construtivista com o objetivo de as­segurar que seus egressos adquiram a capacidade de investigação e de métodos de ensino de “pesquisa integrada”, pedagogia dos projetos no ensino superior, etc.
           A primeira questão que se coloca para a universidade, a fim de que ela possa redefinir seu papel, diz respeito ao modelo ou à estratégia de desenvolvimento que a mesma deve prio­rizar. Duas alternativas extremas podem ser esboçadas aqui: o modelo concentrador, que busca aproximar o país do padrão internacional pelo fortalecimento científico-tecnológico de determinados setores da sociedade, a partir do qual se aceita a exclusão de enormes segmentos sociais que não conseguem chegar até o ensino superior de qualidade, uma vez que as melho­res vagas continuam reservadas aos filhos das classes dominantes e, de outro lado, o modelo “pseudo-includente”, para o qual o desenvolvimento deve ser igualitário e centrado no princípio da cidadania como patrimônio universal, de modo que todos os cida­dãos possam partilhar dos avanços alcançados, uma vez que são as instituições privadas que mais abrem vagas para os estudantes pobres e que nas instituições mais elitizadas o ensino continua sendo feito em um ambiente acadêmico que ainda prima por ter  uma resistência conservadora em relação à construção do conhecimento construtivista, onde o modelo ainda continua mais centrado na transmissão pelo professor e nas tradicionais técnicas de ensino através da pesquisa orientada .
          De qualquer forma, a universidade terá que repensar a sua função social – aquela que se orienta pelo direito de todas as pessoas à uma qualidade de vida digna. Ela deverá responder não só aos desafios tecnológicos, mas também pela questão ética que diz respeito a toda am­plitude da existência humana. Em resumo, parece ser fundamental que as instituições de en­sino superior busquem equilíbrio entre a sua vocação técnico-científica e a vocação humanís­tica, perguntando-se o que deseja ensinar, para quem deverá ensinar e de que forma deverá ensinar. No que tange à forma de ensino, que é o interesse deste trabalho, cabe ao professor universitário a importância de se manter capacitado como educador, isto é, com os conhe­cimentos para selecionar a mais apropriada metodologia de ensino da disciplina que irá ensi­nar. A farta literatura sobre Qualidade na Educação Superior focaliza o professor como o ins­trumento mais importante para atingir essa qualidade. Não temos nenhum receio em afirmar que a crise vivenciada pelo ensino superior tem como causa a incompetência e o despreparo dos docentes. O ensino superior brasileiro está “perdendo o bonde da história”. Os próprios intelectuais, os grandes mestres do ensino superior também estão se deixando levar pelo belo discurso que inebria. Propor ações para o ensino superior no contexto do século XXI, requer atenção aos apelos desse novo tempo, que se nos impõe sob o signo da comuni­cação e da informação. Ao viver na era da sociedade tecnológica, torna-se necessário rever as formas de pensar, sentir e atuar sobre essa realidade, que não se apresenta de modo linear, num continuum de causa e efeito, mas, de modo plural, numa multiplicidade e complexidade inscritas em redes e conexões, de modo a ampliar nossa inserção no mundo. Sob essa pers­pectiva, a convivência dos aspectos técnicos e humanísticos nos cursos de graduação adquire nova dimensão, ao desvincular-se do modelo moderno de humanismo autocentrado, mas com o cuidado para não assumir a postura, até certo ponto ingênua, de dar ao método construtivista uma importância maior do que o mesmo possui, valorizando os conhecimentos prévios dos estudantes e o conhecimento espontâneo relegando a ciência, a tecnologia e o ensino de humanidades a um segundo plano perigoso.
            Entendendo por fim, que o ensino superior ofertado aos jovens se destina para criar con­dições históricas para realização plena das potencialidades de sua humanidade, ao observar­mos as condições concretas da existência humana na sociedade tecnológica evidencia-se a incapacidade do sujeito em cumprir esse destino, o que pode gerar desconfiança na ideologia do progresso, diante da incerteza dos rumos da história, com a degradação da natureza e dete­rioração da vida social em especial no que diz respeito à degeneração do conceito de que o ensino superior dos novos tempos está mais à serviço do desemprego e do inatismo do que a serviço da preparação efetiva dos jovens para o mercado de trabalho e para ter condições de uma vida digna e realmente cidadã.
           As conseqüências do desenvolvimento científico e tecnológico, frequentemente, têm sido tematizadas no debate intelectual contemporâneo, o que torna indispensável a reflexão sobre os princípios que devem reger o novo papel do homem nessa sociedade com observân­cia do impacto das tecnologias sobre a sociedade e sobre a cultura e consequentemente sobre as novas formas de se formar ou informar os estudantes. É do conhecimento de todos que os desafios atuais da sociedade exigem qualificações cada vez maiores e comprometidas com uma visão holística e generalista, ao invés da restrição às especialidades como ocorreu até o final do século XX. Apesar de os cursos de graduação não deverem mais restringir-se apenas à perspectiva de uma profissionalização estrita, especializada, devendo-se propiciar a aquisi­ção de competências de longo prazo, o domínio de técnicas analíticas, de múltiplos códigos e linguagens, enfim, uma qualificação intelectual de natureza suficientemente ampla e abstrata, não se deve perder de vista que a formação do indivíduo exige o ensino sistemático de conte­údos essenciais e necessários que garantam uma base sólida para a aquisição contínua e efici­ente de conhecimentos específicos.
           Diante desse cenário, cresce a importância dos cursos de graduação, onde a formação ofertada não pode estar restrita somente ao preparo do indivíduo para o exercício de uma profissão de forma estanque, já que isto não é o suficiente para integrá-lo ao atual mundo do trabalho. Também é necessário que esta formação seja exigente no compromisso com a produ­ção de novos conhecimentos mesclados com o ensino de velhos e sólidos saberes produzidos so­cialmente, pois parece que as instituições de ensino superior têm se esquecido deste detalhe. Essa capacidade que parece fragi­lizada implica, por exemplo, em aceitar estar preparado para mudanças de carreira ao longo da vida, seja por novos interesses, seja por perceber que sua carreira anterior dá sinais de desa­parecer. O incremento das novas tecnologias provoca intensas mutações profissionais, exige crescente intelectualização e enriquecimento das atividades produtivas e demanda aprendi­zado que envolva o manejo de informações e conhecimentos abstratos e a habilidade de lidar com grupos em atividades integradas. Os cursos de graduação devem propiciar a oferta de referenciais teórico-básicos que possibilitem o trâmite em múltiplas direções e instrumentali­zem o indivíduo para atuar de forma criativa em situações imprevisíveis. Isso implica que o aluno seja capaz, ao estar inserido no mercado de trabalho, de transferir para o mundo real conhecimentos e habilidades adquiridas em sala de aula. Assim, a aquisição de conhecimentos deve ir além da aplicação imediata de forma a impulsionar o sujeito, em sua dimensão indivi­dual e social, a criar e responder a desafios. Em vez de ser apenas o usuário, deve ser também um agente capaz de gerar e aperfeiçoar tecnologias. Torna-se necessário desenvolver a habili­dade de aprender e recriar permanentemente, para que seja retomado o sentido de uma educa­ção continuada. No bojo do discurso construtivista a universidade transforma-se em local privilegiado de construção de conhecimentos e o processo é centrado no aluno. O professor passa a ser também um facilitador da aprendizagem, enfim, o mesmo modelo de todos os níveis de ensino: do fundamental ao superior. O grande problema a ser enfrentado é a interpretação correta desta mudança pelas instituições de ensino superior e que não façam delas um instrumento que contribua para a queda nos níveis de qualidade, pois, isto poderia resultar numa falência generalizada do sistema de ensino brasileiro, tanto público quanto privado gerando graves consequências para os desti­nos do país.   
