Do Outro Lado do Outro



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DO OUTRO LADO DO OUTRO
(2007)


Espaço Editorial

“Fingidor me entrego neste riso
e afago a dor,
que disfarçada,
se transforma em guizo.”


AS VOZES E A VOZ DE PAULO FRANCO

 “Idéias verdes incolores dormem
 furiosamente”.
Noam Chomsky

Em Do Outro Lado do Outro, sua quarta obra poética, Paulo Franco envereda-se por um caminho cujo horizonte avista-se através da busca pela evolução de sua performance.
Notas das Horas, de 1995, apresenta o aflorar de um estilo inconfundível, reproduzido também em Pétalas de Insônia, de 1999. Naqueles, o eu lírico divide-se em duas vozes: a primeira evoca um mundo injusto, selvagem e inviável, a realidade se sobrepõe à construção de seus  versos, entretanto afirma-se o caráter efêmero daquilo que se condena. O real é “ um cimento magro de um silêncio mágico”; a segunda voz possui um caráter transcendental, o eterno desajuste à condição existencial, tempo e vida se digladiam numa arena rítmica e semântica, onde os versos decepam qualquer instinto de passividade diante da existência. 
Paisagens do Olhar, de 2001, aparece com uma proposta diferenciada, as duas vozes se fundem, cessa-se, aparentemente, a batalha, mas a linguagem inusitada nos faz ter a impressão de que a qualquer momento aqueles versos irão se romper por conta da tensão de suas imagens e divagações. Mais do que nunca, a poesia de Franco nos impede de exercitar, a todo o instante, um aliviado respiro metafísico.
Nas estrofes deste Do Outro Lado do Outro ecoam os temas tão abordados por Franco nas demais obras. Ainda há “uma ideologia involuntária”, há o inconformismo com o envelhecer inerente ao tempo, há o conflito entre as relações com o que é material, mas, novamente, inova-se o carpintar de seus versos.
Poemas como Cristaleira, O Gari, O Mar e Estação são grandes amostras desta inovação, da “busca incansável” pela forma perfeita. Esta nova forma cultiva momentos que representam uma pausa para a candura. Deixa-se de lado aquele aspecto incisivo do impacto, eficiente em revelar uma condição tão caótica em que se encontram os indivíduos. Agora, os versos são organizados como resposta a este caos e, finalmente, o lirismo de Franco é uma harmonia entre imagem, ritmo, distopia e utopia. Há até o espaço  para o riso, como se vê nas últimas estrofes de Fumaça. E qual leitor atento ao mistério do fazer a poesia não verterá uma dose de emoção qualquer após a leitura d’O Mito
No entanto, Franco não busca apenas o novo, nos faz também dialogar com o “velho”. É o caso do poema A Mariposa, que se apresenta como um outro ponto de vista d’O Colecionador de Coisas, do livro de 95. O eu-lírico deixa de se colocar como personagem central, o que reproduz uma leveza a qual o poema anterior não possuía. Outra explicitação desse diálogo é O Crack, de 01, reesculpido. Ele nos revela a real intenção do poeta: a síntese, a condensação, o abandono da estrofe didática, não há mais a concessão ao leitor. Este que se deixe levar ao infinito através da justaposição das imagens aqui construídas. Uma forma de combater uma sociedade onde a alienação e o automatismo são a lei vigente. Não basta o leitor estar apenas ao lado dos indivíduos, é necessário conhecer o outro lado destes, e a poesia de Franco atenta-se para isso, buscando o outro lado de sua poética antiga, pois não é suficiente apenas o seu conhecimento, o verso decorado, alienante, é preciso continuar “restaurando um outro verso/ para a mesma poesia”.
Desenha-se, então, o horizonte da poesia de Franco, que se encaminha para a pura metáfora, porém sem ser a metáfora simplesmente pura, não são traços de “metáforas involuntárias”, como ele quer que acreditemos. Todos os seus elementos estão voltados para a reorganização de tudo aquilo que se construiu, “os restos dos sentidos que ensinaram”, para nos ensinar a rever nossos olhares, aprimorá-los para que se construam outros sentidos. Entretanto, para ensinar é preciso também aprender e o aprendizado de Franco foi a necessidade de reconstrução da sua poética. Nunca foi tão necessário dizer o mesmo, mas repetir-se é ficar vagando pelos cantos escuros da História. A solução encontrada pelo poeta foi fazer de sua poesia o seu próprio movimento, sua própria ciência e este se mover, esta investigação com o intuito de encontrar a forma perfeita inefável faz do seu lirismo algo original e profundo que contrasta com uma vasta produção nacional comprometida apenas com pirotecnias e aliterações de assonâncias fugazes, incapazes de elevar o ser humano a um patamar de reflexão e insubordinação a este status quo.
A poesia deste livro liberta libertando-se das teias as quais estava presa. Desta liberdade, nasce, portanto, uma nova voz a acrescentar, às demais vozes, como diz o poeta n’O Gari, um canto que restaure o encanto de um mundo tão desencantado.

Reinaldo Melo é poeta, contista
e mestrando em Literatura
pela Puc-SP


ALÉM DAS CERCAS DO QUINTAL

Falta coragem para ir à janela
e libertar os sonhos
que se entulham nos valores
que deprimem nossa cela.

Falta coragem pra se amar
como se ama quem nos ama a sós.
Aquele amor libertinado, de prazer de antes,
de prazer de meio e eternizado após.

Falta coragem para o sim
quando se emprega o não,
impregnado de amarras que deprimem
a liberdade que alimenta o coração.

Falta coragem para o não
quando se acata o sim à revelia da vontade,
em cumprimento ao estabelecido
que deturpa a nossa verdade.

Falta coragem pra mudar de rumo
ainda que preciso fosse a marcha à ré,
para que a vida seja, tão somente,
a plenitude que ela já é.

Falta coragem pra beijar na boca,
pro abraço e pra revolução,
mesmo que revolucionariamente
a gente só liberte a nossa emoção.


Falta coragem
pra quebrar as cercas deste mal
e ver o mundo além dos muros,
além dos horizontes do nosso quintal.



A MARIPOSA 

A mariposa,
de vida breve,
pousa em minha sala
atormentada
pela luz da tela da TV
que me atormenta
reprisando o que não quero ver.

A mariposa
satiriza a minha pose,
as minhas posses
e minha fortaleza suja.

As minhas ambições,
a minha alma,
a minha vala,
a minha sala estática
de apática que é.

A mariposa,
de vida breve,
das minhas décadas
de vida afã,
ri.

Ala pela sala
e da janela
a liberdade ganha
a escapulir da minha cela
como quem tem pressa
porque ainda sonha. 


AS COISAS  

Sobre os objetos
o olhar dos homens.
Sobre os homens
o ostentar dos objetos,
mais eternos, estáticos,
depositários do olhar das gerações.

A estante, a escrivaninha,
a penteadeira incômoda
observando o pentear
de quem se vai a cada instante.

O castiçal impávido
em um cômodo
do tempo
intacto.

Lá fora a tempestade,
abstrata
como o olhar
que observo
sobre as coisas. 


ATESTADO DE ÓBITO

A gente morre um pouco
porque o cão de estimação
lambuza o nosso quintal,
porque queremos mais do que precisamos
e porque as folhas sujam
a sacada após o temporal.

A gente morre porque abusa,
por não ter o que fazer
ou por fazer o que não usa.

A gente morre pelo ato,
porque aperta o sapato,
porque queima a comida,
a gente morre por matar a vida.

Morremos porque amamos,
e em excesso nos escravizamos.
Morremos porque somos
vitimados pelas iras  que guardamos.

Morremos por falta de tempo
de ver o pôr-do-sol
e por falta de sol porque não temos tempo.

E ainda a gente morre
porque não suporta
da tv alienações
e porque eram falsos
os profetas das revoluções.

A gente morre de sim,
a gente morre de não,
a gente morre por não ver
o que alimenta o medo
em nossa emoção.


A TRAMA 

Amotinada dorme a multidão.
No labirinto dos cortiços,
iludida, trama pelo pão
que falta.

Em cada olhar
a rebelião silenciosa
dos que não têm teto,
dos que tentam o sustento
insuficiente
para o filho rir.

Amotinado
em cada coração
o desespero
a germinar outros valores
para quem não vale nada.

Não há paz àqueles que não comem.
Quem nada tem
não tem
porque ceder às leis do homem.

E as crianças atentam contra a ordem
como lírios, que nas madrugadas,
indigentes nas calçadas,
dormem. 