           Deste modo, não há como funcionarem isoladamente os cursos de graduação e os programas de pós-graduação. Da mesma forma, não teria sentido isolar a graduação dos ní­veis anteriores (como o Ensino Médio), no intuito de se encontrar os culpados pelas deficiên­cias de conhecimento nos alunos recém ingressados na graduação. A culpa, agora se começa saber, vem da péssima formação dos jovens no nível básico de ensino (visão confirmada pelos péssimos índices no ENEM, Prova Brasil, além de outras avaliações promovidas pelos gover­nos estaduais no ensino básico e que têm se estendido os péssimos resultados também ao en­sino superior, basta ver os resultados deprimentes do ENADE- Exame do Ensino Superior), e é inaceitável que a comunidade acadêmica permaneça comodamente alheia ao problema da qualidade do ensino superior e atribua a responsabilidade ao poder publico. Afinal, a quali­dade do ensino-aprendizagem é responsabilidade de todos os elementos que fazem parte do Sistema Nacional de Educação Superior que precisam olhar o problema sob um viés de quali­dade em detrimento da quantidade de matrículas e dos subsídios governamentais que geram as “bolsas-diploma”.
4.3 A crescente queda de qualidade do ensino nas Instituições de Ensino Superior
          O sistema nacional de graduação articula-se com as experiências históricas acu­muladas. Ao caracterizarmos a criação da universidade brasileira, em seu segmento pú­blico, aquele financiado pelo Estado, é, em geral, pioneiro no país, e, tornou-se referência de qualidade para todo o sistema nacional, especialmente no campo da pesquisa cientifica. La­mentavelmente, essa referência de qualidade das IES públicas está em declínio, por vários motivos:
·           O corporativismo de seus docentes;
·           A redução crescente das verbas alocadas para o ensino superior;
·           A má administração das Instituições;
·    A falta de recursos financeiros para contratar professores substitutos de docentes apo­sentados, o que resulta em cancelamento de disciplinas ou aumento do tamanho de turmas, com graves conseqüências sobre a qualidade do ensino-aprendizagem;
            Em se tratando das instituições privadas podem ser listadas as seguintes questões que concorrem para a queda de qualidade:
·         Pouca ou nenhuma preocupação com a capacitação e aperfeiçoamento de seus docen­tes na área pedagógica;
·         Pouca ou nenhuma ação para motivar seus docentes em cursarem mestrado ou douto­rado;
·         Criação de cursos (com aprovação do MEC) cuja oferta e/ou mercado de trabalho es­tão saturados ou em declínio;
·         Altos níveis de inadimplência e muito pouca criatividade para negociar com os alunos inadimplentes;
·         Preocupação, pelas mantenedoras, com lucros grandiosos e o desinteresse em investir em ações que se destinem a melhoria da qualidade do ensino-aprendizagem.
           Depois de expostos os itens acima entendemos como evidente a necessidade de um novo perfil docente. Este docente teria, necessari­amente, formação científica na sua área de conhecimento, conforme estabelece a LDB, ins­trumentalizada pela pós-graduação stricto sensu. O aprender e o recriar permanentemente, ou seja, o "aprender a aprender", conceito pedagógico derivado dos novos desafios da sociedade contemporânea, não se esgotam no campo da introdução à ciência ou nos métodos de repro­dução do saber. Todo o saber é contextualizado historicamente, assim como toda atividade profissional humana se dá em um contexto social, de forma a situar o papel da universidade entre os interesses da sociedade tecnológica e a contingência ética da necessidade de integra­ção de todos ao patrimônio dos bens e da cultura que uma sociedade produz. É necessário,  para a garantia de um modelo de atuação competente e que prime pela qualidade no ensino superior, que se abandone a postura autoritária e que se assuma outra, formuladora de políticas e orientadora de atividades de implantação de formas de ensino que efetivamente ensinem aos estudantes. A formulação de políticas públicas educacionais deve focar, essencialmente, ações destinadas à melhoria da qualidade do processo ensino-aprendizagem. Parece simples e é simples assim: Deve-se ter cuidado para não embarcar em métodos e técnicas de ensino, redu­cionistas e revestidos de pretensa modernidade e que escondem ou enrustem como já foi dito anteriormente, o verdadeiro interesse que é a destruição da qualidade do ensino ou a formação de uma massa de jovens com diplomas universitários que não servem para nada.
          Da mesma forma que as decisões sobre qual modelo teórico de ensino, deveria ser utilizado nos níveis fun­damental e básico vieram a partir da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) - que foi feita sob influência ideológica dos organismos internacionais anteriormente citados- no ensino superior a orientação é mesma. A LDB teve o papel de nortear a mudança de eixo da forma de ensino e sua formulação foi marcada pela falta de diálogo com a comunidade acadêmica quando da realização de mudanças de procedimentos ou estudos para alterar a legislação.
           As legislações anteriores sobre educação superior foram, de alguma forma, inovadoras e implantaram reformas. Algumas delas foram alvos de críticas, por trazerem inovações ao ambiente aca­dêmico, reconhecido como conservador. Estas legislações procuravam modernizar o ensino superior para adaptá-lo às mudanças sociais, políticas e econômicas que impactavam a socie­dade brasileira. Um fator que tem influenciado a educação no Brasil é a inconstância do re­gime político dominante, que oscila entre o totalitarismo (pleno ou disfarçado) e a democra­cia, impregnada de autoritarismo. Como a educação é fortemente influenciada pelo regime político é fácil compreender o processo deficiente no qual as leis são feitas e impostas aos setores sociais.
           Os Programas de Mestrado e Doutorado, tanto no Brasil como nas universidades es­trangeiras, são considerados como uma capacitação para a pesquisa científica e aprofunda­mento dos conhecimentos numa área específica. A variedade de estratégias organizacionais e de conteúdos programáticos adotados em países como Estados Unidos, Inglaterra, França, Austrália e Alemanha poderiam servir como referência para uma solução brasileira. Isso não significa, deixemos claro, copiar modelos internacionais, mas, analisar soluções adotadas com vistas à busca de melhoria na qualidade do processo de ensino-aprendizagem. Objetivamente, naqueles países citados, já está consolidada a ideia de que o professor universitário deva do­minar a pedagogia e didática em sua área de conhecimento e é ainda mais necessário que o professor universitário (da mesma forma que o professor dos demais níveis de en­sino) tenha autonomia e capacidade crítica para buscar a melhor forma de propiciar a educa­ção para seus alunos não sendo ele também mais um joguete nas mãos de políticas de educa­ção neoliberais mascaradas de democráticas.
5 A CONEXÃO ENTRE NEOLIBERALISMO E CONSTRUTIVISMO: ONDE SE “ENRUSTE” O DUALISMO
5.1 As origens da conexão
           A história humana não se resume à memória, ao registro de fatos ocorridos no tempo. Enquanto ciência ela possui vinculação com a realidade social, pois é produzida a partir dos homens e de suas condições de existência. O trabalho é a atividade vital do homem, que lhe permite transformar a natureza em prol de suas necessidades. Para Demerval Saviani, “A educação caracteriza-se como trabalho não material, produtor de ideias, valores, conceitos habilidades, etc”. (SAVIANI, 2000, p.8). Sendo o fenômeno educativo resultante da atividade humana, sua historicidade é intrínseca à história do próprio homem. Na investigação histórico-educativa, estas relações são reforçadas, pois a educação é determinada historicamente e é por isto que para o autor é importante pesquisar “o objeto educação sob a perspectiva histórica” (SAVIANI, 2000, p. 12). E é dentro desta perspectiva, que queremos situar o modelo construtivista como parte de um projeto que não se volta para a transformação da sociedade, como deveria ser em se tratando de escola pública, onde estão as classes populares mais exploradas pelas relações capitalistas estabelecidas. A política educacional é uma modalidade da política social. A ad­ministração da sociedade está dividida nos setores político, econômico, social e militar. Des­tes setores decorrem as políticas econômica, social e militar e neste sentido a educação não se desvincula do econômico e sob as condições do capitalismo as políticas educacionais têm ca­ráter secundário. Pelo viés da dialética, é possível a análise das contradições entre os discur­sos oficiais e os avanços e retrocessos ocorridos na escolarização das classes populares. Segundo Newton Duarte, “A implantação no Brasil dos preceitos construtivistas, nos mostra os fortes elos deste com a Escola Nova e sua forte filiação ao Neoliberalismo” (DUARTE, 2006, p. 27), que após se tornar proposta oficial de ensino, é premente que o caminho histórico seja compreendido e que esta formatação e não formação que estas políticas vêm ofertando aos alunos das classes populares através da oferta de uma escolarização de péssima qualidade visa à exploração destes indivíduos pelo mercado de trabalho capitalista e “vem trazendo graves conseqüências para a formação intelectual da classe popular em geral”. (DUARTE, 2006, p. 27)
     Para Saviani (2001), o termo neoliberal pode ser definido como