AUDIÊNCIA DE DOR 

Almas alam
a um além inesperado.
Murmuram sob os escombros,
inocentes,
de uma paz horrenda.

E no luto armado
de um extermínio ao vivo,
onde a morte, sem censura,
lidera uma audiência de dor,
clamamos.

O terror contagioso, irracional,
prolifera em nossos filhos
como um filme impróprio
de um horário nobre imoral.

Uma insônia se alicerça
entre os destroços.
É terrorismo a reprise deste mal
no caos de nossas ilusões.

As imagens nos instigam
à vingança
e sustentam o mercado
de uma parca lucidez.

A dor do outro é distante.
A nossa, uma ilha
de total insensatez.



ÁVIDO
  
Devora-me
a sombra do ser
que segue o que sou.

Devora-me o que sou
na sombra do ser
que me segue.

Segue-me a sombra
do que sou
e me devora
o ser.

O ser que sou
devora-me
e sigo assim
a sombra
que me segue
ávida. 


BOÇAL

Em meu quintal
aguardo pelo fim do mundo.
A vida, lenta,
entre as cercas, pára,
ameaçada
na velocidade de cada segundo.

Um cara,
do outro lado do meu muro,
espia, curioso,
o meu olhar boçal.

Lá fora,
o mundo se debate,
agonizam alguns entes
tentativas de uma vida vã.

Em meu quintal,
detido em mim,
inutilizo minha caridade
admirada pela mão que assiste
o que concede o coração.

Os pedintes incomodam
minha aflição
com seus olhares que acusam
minha ideologia involuntária.

E meu olhar pedinte
o fim do mundo aguarda
em meu quintal boçal.
O fim do verso,
o fim do verbo,
o fim de quase tudo
que germina entre o bem e o mal.


CACTO

Vejo o mundo
como um caminheiro
no deserto vê um cacto.

Vejo esgoto escorrendo
sob nuvens que passeiam
e pessoas rastejando feito ratos.

Vejo a flor
que brota desse esgoto
e a dor que, feito nuvem,
esgota a flor do rosto.

Vejo os restos
dos sentidos que ensinaram
se tornarem continência
e a flor secando pelo rosto
como um cacto
em redor da ausência. 


CARTOMANTE

Em meu espelho
a sorte incendeia
a pulsação do meu olhar
metódico.

O dia impõe a inspiração
da vida.
Ações são decretadas
nas necessidades
da lida.

O instante imposto
contrasta-se à revelia
do nosso coração
vidente.

O futuro é a incógnita
da nossa evolução
pendente.

O coração
é a cartomante sensitiva
desta depressão fugaz.

O medo impede o passo.
Vislumbro no caminho
a escuridão tão violável
pela luz do sonho e passo.

Então recorro à cartomante
como quem se entrega
à embriaguez da inspiração:

- Quando somem meus desejos,
minha fé, minha ilusão...
estão perdidos no meu eu, no infinito ?
Afinal, aonde estão ?                               


CICATRIZES

Estagnado em meu quintal
espio o sol
como quem desfalecendo
observa o que não vê.

Recolho o olhar sobre as misérias
enquanto escolho os sonhos
que reprisam as procuras
e disfarçam cicatrizes
nas loucuras do ilusório que se crê.

Um medo involuntário arrasto
pra ninar as marcas
do incurável desta solidão.

E a luz do sol
a sombrear o olhar ao chão,
reflete um corpo entristecido
a rastrear pelo quintal
o que sobrou do ser vencido
pelo tempo que a verdade da mentira
transformou em ilusão.


CONTRADIÇÕES


Há um poema
encalhado na inspiração.
Algumas sensações detidas
no silêncio estrangulador.

Ruídos de pessoas
prisioneiras
da realidade do show.

Nas praças pajeiam seus cães
desprotegidas do medo
e giram entre as cercas
que não as protegem
de si.

Há um poema enclausurado
no abstrato das contradições.
Um ritmo pobre,
uma rica rima
escapulindo da palavra dor.

E há a solidão de coisas
que atropelam sentimentos
impedindo o verso encalhado
neste desamor.
  

CONTRAVENÇÃO

Não há pão.
Não há saída para a falta de pão.

Uma criança estranhamente ri
enquanto espreita o pai
a procurar o que fazer
deteriorado pelo sonho executor.