Valorização dos mecanismos de mercado, apelo à inicia­tiva privada e às organizações não-governamentais em de­trimento do lugar e do papel do estado e das iniciativas do setor público, com a conseqüente redução das ações e dos investimentos públicos. (SAVIANI, 2001, p.200).


           Para se entender as transformações do trabalho ocorridas na sociedade contemporânea, é preciso que nos aproximemos dos nexos que fundamentam o homem enquanto ser social, e dentro de um ponto de vista marxista, é no trabalho que as propriedades sócio-históricas nascem, onde a humanidade rompe as barreiras naturais e vai se desenvolvendo biológicamente e se humanizando, tornando-se o gênero humano, fazendo uma mediação permanente com a natu­reza. O problema, segundo Marx, começa quando o trabalho transforma-se em mercadoria no capitalismo e sofre uma brutal perversão, perdendo seu caráter emancipatório, realizador, li­bertário e libertador para aprisionar o homem. Observa-se nesta esfera, a distinção entre tra­balho abstrato e concreto. O primeiro, mortifica, aliena, cria valor e transforma o homem e ser assalariado. O segundo supre as necessidades vitais do homem. Desta forma, sob o domínio do capital, o trabalho assume determinadas condições históricas de produção, submete-se à lógica férrea da produtividade e se sujeita a violência das coisas e ainda, resulta na forma ali­enada de produção capitalista. São estes os aspectos mais importantes que, grosso modo, ser­vem para descrever o quadro complexo em que se desenha a crise estrutural do capital ( que após a década de 70 assistiu a um esgotamento de tal modelo) havendo então a necessidade de um reordenamento da educação para atender aos novos desafios propostos pela elite dominante visando conseguir novo fôlego para a garantia da manutenção do processo produtivo capita­lista. As características desta reorganização são: a flexibilidade, a criativi­dade, a multifuncionalidade, a polivalência, a participação, a cooperação e a qualificação (através do mote “qualidade total”), cujo objetivo é a aceleração do circuito produtivo, a am­pliação da produção de valores de troca, a diminuição do tempo de vida útil, que vem gerando um círculo vicioso de super consumismo de mercadorias descartáveis, e culminando na atua­lidade, com a decadência dos serviços, bens e força humana de trabalho. Dentro deste pano­rama e visando manter a sua lógica expansionista e destrutiva, o capital fortalece as transfor­mações de ordem, social, política, econômica e educacional. Os organismos internacionais financeiros, por exemplo, buscam promover a assistência aos países pobres e fornecem amplo suporte à educação dos mesmos, conferindo a educação um papel decisivo no desenvolvi­mento sustentável mundial. Dentre estes organismos é necessário citar o Banco Mundial que representa a supremacia, a hegemonia e o imperialismo americano, ditando as regras aos paí­ses da América Latina no bojo das reformas globalizantes para a educação. Para Duarte (2006):

A responsabilidade dada à educação, que o Banco Mundial imprime junto com a UNESCO aos países periféricos, to­madores de empréstimos, é a de promover o desenvolvi­mento sustentável nos países da periferia do capital, utili­zando a educação básica como um dos instrumentos na su­peração das desigualdades sociais. (DUARTE, 2006, p.43).


5.2  Neoliberalismo e política educacional

           Veremos que essa lógica irá se repetir nos documentos oficiais, encontros, conferên­cias, declarações e fóruns mundiais provenientes deste, a mesma tendência argumentativa, impondo agendas, ações, metas que possam atender às necessidades do capital decorrentes das novas formas de produção em relação aos modelos anteriores e que reforçarão a função social delegada a educação-solo de transformações sociais.
           Nesta perspectiva o relatório de Jacques Delors-UNESCO "Um tesouro a descobrir", apresenta o ideário "aprender a aprender", novo paradigma educacional dominante neste sé­culo, como nos garante Duarte (2000), em conformidade com a educação oferecida ao novo perfil de trabalhador, caminhando em consonância aos demais modismos postos em vigor (de forma alienada e sedutora) nas décadas de 80 e 90, bem como a especial adesão ideológica, se defi­nem como sendo o que há de mais avançado e progressista no momento, em termos de edu­cação. Diante disto, os discursos, capacitações, qualificações, reciclagens teriam que proferir: flexibilidade, criatividade, polivalência, trabalho em equipe, entre outros já citados anteriormente e representam a violação disfarçada e paulatina aos direitos dos trabalhadores. Por isso, a refe­rência a esse documento, que está afinado aos ajustes estruturais do capital, demonstra as im­plicações na instância educativa da lógica de desenvolvimento das políticas neoliberais de aplicação do Banco Mundial e dos organismos financeiros, com fins de atribuir à educação um papel de redenção social, portanto, importantíssimo instrumento de reprodução do capital. Logo, atrelado a estes programas veremos também a defesa e o destaque dado à educação que se ancora nos modelos teóricos educacionais que possam dar suporte a essa configuração de novo ordenamento do capital. Daí, o surgimento de modismos na educação como a pedagogia das competências, a pedagogia de projetos, o construtivismo, o sócio-interacionismo, etc. Im­porta-nos aqui, a partir de toda esta incursão que fizemos chegar às reflexões críticas feitas ao construtivismo, nosso objeto de pesquisa, o qual já foi abordado com bastante maestria, por  vários intelectuais no horizonte da crítica da incapacidade deste modelo representar avanços na formação da classe trabalhadora, mas que ainda na América Latina, particularmente no Brasil, tem sido mantido como o modelo eleito pelo sistema para capitanear as reformas e ajustes advindos dessa reestruturação “necessária” à educação, na ordem produtiva e reprodu­tiva implementada ao país. Assim, o construtivismo tem suas bases teóricas, predominante­mente assentadas nos estudos de Jean Piaget e uma evidente aproximação com o movimento educacional escolanovista, apresentando na sua essência interesses educacionais contrários a classe trabalhadora. A rigor é bom recordar, que Piaget já estava presente na escola nova e que esta preparou solo para o nascimento do construtivismo. Por isso, se torna fundamental superar os aspectos fenomênicos do real, que abarque a questão do construtivismo enquanto modelo teórico e suas reais implicações sobre a educação.
           Duarte (2006, p.208) nos avisa das estratégias argumentativas que sustentam ideologi­camente a opção pelo construtivismo em detrimento aos modelos anteriores pela burguesia contemporânea no campo educacional, já que para ele, “do ponto de vista didático, o pensa­mento educacional burguês nunca superou a oposição entre a escola tradicional e a Escola Nova” e o construtivismo da mesma forma, critica a escola tradicional, mas não superou as suas contradições, sendo o que chamamos de pedagogia liberal enrustida de progressismo. Segundo Saviani (2002), o construtivismo está ligado ao neoliberalismo e aos interesses do Estado, coadunando com as diretrizes da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em relação, por exemplo, “com a redução dos gastos públicos (...) visando tornar o país mais atraente ao fluxo do capital financeiro internacional.” (SAVIANI, 2002, p.89)
           O movimento construtivista aparece num paradigma de conhecimento filiado ao neolibe­ralismo, com a única exigência da formação de indivíduos que atendam às exigências de ra­cionalidade nos processos produtivos, dando uma formação funcional, adaptativa e imediata, escondendo um processo de acentuada divisão de classes e, segundo Duarte (2001, p.30), tal modelo,

Não pode ser visto como fenômeno isolado ou desvinculado do contexto mundial das últimas dé­cadas. Tal movimento ganha força justamente no interior do aguçamento do processo de mundiali­zação do capital e da difusão, na América latina, do modelo neoliberal (...). (DUARTE, 2001, p.30).


5.3  A crise econômica global e a política educacional

          Os vários passos dados pelos governos dentro da política educacional no Brasil per­correm os mesmos caminhos da orientação político-econômica mundial: A eliminação total do sistema estatal de ensino e para alcançar este objetivo os governantes de todas as esferas, impõem projetos que acabam por enfraquecer as tentativas da manutenção de uma educação pública e de qualidade. No Estado de São Paulo, as terceirizações, o ensino a distância, os contratos de trabalho precarizados dos trabalhadores de educação, as avaliações externas, os exames por proficiência, as municipalizações e até a reforma do ensino médio garantem as taxas de lucro da burguesia diante da crise capitalista. Políticas de bônus e compensações, Idesp, Saresp, mudanças nas leis que regulamentam a carreira dos professores, tudo isto vem ocasionando um aumento do caos e da desilusão que só contribuem para a diminuição da vontade de lutar, para a queda dos padrões de qualidade, a desvalorização do ensino e o aumento dos argumentos que o governo, através da política do “Estado Mínimo”, necessita para atingir seu objetivo de privatizar e descentralizar o ensino. O lema é: ”Quanto pior, melhor”. E no bojo deste embuste, a teoria pedagógica construtivista aparece como principal mecanismo de produ­ção de péssimos índices e resultados alarmantes de produção de analfabetismo funcional e de jovens mal formados, ou seja, iletrados.  Este tema do estado mínimo e das políticas de priva­tização já foi largamente debatido no Brasil, porém, parece que os principais envolvidos na questão (que é a sociedade em geral e não apenas os educadores),  não têm consciência da gravidade e amplitude do problema e das graves consequências de tal política à médio e curto prazo. Para Pablo Gentili (1995), este verdadeiro processo de entorpecimento e alienação social é esperado e foi engendrado, pois, na medida em que o neoliberalismo realiza com êxito a sua missão cultural ele possibilita também o êxito das políticas de cunho claramente antidemocráticas e dualizantes. Nos dizeres de Gentili, (1995, p.244-245):

O neoliberalismo precisa - em primeiro lugar, ainda que não unicamente - despolitizar a educa­ção, dando-lhe um novo significado como merca­doria para garantir, assim, o triunfo de suas estra­tégias mercantilizantes e o necessário consenso em torno delas. (GENTILI, 1995, p. 244-245).


         Tomaz Tadeu da Silva explicita este problema de forma sugestiva ao propor que a ofen­siva neoliberal em educação precisa ser enfrentada:

Não se trata somente de denunciar as dirtorções e falsidades (...) tarefa de uma crítica tradicional de ideologia (...) mas, de identificar e tornar visível o processo pelo qual o discurso neoliberal produz e cria uma “realidade” que acaba por tornar impos­sível a possibilidade de pensar outra. (SILVA, 1998, p.9).