Destituídos de razão
alguns olhares premeditam a contravenção.
Os homens vagam sem vaga
entre as máquinas informatizadas
que espiam os pedintes
uniformizados no clamar por pão.

A multidão se contamina
de um sentimento comum,
horrendo,
mas que não tem nome ainda.

Não há riso. Não há graça.
Há risco e mais desgraça.

A dor globalizada
é qualquer coisa singular.

Alguns beatos sentenciam
uma espera que machuca.

E a criança, a aguardar o Pai,
olha o quintal que já parece o mundo.
O sentimento mais comum se expande
e se entrelaça ao pão ausente,
ao pai ausente, ao sonho,
à gente. 
  
CRACK

A rua está fria
e não há poesia
no ar que envolve
o mascarar destes sorrisos.

A esperança
a ser pavimentada,
em abandono,
clama pela Providência.

Há que se ter prudência
na abordagem do olhar.
Há um crime no clima
que envolve este clamar.

CRISTALEIRA 

A minha ideologia partiu
como ao vento
o trigal se despenteia.

E preso à sua teia
como inseto vitimado
pela aranha que morreu,
debato-me
a sacudir os sonhos
que se desprendem de mim.

A minha ideologia
partiu-se
como a porcelana
que despenca frágil
de uma cristaleira de lei.

A lei...
ora, o que será de mim
que não me sei ?
  


ENTRE OS IGUAIS

À noite,
limpo a minha alma
escovando os dentes.

Detritos do dia
contaminam o hálito
de cada pensamento.

As frases, entrecortadas,
valsam entre o bem e o mal
a confundir o sentimento.

E sondo, atordoado pelo sono,
a razão do medo que me encharca.
Espio pelo vão da porta
e vejo a claridade morta
meio à rua parca.

E rente a mim, atrás dos muros,
guardados, proprietários espiam,
entre grades, calados,
os pedintes que se impõem armados.

É feio o desafeto entre os iguais,
que à noite, enquanto escovam dentes,
limpam almas,  qual dementes
hipocritamente boçais.


Que meditam o eterno,
para no outro dia,
em um outro terno
reeditar a agonia
deste mesmo inferno.

ERRO

No olho do outro
o erro visível,
intenso.

Na menina dos meus olhos
a metáfora
que eu não quero ver,
no que faço,
no que minto,
no que penso,
no que não posso conter.

ESTAÇÃO

Outono nos corações dos homens.
Crianças arrastam seus uniformes
para algum sonho distante.

A felicidade dos loucos
contrasta-se com os gritos de liquidação.

Os sonhos, nas estações, que partem.
Nas estações, os homens, que sonham.
Nos homens, os sonhos, sem estações.


EXECUTOR

É madrugada e as sombras do impreciso
imprecisam minha insônia
de lembranças que se mesclam
ao presente esquecível.

Atormentam-me os ponteiros
que trepidam
o instante previsível.

E a espera a entreter a dor
embala os meus versos que adormecem
no relento de um medo ditador.

Metáforas involuntárias
que afrontam minhas portas,
que trancadas, me protegem
de um silêncio executor.

Mas os dias, entrincheirados, se arrastam
entre olhares que se entrelaçam
em bombardeios civis.

...Indigestos sentimentos
que deterioram pesadelos
desesperançados
e vis.



FARÓIS

Dos automóveis, blindadas,
as crianças espiam ambulantes nos faróis
e curiosas observam uma liberdade estranha.

Pontiagudas sensações que irão desvanecer
no homem, que ao crescer, vai se manter
na opulência de suas prisões.

Nos corações, o transitório sentimento de igualdade.
A criança, no farol, vê no automóvel
outro tipo de felicidade.

Pedir, vender, furtar a compaixão
detida pelo pára-brisa de vidro fumê.

A criança procura na imagem
alguma semelhança e não se vê.

Mas a velocidade retomada no farol aberto
distancia as diferenças
entre os seres que sonham iguais.

E crescida a criança,
o coração deserto,
faz de conta que as sentenças
das misérias
são coisas normais.
  

FRONTEIRAS

Rente ao meu quintal
o bem e o mal a me acenarem
do outro lado dos muros.

Fronteiras que me cercam do mundo,
exilando-me dos homens
que me espreitam do lado de fora de mim. 

Rente às minhas cercas
bandeiras que se arrastam
à revelia dos sonhos
que me arrebatam.

E inconformado
um coração alfandegário
sente-se infiel
ao ver a fé banalizada
pelo contrabando dos mitos.

E do outro lado das fronteiras
os que se fartam da fome
e se divertem com homens
que fazem arte com gritos.


FUMAÇA

Sonolentas expressões de medo
cambaleiam nas esquinas
tateando as madrugadas frias.

Caçam o pão
que a ambição do semelhante
escassa.

Caçam o sim
no não
que contamina a raça.

A praça...

Ah! A praça !

A praça é dos (per) ambulantes
como o céu
é da fumaça.
  
INCONTESTÁVEL

Atravessamos o futuro
por dentro do dia a dia
deste presente incontestável.

As coisas se dão assim, irremediavelmente,
e vão alicerçando um imenso passado
sob o nosso instante frágil.

Fumamos, morremos, paramos de fumar ou de viver,
fazemos aniversário de vida e morte
até que nos esqueçam
por ausência plena de importância temporal.

Ao certo ficamos em meias verdades
inteiramente inacabadas.
Em verdade acabamos entendendo
que somos incertos demais
para o risco das verdades inteiras.

E riscamos do mapa alguns sonhos,
algumas brincadeiras, amigos, coisas, ideologias.
Procuramos o preciso para o que precisamos
neste impreciso agora.

E no abstrato
destes sentimentos impalpáveis,
na seqüência dos fatos que arquitetam os instantes,
vasculhamos o futuro inadiável
destes dias de completa lentidão.

Então olhamos o pedaço de rua que nos cabe,
o recorte de horizonte possível,
os muros impávidos que cerceiam os olhares
e atravessamos o futuro por entre o dia a dia
deste tempo incontestável
qual um templo que professa ilusão.



JÓIA RARA


A morte ronda o presente
qual a guardiã
de uma jóia rara.

Na espera
espadas que se cruzam
no reflexo dos olhares
a se debaterem instintivamente
como o latente
de uma dor que nunca pára.

A vida é um duelo
de feridos que resistem.
Um elo entre o nascimento
e a procura de amores que inexistem.

Rumores sobre o que não sei
se espalham pela sala.
No verso, a dor que insiste,
imensa,
como o silêncio
que de intenso o sentimento cala.

  

MATÉRIA VIVA

Esperamos o jornal da noite
para ver o acontecimento do dia.
Abstratos os fatos insistem
em decretar a penitência da vida.

O dia seguinte
noticiado na noite anterior
não se materializa.

Estagnados
os fatos fantasiam a realidade,
que subjetiva, no outro dia,
vira a manchete da noite
que nos concretiza.

E nos sentimos partes
das matérias de capa de cada estupidez
em nossa crise instintiva
e cúmplice desta imparcialidade negligente.

E esperamos pela noite
qual o guerrilheiro
a aguardar uma notícia de paz
enquanto atira em mais um desconhecido.

Aguardamos o acontecimento do dia,
que desapercebido, passa
num espetáculo que não vira matéria
enquanto a ordem de paz não vinga.

Um escândalo a mais
a se esconder no pôr-do-sol
banalizado.

E a matéria da existência,
na calada da noite
espreita este tempo insosso
quebrando um silêncio de aflição.


NÁUFRAGOS

Ancorado em ti,
qual à deriva um náufrago,
mergulho em nossas mágicas
como quem maestra
a marcha nupcial da solidão.

Um procurar palpável
a sobrevoar um medo
mímico e intolerável.

Máscara narcisista.
Reflexo lúdico
a nos procurar em um espelho
cúmplice.

Concentração em campo aberto
onde o incerto
é o que detém a liberdade
ancorada na razão do estar.

E em franco desespero,
franco-atiradores,
atiramos nossas dores
com os órgãos genitais
e nos jogamos contra os travesseiros
como plumas em amor
de pedras ancestrais.

Náufragos de incertezas
em âncoras de paixão sem fim,
sobrevivemos à turbulência
saboreando o nosso sonho
como a flor ao sol em um jardim.



O ARGUEIRO

No semelhante
o argueiro imenso
a competir
com nossa trave pequenina.

E na menina dos olhos
o ardor intenso da esperança
que espera oscilando
entre a fé de uma razão que contamina.  

No semelhante a miragem
de uma dor universal
que não sabemos se é por bem
que nos faz ver o nosso mal.