      Para Gentili:
A educação para o emprego, pregada pelos profe­tas neolibeirais quando aplicada ao conjunto das maiorias excluídas, não é outra senão a educação para o desemprego e a marginalidade (...) e senten­cia a educação das maiorias num perverso destino: transformar-se na caricatura de um passado que nunca chegou a efetivar suas promessas democrá­ticas, dentro de um modelo social já marcado pela desigualdade e pela dualização. (GENTILI, 1995, p.249).


           O desafio colocado em face de tal realidade, é a luta pela efetiva garantia da educação como direito público e de qualidade. Não dá para ficarmos no campo do embate teórico e cultural. Devemos (enquanto sociedade em geral) criar condições para a materialização de uma sociedade fundada em princípios democráticos e a seu serviço criar uma educação não mais dualizante, porém, feita para todos, para as maiorias e minorias, baseada na equidade e na justiça.
                       
6  CONSEQUÊNCIAS DO MODELO NEOLIBERAL CONSTRUTIVISTA: CURRÍCULO ESVAZIADO E PREJUÍZOS À FORMAÇÃO DOS INDIVÍDUOS

6.1 Sintomas de um mal-estar pedagógico
          Há algumas décadas que profissionais da educação se queixam de uma crescente perda de legitimidade social dos saberes escolares e, em especial, da cultura letrada. Num mundo marcado pela força da imagem e da mídia eletrônica, práticas e ideais escolares ligados à lei­tura e ao domínio da norma culta parecem fadados a desaparecer. Não se trata de mera obsolescência de recursos didáticos e metodológicos. O que se encontra em crise é o próprio ideal formativo que marcou a criação e o desenvolvimento dos sistemas nacionais de ensino. Uma crise que não se origina nas instituições escolares, mas que a elas afeta diretamente.
      Os fatores que a condicionam são complexos e variados. Incluem desde o enfraqueci­mento da noção de 'estado nacional' até o predomínio da linguagem visual sobre a conceitual. Este último, por sua vez, implica o aumento de poder de outras instituições ou organizações sociais - notadamente da mídia eletrônica - no estabelecimento de valores e princípios éticos, estéticos e políticos. Essa perda da legitimidade social da cultura letrada - e por extensão da escola - tem sido objeto de inúmeros estudos e pesquisas acadêmicas.  Conflitos de diversas ordens surgem nesse contexto. A despeito dos esforços do professor, seu ideal de cultura não parece ter legitimidade nem fazer sentido para seus alunos.
                        Professores e alunos vivem um constante embate entre o uso e o reconhecimento da norma culta e as variantes linguísticas de que se servem os alunos, sempre impregnadas de gírias e expressões estranhas à cultura escolar. Em tese, falam a mesma língua, mas permanecem iso­lados em seus universos linguísticos, religiosos, étnicos, estéticos. Cada um, encerrado em suas próprias 'paredes', sem lograr transformar a convivência escolar em um encontro formativo. Se pousarmos um olhar amplo e em perspectiva da sala de aula como um todo, o que ve­remos é um espaço vazio de significado: carteiras sem alunos, mesa sem professor, quadro sem lição. Uma sala de aula sem 'alma' a denunciar o esvaziamento do significado político e cultu­ral da escola. Este esvaziamento é a principal causa da asfixia do paradigma da pedagogia que por sua vez tem sido alvo de pesadas críticas dos setores de esquerda que já perceberam a neces­sidade de parar para refletir e promover ajustes, em especial no campo dos conteúdos de en­sino.
           Visitando as origens percebemos que a própria modernidade trouxe profundas alterações em todos os setores sociais e abalaram os conceitos filosóficos de ”verdades e de identidades absolutas” e a mentalidade humana mundial passou a se assentar sob bases relativistas, niilis­tas e anti-idealistas em novas concepções que passaram a desvalorizar os conhecimentos his­toricamente produzidos que ao perderem o fascínio que exerciam, entraram em colapso. Nos dizeres do educador português Nuno Crato (2008, p.21),
Ocorreu uma agudização do subjetivismo, da afirmação angustiada da inescapável efemeridade, da fragmentação (...) e da desilusão (...).  Neste contexto de múltiplas ausên­cias (...) a mentalidade criada tende a incidir ao nível edu­cacional, numa flagrante falta de propostas. (CRATO, 2008, p. 21).

           O autor critica com razão, o atual paradigma de ausência e de esvaziamento dos conteúdos sistematizados em torno dos quais a escola se organizava e que davam as diretrizes ne­cessárias ao processo de formação dos indivíduos e que hoje se encontram em decadência por­que os interesses e as  necessidades do capital impõem uma reestruturação que não é salutar e que coloca em risco a própria função social da instituição escolar. Há, portanto, um abismo entre os interesses da escola e da sociedade. Uma crise de valores se assoma nas instituições de ensino, que, filosoficamente hoje se vê subjugada aos interesses de uma sociedade instan­tânea, veloz, imediatista. Traduzindo para o campo do ensino propriamente dito este imedia­tismo se traduz na valorização do processo, da construção, da interação, da produção de novas ideias individuais e não da reprodução sistemática de conteúdos.
           Os conteúdos que sempre serviram de base para o fortalecimento da formação integral do ser humano, apesar de suas características iluministas e racionais liberais, eram proporcional­mente mais humanistas do que os veiculados na atualidade. Buscava-se desenvolver nos estu­dantes a fruição artística, a admiração, valores humanitários ao propor-lhes, por exemplo, um olhar para o passado através da história, a necessidade de  aprender a se localizar no tempo e no espaço geográfico, ao propor-lhes atividades que ativassem sua memória e seu raciocínio lógico, em tudo estavam lá os conteúdos escolares tão necessários mas obsoletos nos dizeres contemporâneos, pois basta ao aluno aprender a acessar o computador que tudo se resolverá. Para quê localização geográfica se existem localizadores por satélite?  Para quê aprender a sintaxe da língua se o computador corrige os erros? Para que aprender a norma culta da língua nacional se o “Internetês” é mais prático, moderno e socialmente aceito?
            O fato é que somos vítimas de um modelo de educação que defende a construção de proces­sos que não tem conseguido formar e muito menos transformar (no sentido de desenvolver potencialidades) a ninguém.
6.2  Críticas ao Currículo Construtivista
           A partir de uma abordagem ampla envolvendo diversos campos ideológicos, podemos estabelecer algumas questões problemáticas que envolvem o ensino de conteúdos dentro da perspectiva piagetiana:
           Na obra de Piaget (1983, p. 166) aparecem dois princípios pedagógicos que defendem que aquilo que o indivíduo aprende por si mesmo é mais importante do que aquilo que ele aprende por meio da transmissão por outras pessoas e que o método de construção do conhe­cimento é mais importante que o saber em si. Para ele,
O problema da educação (...) é essencialmente o de di­recionar o educando não para soluções prontas, mas para um método que lhe permita construí-las por conta pró­pria.(...) As únicas verdades são aquelas construídas li­vremente e não aquelas recebidas de fora(...). A formação humana dos indivíduos é prejudicada quando verdades que poderiam descobrir sozinhos lhes são impostas, mesmo que sejam evidentes ou matemáticas (...). (PIAGET,1983, p.166).

           Veja-se o paradoxo em que desembocam estas idéias. Parece haver uma contradição que valoriza tanto o processo que acaba por transformar o conteúdo numa abstração esvazi­ada de sentido. Há uma descaracterização plena do processo educativo baseado na transmis­são de saberes. Segundo esta retórica, não há mais conteúdos que necessitem ser transmitidos. Todo o saber tornou-se relativo. A ciência passou a ser considerada ilusão. O conhecimento objetivo deixa de existir. A cultura global humana passa a ser substituída pela valorização de produções culturais locais. E o mais grave: conhecimento não se transmite. È construído se­gundo o lema do “aprender a aprender” que na opinião de Newton Duarte (2006):
Defende-se que até o professor deva aprender a aprender (...) e construir seus conhecimentos, tornando-se um profes­sor reflexivo e adepto da pedagogia das competências, a mesma que forneceu os argumentos necessários à precari­zação do ensino médio (...) submetendo-o a uma formação centrada no conceito de empregabilidade (...). (DUARTE, 2006, p.47).