Semelhantes os olhares se procuram
denunciando invisíveis que torturam
previsíveis como o dia ainda não ido
ao futuro do que é desconhecido.

E no que desconhecemos,
na dor do outro que nós também temos,
o rir possível,
o prodigioso amor
que pressentimos e não percebemos
porque à nossa evolução
se mostra inteligível. 



O CARPINTAR

Agonizam empoeirados
em meio a velhos ideais
alguns poemas mal concebidos.

Os móveis, desordenados,
impedem o plantio dos sonhos,
que daninhos, esmorecem.

O verso impõe a solidão desnecessária.

É impreciso o meu olhar
no interior do que pressinto
a vasculhar o meu futuro
no presente que restou
deste passado falso.

O que havia de sabedoria
nesses sonhos que jamais sonhei,
mas que impostos, se deterioraram?

A agonia arrasta-se, maligna,
a contaminar a minha face
envelhecida pelo riso que não veio.

Os amigos partiram na renúncia
do que era falso da espera,
que subordinada ao sonho, se desfez.

E o silêncio, carpintando o vago,
esculpi a luminosidade
de outras portas...

Possibilidades do instante
que arquiteta incessante
o extermínio da agonia
restaurando um outro verso
para a mesma poesia.


O CONDÃO

Escondo-me do som da sala
ouvindo Wolfgang Amadeus Mozart.
Refugio-me do lar entrando em mim.
Perco-me no verso
a se compor em um poema ruim.

O telefone que não pára
enquanto corro atrás de soluções
para esse tempo insolúvel.

Soluços saltam pelas faces
que me acompanham
à caça do condão que não possuo.

Em praça pública
debruço-me sobre as dores
dos que cobram a medicação pro incurável.

As igrejas multiplicam-se
minando o meu espaço ateu.
Ovelhas são executadas pela fé.
A desesperança perde-se de Deus.

A violência vira o fato do dia,
o fardo atado à letargia.
Olhares que disparam sobre a calma.
E o medo a coibir a nossa alma.

Fugidios somos raptados pelo tédio.
E raptores de nossa liberdade cativa
vivemos um sonho criminoso
capturado pela falta de perspectiva.


O CRIME

Impondo-se à dor dos homens
o sol
entre os arranha-céus
acomoda os seus raios
nos olhares
que edificam sonhos vis.

Trabalhamos o pão da hora,
a hora do dia,
a dor,
do agora, a poesia.

Do instante em trânsito,
abstrato,
lapidamos um concreto burilar,
lacônico,
como um parto passado
de um tempo de futuro sem presente.

Talhamos o momento sem tê-lo,
o tempo sem vê-lo
e vivemos intensamente o sonho,
como um crime,
a escondê-lo.

E de misérias repartidas
semeamos uma opulência de dor.
A paz que construímos
é regada pelo desamor.

Então dormimos o sonho
de uma vida que não dura,
para a felicidade distante
de uma eternidade prematura.


O DIA

O dia, repetitivo,
impõe-se
adverso
ao padrão do ontem.

Sorrateiro,
rasga as horas iguais,
contraditório
ao tempo que passou.

O já, de hoje,
momentâneo
e pretensioso de futuro,
é banido ao passado recente,
enquanto a vida esvai-se
repentinamente,
seqüestrada pelo instante
que não pára.

E reféns do tempo,
olhamos o dia
com ressalvas,
como o condenado
que implora
a liberdade
no olhar
do executor.



O FARDO

Na parede, o ponteiro,
qual o guardião do céu
a aguardar as badaladas
do momento seguinte.

A TV a retratar os desacatos do dia.
A nova guerra fria esquenta
enquanto que os tormentos
ampliam uma audiência de dor.

A poesia é mera tentativa
diante dos atentados.
Os homens nos movimentos de paz
enquanto se manifestam armados.

A poesia vira um fardo
que se arrasta pela madrugada
como um cuco insistente
a corroer o sono em cada badalada.

E o relógio trepida
vitimado por mais um bombardeio,
cirúrgico, mas impreciso,
porque os senhores da guerra
desconhecem que o riso
está no caminho do meio.

O GARI
  
O mundo anda sujo.

Um homem varre
o canto da calçada
e canta
um canto de encantar
o mundo,
um canto de encantar
todo mundo,
como se aquele canto
fosse o último desencanto
a se limpar
para se restaurar
todo o encanto do mundo.


 O GRITO
  
Na musicalidade dos versos
a rebelião silenciosa
das palavras enobrecidas
que lavram uma busca incansável.

Em cada ponto,
em cada canto pelos ares,
suprindo os desencontros
atrás do reencanto dos sonhares.

Na melodia dos olhares
a insurreição das frases no infinito,
alimentadas pelos sentimentos,
que reagem ao silêncio
insubordinadas
pela necessidade do grito. 



OLHARES

Olhamos de lado
e nos olha o outro,
mudo, num mundo surdo,
a nos espreitar
como se um espelho fosse
a representar, talvez,
uma outra parte do que somos.

E profundamente
vasculhamos o outro lado do outro,
a nos procurar,
e olhares outros repartimos na escuridão
pra clarear a multiplicidade de sentidos
no que olhamos.

Olhares que são grãos de areia
no infinito da procura.
Mar de buscas nestes prantos.
Acalantos pro sonhar
que no horizonte perde-se entre encantos
sem ter cura.

E para nos encontrar do outro lado
do que imaginamos que vemos neste vai e vem,
olhamos desesperançados do outro lado da rua
como o prisioneiro que transcende
para a liberdade que não tem.

E do outro lado o outro nos olha de lado,
disfarçando o sentimento como lhe convém,
procurando  nos olhares que se perdem
o mesmo intrigante achado
que o outro procura também.


O LOUCO

Não tinha o lápis em mãos.
Então não mudei o mundo.
Como vítima do inesperado
o poema se perdeu no segundo.

Do outro lado da cama
uma máquina sem fita,
fora de moda, fora do tempo
qual o poema que se foi.

Do outro lado da rua,
a rir, um louco,
como se de mim zombasse
por me ter furtado o lápis em desuso.

E pra fazer de conta
coloquei-me ao teclado,
impávido como um mouse
a aguardar a mão
que a esperar por sentimento
não se move.

E novamente
o louco riu
e a acenar-me foi embora,
como se tivesse hora,
como um sonho bem real que esvaeceu
ou como o poema que no agora me feriu
e desapareceu.


  
O MAR
  
O lixo acumulado
aponta para a involução.

As pombas sobrevoam
os restos das pessoas.

Os homens bolem na nudez alheia
como as aves, que famintas,
ciscam pela areia suja.

Olho para o infinito
como quem vasculha
as margens de si
a rastrear o próprio grito.

Cisco os detritos que me invadem
como o ser que fuça
na nudez da própria involução.

E os versos sobrevoam meus sentidos
como quem revira entulho
à caça do que não perdeu.

O sonho acumulado
aponta para a desilusão,
num mar de ideologias à deriva
que sufoca o revoar do coração.


O MITO

É vasto
o canto em que te guardo
neste coração de pedra.

Vasto silêncio
no meu grito.

Vasta emoção
que no meu peito
medra
de infinito.

E se és razão
em mim
pra desapego,
eu tenho medo
e neste canto
te transformo
em segredo e mito. 



O PORTÃO E O MUNDO

Entre o portão e o mundo
as janelas para o infinito
involuntário.

O passo trêmulo,
o olhar envelhecido
pelas horas que não cedem
ao descaso do presente insosso.

A decisão sempre tardia,
o mundo impávido a violentar a alma
presa no quintal
qual a guardiã do pouco bem
que é vitimado por todo esse mal.

O cálculo do ter
metodicamente insuficiente
para o ser que não se basta
e se entedia incapaz de ver
o pôr-do-sol que insiste em se compor
perante a vida vasta.

E o portão,
sempre a um passo do infinito,
é o divisor entre o silêncio e o grito
e anuncia a calçada para a rua intransitável
qual a fronteira para um mundo
que nos chama ao desconhecido
de um futuro inevitável.


OPOSTOS

Em meus opostos
confronto-me
afrontado por verdades
que não quero ver.

No sexo posto,
no partido oposto,
o outro lado do que sou,
a outra parte da minha metade
suja.

Se democrata, escondo o ditador.
Se mostro o riso
é pra não ver a dor.

Em meus opostos
os conchavos pra deter o olhar alheio,
as coligações de bem ou mal.

E no silêncio a corrupção
do que não sinto,
do que vejo no que estou,
e do que minto
pra deter a oposição do que não sou. 