          Como já foi dito em capítulo precedente, tal desmanche também se estendeu ao ensino superior. Para este mesmo autor, a psicologia tomou a educação escolar como objeto de estudos e pes­quisas. O ensino de conteúdos se tornou tema marginalizado, quase não sendo alvo de estu­dos, o que torna a questão bastante complicada, pois não há uma análise que explique como fica a escola sem conteúdos. Se não há mais conteúdos para serem ensinados, qual será o fu­turo da instituição escola? E das instituições de ensino superior?
           Os desdobramentos desta crise de conteúdos são visíveis quando ocorrem as Avaliações Externas que são a moda do momento, em todos os níveis de ensino e que têm se traduzido em índices alarmantes e vergonhosos que somente têm servido para demonstrar cabalmente o caos que se instalou no ensino brasileiro. O desprestígio do papel do professor é outro capí­tulo deste drama de massacres e falências, sendo o mesmo considerado culpado do fracasso, com a pretensa afirmação de que lhe falta uma formação continuada e permanente. Falta-lhe for­mação em serviço e a capacidade de se modernizar e de se ajustar aos novos tempos. É o principal culpado e ao mesmo tempo uma das maiores vítimas (ao lado dos estudantes) das inconsistên­cias e incongruências deste processo. O Neoliberalismo capitalista jamais vai admitir que o professor é mais um joguete a serviço das pirotecnias de um modelo de ensino que deseduca e desinforma. Que deforma toda uma geração, transformando-a em “analfabetos funcionais e universitários de diploma na mão e mente vazia de conteúdos”. Assim como também jamais se sentirá responsabilizado pelo desprezo dos conhecimentos clássicos e da decadência da importância que a educação tinha na ascensão social dos indivíduos, do estreitamento dos currículos e da banalização dos conhecimentos científicos em detrimento dos cotidianos, da danosa contextualização das aprendizagens que têm demonstrado serem muito deformadoras e fragmentárias do processo de ensino-aprendizagem, da desvalorização do processo de memorização de conteúdos que tanto já foram valorizados e que hoje se torna quase que um tabu a menor menção a esta estratégia de ensino, do vazio angustiante da escola, antes espaço de transmissão e produção de saberes, agora, espaço de desenvolvimento de habilidades e competências visando o preparo de mão-de-obra desqualificada para o mercado de trabalho, da enorme dificuldade de aprendizagem que os alunos têm apresentado na atualidade, dificuldades estas já que foram até patologizadas por setores que se confundiram por um falso ideal de educação, mas que na realidade nada mais são do que o resultado de quase duas décadas de construção de conhecimento que vem diplomando anualmente milhões de indivíduos iletrados em todos os níveis de ensino deste país. 
           Na mesma linha de raciocínio, o neoliberalismo capitalista aplicado à educação, do qual o construtivismo é seu braço pedagógico, jamais admitirá uma anomalia como a que temos presentemente assistido nos espaços escolares em geral e nas instituições de ensino superior no que diz respeito ao exagero que se comete ao se individualizar cada vez mais o ensino, sendo esta uma visão muito radical, pois segundo Crato (2008, p. 79),
Quando o avanço individual ou de um grupo é mais interessante do que a transmissão de conhecimentos “fixados”, isto poderá desembocar numa atitude anti-intelectual capaz de impedir até mesmo o desenvolvimento da capacidade de abstração dos estudantes, além da falta de modelos capazes de se estabelecer o que pode  ou não ser retirado da grade curricular dos cursos e séries escolares. Se não há mais necessidade do estabelecimento de critérios rígidos não há como haver um ordenamento das dificuldades surgidas em cada etapa do ensino e esta é uma questão central que explica em grande parte o quanto os conteúdos vem sofrendo um processo de fragmentação e extermínio sem precedentes. (CRATO, 2008, p.79).

Outra questão bastante importante levantada pelo autor diz respeito a uma “enorme falta de clareza entre a teoria construtivista no campo dos conteúdos de ensino e a formulação concreta de estratégias e modelos que garantam uma efetiva aprendizagem.” (CRATO, 2008, p.81) e o autor finaliza apontando criticamente outros aspectos relevantes a este tema:
A inadequação das concepções prévias dos educandos dificulta o ponto de partida da definição de quais conteúdos o professor deve partir e nem sempre o professor parte destes conhecimentos prévios. Há ainda um desprezo a um conjunto de alunos que demandam ou necessitam de uma atenção especial por parte do professor requerendo um ensino mais centrado na exposição para poderem obter uma boa performance nos testes escolares. (CRATO, 2008, p.81). 

           Estas afirmações fazem sentido quando nos recordamos aqui da teoria das diferenças individuais dos alunos.
            Enfim, está ocorrendo na prática educativa um esvaziamento dos currículos e este esvaziamento traz como consequência uma formação defeituosa e incompleta de enorme contingente de educandos que, por não se apropriarem adequadamente dos conhecimentos científicos e humanísticos mais elementares para sua vida ou para o exercício digno de uma profissão, não terão chance de competir com igualdade de condições em um mercado de trabalho marcado pela ultra-competição e pela eliminação da maioria marginalizada que está e que assim continuará, enquanto não houver uma análise séria do que se pretenda ensinar e para quê na direção de uma escola e/ou instituição de ensino superior que não seja nem dualista e nem excludente.
6.3 Crítica Marxista à Pedagogia das Competências de Phillippe Perrenoud

           Em importante seminário de educação realizado em Buenos Aires, em julho de 2008, (VII Seminário Redestrado - Nuevas Regulaciones em América Latina) os pesquisadores Juliana Pasqualini (psicóloga) e Fernando Ramalho Martins (sociólogo), doutorandos em educação pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), elaboraram um ensaio crítico à obra de Phillippe Perrenoud que trouxe importantíssimas contribuições para que possamos compreender as implicações e consequências da “Pedagogia das Competências”, uma vez que o referido autor é um dos grandes propositores e divulgadores de tal pressuposto educacional e que suas obras têm grande receptividade entre os educadores brasileiros. Os pesquisadores utilizaram para análise a obra “Escola e cidadania” (PERRENOUD, 2005) e demonstraram que o autor defende, em essência, uma concepção liberal de educação, porém, sob a aparência de uma perspectiva crítica e progressista. As proposições do autor revelam nítida afinidade com as demandas do modelo flexível de produção que ganhou força a partir da década de 70 com a crise do taylorismo-fordismo. Discutiram a noção de autonomia relativa da escola perante a sociedade e demonstraram a visão liberal do autor, argumentando que em última análise, o mesmo defende a adaptabilidade dos indivíduos à ordem social, contribuindo assim com a manutenção de tal ordem, não contribuindo para a sua superação e transformação social. Transcrevemos partes do referido seminário a começar pela relação escola-sociedade defendida por Perrenoud:
           Na relação escola - sociedade, Perrenoud (2005, p.9) se apresenta como um crítico do “estado lastimável” em que se encontra a “sociedade planetária”, bem como da tendência em se culpabilizar a escola, que não estaria educando adequadamente as novas gerações, como se ela – a escola – pudesse ser a “redentora dos pecados da sociedade”. Defende reiteradamente a importância de se “admitir as contradições de nossas sociedades e não esperar que a escola as assuma sozinha” ( ibdem, 2005, p.28) e afirma que “a escola não é um mundo social separado do restante do sistema”, de modo que “nela se observam mais ou menos os mesmos conflitos, as mesmas diferenças, as mesmas apostas que na sociedade global ou em outras organizações” (p.67).
           Assim, o autor nos alerta para os limites da educação escolar e sua autonomia relativa perante a sociedade: “a escola está na sociedade, é fruto dela, é de onde extrai seus recursos. Sua ‘autonomia relativa’ não a torna um santuário à margem do mundo, nem um superego” (ibdem, 2005, p.9).
           Perrenoud (2005) enfatiza ainda que só se pode envolver a escola no “combate pela cidadania” se esse combate incluir o engajamento em outras frentes, a saber: emprego, imigração, urbanismo, divisão das riquezas, entre outras.
       À primeira vista, considerando que Perrenoud (2005) recorre reiteradamente às características da sociedade para explicar o que acontece na escola e enfatiza que é um equívoco se exigir que a escola resolva os problemas da sociedade, somos levados a considerar, a princípio, a possibilidade de que sua abordagem se aproxime do grupo das teorias críticas da educação. Destacamos, nesse sentido, que a idéia de que a autonomia da escola perante a sociedade é relativa, afirmada por Perrenoud (2005, p.9), é também apontada por Saviani (1987), que refuta tanto o “poder ilusório” da escola (ampla margem de autonomia) quanto a impotência da mesma diante da sociedade (ausência total de autonomia).
           No entanto, na análise de Saviani (1987), o grupo das teorias não-críticas em educação é composto, entre outras, pelo escolanovismo. A análise das teorias pedagógicas realizada pelo autor tem como eixo a relação entre escola e sociedade, mas mais especificamente a questão da marginalidade e sua relação com a educação, ou seja, as teorias são analisadas de acordo com a forma como explicam o fenômeno da marginalidade e o papel da educação diante dela. Nas teorias não-críticas, a educação aparece como um instrumento de correção ou superação da marginalidade. Nesse contexto, o movimento dos Pioneiros da Escola Nova tinha como bandeira fazer a revolução social pela via da revolução educacional (ibdem, 2005). A Pedagogia Nova, para Saviani (1987, p.11), mantém “a crença no poder da escola e em sua função de equalização social”.
          Aparentemente nos deparamos com uma contradição, pois Perrenoud (2005) explicita em diversos momentos ao longo de sua obra sua filiação às pedagogias ativas, tributárias da tradição escolanovista. Na introdução da obra analisada, por exemplo, o autor afirma: “a educação para a cidadania tem a ver com as pedagogias ativas e construtivistas (...)” (p.14).      Dessa forma, Perrenoud nega a autonomia da escola em relação à sociedade e seu papel de equalização social, mas afirma-se herdeiro da tradição escolanovista. Teria o autor superado esse “pressuposto” do escolanovismo?
            Seguindo na análise de Saviani (1987, p.12), teremos que, na Pedagogia Nova, “a educação, enquanto fator de equalização social será, pois, um instrumento de correção da marginalidade na medida em que cumpre a função de ajustar, de adaptar os indivíduos à sociedade, incutindo neles o sentimento de aceitação dos demais e pelos demais” (grifo nosso). Os marginalizados, nesse contexto, são os “desajustados e desadaptados de todos os matizes”, ressaltando-se que “a ‘anormalidade’ não é algo, em si, negativo; ela é simplesmente uma diferença” (ibdem, p.12).
           A esse respeito, destacamos o conteúdo do sexto capítulo do livro de Perrenoud (2005), no qual o autor discorre sobre as competências que a “mulher ou o homem do povo” necessitam “para não ser enganados, alienados, explorados ou vítimas impotentes da miséria do mundo” (ibdem, p.106).
           No capítulo que trata das competências transversais necessárias para a atuação dos indivíduos nos diversos campos sociais, Perrenoud (2005, p.115) ao discorrer sobre cada uma das competências citadas, permeia a questão dos indivíduos em situação de marginalidade:

Vivemos em uma sociedade em que se respeitam os direitos daqueles que menos necessitam deles, porque são adultos, fortes e saudáveis, porque têm dinheiro, porque estão bem integrados ao tecido social, são considerados e não são desprovidos de poder. (...) Os abusos de direitos geralmente são exercidos sobre os mais fracos. No entanto, os prisioneiros têm direitos, assim como os pacientes, os indiciados, as crianças, os imigrantes, os portadores de deficiência, os idosos, os desempregados. São esses que necessitam de competências. (PERRENOUD, 2005, p. 115).

           Como se vê, a educação escolar, para Perrenoud (2005), deveria preparar os indivíduos em especial “os mais fracos”, para lidarem com as injustiças de nossa sociedade, o que fica também evidente nos seguintes trechos:

Uma parte das pessoas carentes permanece assim porque não tenta nada. Outras porque fazem esforços desordenados que não levam a lugar nenhum e, às vezes, agravam sua situação (p.119, grifo dos autores).  Uma parte das pessoas que são vítimas de injustiças ou de abusos de poder piora ainda mais sua situação, debatendo-se irrefletidamente, como animais presos em uma armadilha. (...). (PERRENOUD, 2005, p.119).

           Para além do autocontrole, a capacidade de analisar as relações de força, quando está presente, pode ser um dos raros trunfos dos dominados. Apenas ela pode compeli-los a esperar pacientemente o momento em que sua reação terá mais chance de surtir efeitos e estimulá-los a construir estratégias mais complexas, a planejar com astúcia o momento de buscar alianças ou recursos para reverter a situação em seu favor ou, pelo menos, para preservar seus interesses elementares (p.120). Os autores concluem que, na visão do autor, a situação de “marginalidade” dos indivíduos pode ser superada se forem garantidas a eles condições de desenvolverem as competências necessárias na sociedade contemporânea. Afinal, se na tentativa de superarem sua condição, as pessoas carentes “fazem esforços desordenados que não levam a lugar algum”, falta-lhes a competência de “saber analisar situações, relações, campos de força de maneira sistemática” (PERRENOUD, 2005, p.119). Essa seria também a competência que falta a uma pessoa que tem reações violentas quando é vítima de injustiça, pois por falta dessa capacidade de analisar as relações de força ela acaba passando da condição de vítima à de agressor (p.120). Falta-lhe “sangue frio” (p.120) e para Perrenoud, trata-se, portanto, de instrumentalizar os indivíduos a identificarem as situações nas quais se encontram em uma correlação desfavorável de forças – nas quais é mais conveniente “esperar pacientemente” – e prepará-los para “planejar com astúcia” estratégias mais complexas para reverter a situação a seu favor e preservar seus interesses. Não ser enganado, alienado, dominado ou explorado em nossa sociedade é uma mera questão de competência? Essa parece ser a perspectiva de Perrenoud (2005). Se num primeiro momento Perrenoud (2005) “desconfia das esperanças mágicas” investidas na escola no processo de melhoria da sociedade, num momento posterior irá defender a tese de que a escola tem o papel de contribuir para a melhoria dessa sociedade formando indivíduos socialmente competentes. Observamos, assim, a proximidade de suas idéias ao universo ideológico neoliberal, conforme descrito por Duarte (2001): “Segundo o ideário neoliberal, trata-se de educar os indivíduos de maneira a torná-los mais bem preparados para disputar seu lugar ao sol no mundo da competitividade (...)” (DUARTE, 2001, p.142)
           Mesmo depois de todas as críticas que foram feitas à noção de escola redentora, a ideia de que a educação escolar teria o poder, por si só, de criar uma sociedade democrática, a educação volta novamente a ser encarada como capaz de produzir a superação da exclusão social.
           Para os autores, Perrenoud (2005) busca esquivar-se das críticas já feitas no campo da educação à noção de escola redentora, aderindo à primeira vista a um discurso pseudo-crítico, mas diante da tarefa de definir objetivos pedagógicos concretos deixa transparecer sua perspectiva de adaptação dos indivíduos à ordem social: a alienação está posta, trata-se de lidar com ela com mais desenvoltura, evitando cair em suas armadilhas. Sua proposta assume claramente a “função de ajustar, de adaptar os indivíduos à sociedade” (SAVIANI, 1987, p.12), característica da tradição escolanovista – portanto não-crítica, conforme Saviani. Recorreremos novamente ao autor (1997) para compreender essa contradição. Ao analisar o texto da LDB/96, o autor apresenta uma distinção entre os objetivos proclamados e os objetivos reais da lei:
           Os objetivos proclamados indicam as finalidades gerais, as intenções últimas, ao passo que os objetivos reais indicam os alvos concretos da ação. Os objetivos reais situam-se num plano onde se defrontam interesses divergentes e, por vezes, antagônicos, determinando o curso da ação, as forças que controlam o processo. (...) os objetivos reais podem se configurar como concretizações parciais dos objetivos proclamados, mas podem também se opor a eles, o que ocorre com bastante frequência. Nesse último caso os objetivos proclamados tendem a mascarar os objetivos reais (p.190) A distinção entre objetivos proclamados e reais na análise do texto da legislação pode também nos ser útil na análise da perspectiva pedagógica de Perrenoud. Saviani (1997) afirma que os objetivos proclamados podem mascarar os objetivos reais, e acrescenta: “a função de mascarar os objetivos reais através dos objetivos proclamados é exatamente a marca distintiva da ideologia liberal” (p.191). Constata-se, assim, que no plano dos objetivos proclamados, ou no plano ideal, Perrenoud (2005) procura apresentar-se como crítico, como alguém que reconhece os determinantes sociais da educação e nega a autonomia da escola em relação à sociedade. No entanto, no plano dos objetivos reais, quando o autor é obrigado a esclarecer os “alvos concretos da ação”, revela-se a natureza adaptativa de sua proposta. No plano dos objetivos proclamados defende uma educação que atenda aos interesses da maioria e a democratização dos sistemas educacionais, mas no plano dos objetivos reais propõe formar indivíduos mais eficazmente preparados para lidar com os problemas e injustiças da vida em sociedade, em suma, indivíduos mais bem ajustados à ordem social.
           A visão de sociedade de Perrenoud (2005) nos mostra que o autor se esforça em mostrar-se bastante sensível – ou até mesmo incomodado – diante dos problemas da sociedade contemporânea. Aponta os mecanismos produtores da desigualdade no interior da escola, menciona os efeitos negativos do neoliberalismo e da ascensão do desemprego e acusa as elites de defenderem seus próprios interesses e prosperarem “em detrimento dos dominados e dos desfavorecidos” (PERRENOUD, 2005, p.96). Menciona ainda, entre outras mazelas sociais, a fome e a miséria, as guerras, a desigualdade do acesso à Internet, a poluição e o esgotamento dos recursos naturais, o terrorismo, o tráfico de drogas e armas em larga escala, a prostituição e o turismo sexual, o individualismo, a solidão, a exploração dos países do Sul, o uso indevido de bens sociais, o aumento da incivilidade e da violência. Diante disso, podemos concluir que o autor não se mostra satisfeito com a sociedade atual e não a considera suficientemente democrática e justa. Novamente, ao se mostrar insatisfeito com a atual configuração social, o autor poderia levar-nos a concluir que tem uma visão crítica em relação à sociedade. Faz-se, assim, necessário, examinar qual é, de fato, sua visão de sociedade.
           A sociedade é um arranjo em que cada um persegue legitimamente seus próprios interesses e acaba indiretamente promovendo o bem coletivo, compondo um acordo satisfatório para todos. É essa visão liberal de sociedade que encontramos no texto de Perrenoud (2005).
           Para o autor (2005), a sociedade em que vivemos é “dividida” (p.9) e “individualista” (p.44); uma “sociedade do lucro, das mídias, da competição, do desemprego, da insegurança, da exclusão” (p.44-5), em que “uma minoria maneja as alavancas de comando” (p.68). Mas para o autor, esse estado de coisas impera porque o sistema ainda não “evoluiu” o suficiente. Numa visão liberal, portanto, a sociedade está em constante evolução e a superação das mazelas sociais pode e deve ocorrer pela via dos mecanismos econômicos e políticos próprios do sistema capitalista. Assim, os inúmeros problemas sociais apontados por Perrenoud (2005) seriam anomalias do sistema, mas anomalias que podem ser corrigidas com a evolução desse próprio sistema. Não são, em sua visão, inerentes à ordem burguesa, portanto.
           Na introdução do livro, Perrenoud (2005) aborda as causas dessas anomalias e nos conclama a “atacar os verdadeiros problemas”. Nossas sociedades não dominam nem o desenvolvimento urbano, nem o emprego, nem as desigualdades. Será que é porque não temos nenhum poder sobre esses fenômenos? Ou porque os ricos não querem pagar o preço de uma sociedade mais justa e mais humana? É hora de parar de se omitir. Não se combaterá a violência ou a delinquência do contrato social fazendo exigências irrealistas à escola, aos assistentes sociais e mesmo à polícia. Se a intenção é combater esses fenômenos, é preciso atacar suas causas.  Embora as classes favorecidas, o lucro, o individualismo e tantos outros fatores sejam alvo de inúmeras críticas do autor, em nenhum momento Perrenoud (2005) realiza uma análise com profundidade acerca da gênese desses problemas sociais. Atacar os verdadeiros problemas significa apenas garantir uma inclusão mais efetiva dos jovens dos bairros precários? Logo, não é realizada uma análise efetiva da estrutura social, que extrapole a descrição das características da sociedade.
           Assim, permanecendo no nível da aparência e das análises superficiais, Perrenoud (2005) pode propalar uma visão “crítica” da sociedade. O papel da escola diante desse contexto social acredita o autor, é formar indivíduos mais solidários, autônomos e competentes para enfrentar as injustiças, ou se preferir, para “combater as instituições e as leis que consideram injustas ou absurdas” (p.95). Portanto, se sua visão de sociedade e consequentemente sua proposta pedagógica contemplam a defesa de melhorias ou mitigação das mazelas sociais, a estrutura social geradora de tais mazelas permanece intocada. Parece possível inferir que a resposta do autor caminha na direção de uma solução centrada no indivíduo: os problemas sociais serão minimizados se desenvolvermos, por meio da educação escolar, as competências adequadas nos indivíduos.
            A suposta “evolução” do sistema capitalista não dá conta de atender às demandas sociais. Esse fato talvez explique a necessidade de Perrenoud (2005) mascarar sua visão liberal de sociedade sob a denúncia dos problemas sociais e a declaração incansável dos limites da educação. Na atual conjuntura, a tarefa de conseguir adeptos a uma teoria que apresente a sociedade como “harmônica” e defenda explicitamente a manutenção da estrutura social se torna cada vez mais impraticável. Diante do acirramento das contradições do sistema capitalista, faz-se necessário disfarçar ou revestir essa perspectiva de manutenção da ordem social e econômica de um verniz “progressista” ou “crítico”.
            A abordagem das competências e as novas demandas do mundo do trabalho não se encontram presentes apenas na obra de Perrenoud (2005) e não se restringem ao campo da educação. Esse discurso encontra-se fortemente enraizado e difundido no mundo organizacional. Assim, a “abordagem das competências” parece ser uma proposta pedagógica com evidentes aproximações às demandas do mundo do trabalho contemporâneo.   
           Os autores buscaram retratar a correspondência entre algumas das competências desejadas pela empresa e aquelas propostas pelo sociólogo: São “grupos de trabalhadores que são instigados pelo capital a discutir seu trabalho e desempenho, com vistas a melhorar a produtividade das empresas, convertendo-se num importante instrumento para o capital apropriar-se do savoir faire intelectual e cognitivo do trabalho, que o fordismo desprezava.” (ANTUNES, 2000, p. 45. In: MARTINS & PASQUALINI, 2008):
·                    Trabalho em equipe - [...] adotar decisões que respeitem as necessidades e contribuições dos outros; contribuir para e/ou aceitar o consenso [...]
·                    Apreender a cooperar e a conviver (p.83) - Saber cooperar, agir em sinergia, participar de um grupo (p.111). Saber construir e coordenar organizações e sistemas de ação coletiva do tipo democrático (p.123) [...] trata-se de saber negociar, construir acordos, decidir respeitando todas as tendências (p.124)
·                    Orientação para a qualidade / padronização do trabalho - Determinar padrões de alto grau de desempenho (para si, para os outros e para a empresa) em todas as áreas; Ficar insatisfeito com desempenho médio; impor a si mesmo padrões de excelência ao invés de ter padrões impostos por terceiros [...]
·                    Agir dando o máximo de si (p.84)- Liderança / influência; Saber [...] coordenar um movimento (p.74) - Desenvolvimento de parcerias [...] criar uma rede de cooperação (p.74)
·                    Planejamento / organização - Estabelecer meta para si mesmo e/ou para os outros completarem um objetivo específico; planejar tarefas individuais e conseguir recursos apropriados para alcançá-los;
·                    Trabalhar em fluxos reduzidos (p.87) [...] a lógica do fluxo reduzido é sempre cumprir os prazos e atingir o objetivo (p.86)
·                    Coaching - Estabelecer metas de realização; supervisionar o desempenho, treinar e avaliar o desempenho;
·                    Organizar-se para construir e avaliar competências (p.75) – As competências não se ensinam, mas se constroem graças a um treinamento. Aprende-se fazendo, ao sabor de uma prática reflexiva, com um apoio, uma regulação e um coaching (p.75).
·                    Comunicação - Expressar as ideias de forma eficaz em situações grupais e individuais (incluindo a comunicação não verbal); Ajustar o linguajar ou a terminologia às características e necessidades da audiência. É preciso encontrar o tom e os argumentos para conseguir que suas necessidades e seus direitos sejam reconhecidos como legítimos (p.116)
            Fazendo-se uma comparação entre as competências propostas por uma empresa de grande porte e as propostas por Perrenoud (2005), tem-se um quadro bastante ilustrativo quanto à adequação das competências a serem desenvolvidas pela escola segundo a proposta pedagógica de Perrenoud (2005) e aquelas que as empresas têm em mente. A Pedagogia das Competências, nesse sentido, parece responder às exigências de uma nova configuração das relações de produção característica do modelo de gestão flexível, ou Toyotismo, que passa a ser o parâmetro organizativo das unidades produtivas com a crise estrutural do modelo fordista de produção na década de 70. O Toyotismo caracteriza-se, entre outros aspectos, pela ênfase na autodisciplina do trabalhador, no trabalho em pequenos grupos e na eliminação de hierarquias e postos de trabalho exigindo, assim, um novo perfil para o trabalhador – a ser mensurado por suas competências.
            Para concluir as reflexões sobre a relação entre a educação e a preparação dos indivíduos para o mercado de trabalho os autores apontam que a inserção no mundo do trabalho é um aspecto que não pode estar apartado do compromisso educacional. Desconsiderar que a educação escolar no sistema capitalista tem como função a qualificação de mão-de-obra para a produção social e que esta é uma demanda da classe trabalhadora significaria adotar uma visão idealista de sociedade e de educação. Para que o indivíduo possa transformar o mundo em que vive e transformar a si mesmo, são necessárias uma série de adaptações. Nesse sentido, salientam que não se trata aqui de defender uma educação descolada da realidade social ou que desconsidere as demandas da configuração social atual. Defendem uma escola que não se limite a oferecer um “treinamento” para formar indivíduos mais competentes para a luta pela sobrevivência num mercado de trabalho fragmentário. Defendem uma escola que promova o questionamento da realidade e o desvelamento de sua historicidade. Uma escola que se posicione efetivamente a favor dos interesses dos oprimidos e permita aos indivíduos superar a imediaticidade da vida cotidiana, enfim, uma escola voltada para a formação plena dos indivíduos como sujeitos da história. Tal formação certamente não pode se concretizar por um mero treinamento de competências.
           A presente análise demonstrou que a obra de Perrenoud (2005) sustenta-se em uma visão liberal de homem e de sociedade e que sua abordagem pedagógica encontra-se estreitamente vinculada às demandas atuais do processo produtivo capitalista, conquanto nenhuma dessas características seja assumida explicitamente pelo autor.
           Em certo sentido os autores evidenciaram também que, grande parte das ideias, apresentadas pelo autor apóiam-se em análises superficiais e inconsistentes. Isso fica claro na medida em que o autor defende ideias que serão contrapostas em momentos seguintes e não desenvolve diversas das ideias apresentadas – impedindo assim a compreensão efetiva do leitor acerca de seus posicionamentos. Além disso, como visto, o autor recorre à descrição insistente de fenômenos, mas esquiva-se de análises explicativas e baseia sua proposta em análises superficiais da realidade social.
           Cabe indagar se essa falta de coerência e consistência é (ou não) algo acidental. Ao que parece, é dessa forma que Perrenoud (2005) busca conseguir a adesão dos educadores a uma perspectiva que, em última instância, submete a educação escolar às exigências do processo de exploração contemporânea do trabalhador, como evidenciado na análise da afinidade entre a abordagem por competência e o novo perfil do trabalhador exigido pelo modelo flexível. Em síntese, trata-se de um convencimento por meio do emprego de uma linguagem sedutora e do apelo às preocupações sociais e a valores supostamente universais (solidariedade, democracia, autonomia), em detrimento de uma argumentação sólida, cientifica e filosoficamente embasada.
          Os autores terminam o ensaio enfatizando que:

Diante desse quadro, para que não caiamos nas armadilhas da fetichização do real e não fiquemos restritos ao mundo das aparências – e principalmente para que não adiramos equivocada e desavisadamente à perspectivas pseudo-críticas e pseudo-transformadoras, é fundamental que nós, educadores e pesquisadores das ciências humanas, atentemos para a importância da argumentação racional consistente e coerente, do rigor teórico-filosófico e da clareza do posicionamento político das abordagens pedagógicas. (PASQUALINI e MARTINS, 2008).


           Após todas estas considerações acerca da pedagogia das competências de Phillippe Perrenoud, conclui-se que se trata de mais um fetiche, mais um “enrustimento” ou uma armadilha da elite para enredar e iludir todos aqueles que acreditam que currículos e os conteúdos de ensino podem simplesmente serem eliminados ou substituídos por uma perspectiva de ensino que prega que um conjunto de habilidades e competências quando devidamente estimuladas nos educandos são o suficiente para que possam construir seus conhecimentos e se prepararem adequadamente para o mercado de trabalho e também para adquirirem uma formação integral em todos os aspectos que envolvam a aprendizagem humana e isto já se sabe, não tem nenhum fundamento de verdade haja vista a quantidade de problemas encontrados numa “visitação” mais apurada aos pressupostos perrenoudianos. 

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

          Para concluir, inicialmente é necessário colocar que num campo complexo como a educação é importante valer-se de teorias, sem as quais nos perderíamos num amontoado de dados sem significado, mas é preciso sermos rigorosos com nossas teorias, termos consciência  de seus limites e possibilidades e sobretudo de suas articulações com outras teorias e pesquisas na área. Neste sentido, o construtivismo pode afirmar-se como uma teoria do conhecimento e da aprendizagem que veio a seu tempo renovar questões e aspectos da sala de aula, contudo sua aplicabilidade tem demonstrado que não se trata de forma alguma de uma teoria redentora cuja função seja a de equalizar todos os problemas e necessidades educacionais e não detém a capacidade de eliminar os processos de dualismo social e de exclusão que são as marcas da escola que temos. Neste sentido, o construtivismo não veio para superar o modelo neoliberal capitalista de educação, onde o dualismo se apresenta simplesmente na perpétua divisão: Escola para ricos e escola para pobres; Universidade para os filhos da elite e Universidade para os jovens da classe baixa. Não havendo possibilidade de tal modelo superar as contradições do capitalismo, não há como haver a eliminação das desigualdades culturais que relegam as camadas mais carentes da sociedade à exclusão de seu direito a uma formação plena, democrática e baseada na equidade, tornando-se com o advento do construtivismo ainda mais impossibilitadas de assimilarem os conhecimentos sistematizados e valorizados historicamente pela humanidade, uma vez que com a redução de conteúdos que temos observado em todos os níveis de ensino, é notório que os filhos das classes abastadas, sendo possuidores de ampla gama de conhecimentos trazidos desde o berço, têm ampla vantagem sobre os indivíduos de classes baixas, o que se torna mais cruel quando o principal princípio construtivista - aquele que prega que se deve valorizar os conhecimentos trazidos pelo aluno, ou seja, os seus conhecimentos prévios - é posto em prática. Porquê? Por causa da desigualdade de condições de disputa entre estas classes sociais antagônicas. Ora, o repertório cultural dos integrantes das classes mais baixas sendo ínfimo ou restrito ao seu meio, decorre que tais conhecimentos não são relevantes à competição pelos mercados de trabalho, podendo-se deduzir que estes níveis diferenciados sempre nivelarão por baixo os resultados a serem alcançados pelos menos favorecidos uma vez que numa disputa direta os mais abastados sempre sairão na frente tendo vasta vantagem cultural em detrimento dos demais competidores, sem mencionar ainda, que os menos favorecidos estarão sempre em situação de segregação informal, ainda que pese a questão da internet e da informática, à priori colocada a serviço de “todos” uma vez que estamos vivendo uma era de grande oferta de informações advindas da sociedade da informação. O fato é que os verdadeiros tesouros da ciência, das artes e da filosofia (só para citar alguns campos do conhecimento) sem o precioso concurso da educação escolar, vêm sendo retirados dos círculos dos mais necessitados.
           O modelo construtivista é, portanto, mais um modelo pedagógico compensatório marcado por falsas práticas democráticas e inegavelmente o “enrustidor” do forte dualismo social e escolar existentes, e está a pleno serviço da ideologia neoliberal, sendo tanto um mecanismo de reprodução quanto de manutenção do status quo e invariavelmente colocado para justificar pedagogicamente uma nova forma de preparação de indivíduos para movimentarem as engrenagens desta nova sociedade do conhecimento e da informação que como tal necessita de uma mão-de-obra que possua uma série de habilidades e competências adequadas ao sistema produtivo e ao mercado de trabalho atual. Desta lógica é que se derivam os motes ou lemas do modelo construtivista (Aprender a aprender, Pedagogia dos Projetos, das Competências, etc.) que se traduzem como valores econômicos e não como valores educativos.     
           Podemos dizer que o modelo construtivista compõe um quadro teórico abrangente sobre a aprendizagem humana, entretanto, isso não autoriza a pretensão de que venha a ser uma teoria geral que oriente toda a prática pedagógica, (vide a questão do endeusamento e do processo de sedução que desenvolvemos ao longo deste trabalho monográfico). É importante ressaltar que a didática de ensino é mais abrangente do que qualquer teoria psicológica e que o professor, do maternal à universidade, vale-se sempre de uma série de elementos para  balizar sua prática pedagógica e possui, até pela construção teórica-prática que ocorre ao longo de sua experiência profissional, plena capacidade de decidir qual o método e quais os conteúdos que efetivamente deva transmitir para obter a aprendizagem de seus alunos, não podendo ser sufocado por teorias impostas, como o construtivismo que se valeram da montagem de um corpo teórico baseado em  trechos e  partes de   diversas concepções pedagógicas (como se procede na montagem de um “Frankestein”) com o objetivo tácito de “seduzir para dominar”.
           Desse modo, o construtivismo é a negação da possibilidade de controlar as aprendizagens e submetê-las a um método universal e infalível decidido pelo professor e seus alunos, privilegiando sim, a abertura de caminhos para a aprendizagem no sentido de aumentar as probabilidades de encontros entre professor e aluno, entre saber escolar e saber social, entre conhecimento erudito e as experiências e vivências dos alunos, porém, evitando-se ao máximo os reducionismos e radicalizações que acabam por impedir o processo de flexibilidade que gera mecanismos de ação e de reflexão sobre a prática. Nesta linha de raciocínio é importante irmos de encontro aos interesses dos educandos, partindo de uma situação concreta para aumentar a abstração. Outra coisa bem distinta é exagerar a ideia de um “ensino para cada aluno”, pois isto significa uma fragmentação dos conteúdos e acaba por se tornar uma atitude anti-intelectual, já que acaba por tolher o desenvolvimento da capacidade de abstração dos estudantes.
            O grande problema não é a tese construtivista, mas o que se faz dela. Esta é uma das grandes críticas feitas ao modelo construtivista, por grande parte dos educadores conscientes e comprometidos deste país e de algumas partes do mundo por onde também houve o advento de tal teoria.
           Para finalizar, defendemos a construção de uma pedagogia superior ao capitalismo que possa contribuir de fato com o desenvolvimento integral dos seres humanos, sem dualismos, sem diferenciações ou exclusões.   
           Enquanto houver uma escola para ricos e outra para pobres, nenhum modelo pedagógico terá cumprido o seu papel de eficiência e excelência. A verdadeira pedagogia democrática jamais é dual. É uma pedagogia que representa os valores embutidos nos princípio sociais de equidade, justiça social e de plena democracia.



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