ORDEM DO DIA

Na ordem do dia
o momento secular
a ser desvendado.
O mistério do instante
em seqüência eternizado.

A vida
nos encurrala à história.
O colapso dos sonhos
vai alicerçando
o destino instintivo
nem sempre coroado de glória.

E ingenuamente
acreditamos conduzir
a execução da hora,
o fato do dia,
a palavra de ordem
na desordem do mundo
que se perde globalizado
no indivíduo entristecido.

Na pauta,
a ficção do que sentimos,
o libertar que coagimos
pra fraudar nosso discurso iludidor
e convencer do que queremos
o que nem ao certo sabemos
se devemos
neste projeto de dor.

  
PARA HOJE

Ainda para hoje
vasculhamos a vida na janela.
Chove e o dia chora
o sol que fez do coração a cela.

Algumas lágrimas
alagam  pára-brisas de emoção.
O caminho, confuso,
distorce a nossa direção.

As dores ninam
a canção que nos embala
e a inspiração, que de excessiva,
o verso embriaga e o sentimento cala.


Ainda para hoje
a poesia vasculhamos  na janela
pra que o coração liberte o dia
e a vida, como em arte, se apresente bela. 



PERFIL

No perfil de cada um
os sonhos proibidos,
as manobras da alma.

Encantadas insobriedades
de paixões não ditas.

No perfil, a dica
do que somos
ou do que gostaríamos,
do que declaramos ou escondemos
dentre os medos e coragens
que administramos.

No perfil do outro
o nosso espelho,
a nossa imagem cúmplice...
ao nos descobrirmos infiéis
nos vasculhando
nos perfis de tantos.
  
PLANTA
  
Estacionado em meus aposentos
alimento os transeuntes
com olhares de escárnio
maldizendo o vaso
em que me encontro.

Uma planta de fé
fincada em raízes
de aflição e medo
sobre o nada.

Um pé
de qualquer coisa
plantado na contramão dos sonhos
e atropelado
pela própria estrada.
  
POEMA NOVO

Façam silêncio!
Poema recém nascido!
Tem sangue quente
em suas formas.

Prematuro, aguarda pra vingar
o sonho de estar aqui.
A vida frágil,
sem nome ainda,
pulsa velozmente
no pequeno corpo
de palavras
que não choram.

Nasceu no adiantado da hora.
Quase todos já dormiam.
Não há reis e não há magos,
mas a cadência das estrelas
o anunciou. 


PREVISÕES DO AGORA

Sabemos do hoje
o que podemos apalpar
no imediato.
O resto é o impreciso:
o dia, o sonho, o riso,
o provável do próximo ato.

Sancionamos o evitar
de algumas sensações,
de alguns silêncios
escondedores do medo,
dos nossos mistérios,
dos nossos segredos.

E visionários,
premeditamos vitórias
exercitando o futuro
como nos convém.
Mas derrotados, um dia, pelo instante,
todos, é certo, seremos avisados
que no próximo
morreremos também.

RECONSTITUIÇÃO

E há o silêncio que dói,
que rompe a relação,
que separa.
O silêncio
do distanciamento dos corpos,
do não,
do nunca mais, talvez.

Silêncio que reconstitui os fatos,
as falhas, os crimes,
o estar desordenado das coisas
e dos sentimentos sublimes.

O silêncio extrapolador do momento de agonia,
caminheiro da eternidade
de uma raiva passageira da melancolia.

Silêncio que arrebata o dia
e vence a noite
que resmunga ruídos
na ausência da escuridão. 

Este silêncio é de fato.
É de ruptura e reconstrução.
É o silêncio revisor da dor
que a alma depura
para aliviar o coração.
  
RENÚNCIAS

E diante do medo
a estagnação moral das atitudes,
a represália de si próprio
contra as ambições.

Renunciar à coisa ?
Às coisas ?
Renunciar à causa
De uma vida inteira ?

Quantas contra-mãos
terei que suportar
trombando os desacertos
destes descaminhos ?

Não sei. Não sei
se ser um sonho
tempestivo e mudo
a alavancar os recomeços
desta história insossa
pode enfim dilacerar
o fim dos muros.

Muros... mundos,
mundos... muros.

Até quando
o procurar destes poetas de minúcias
semearão , oh!, pelos ares
os altares das renúncias ? 
  

RETRATO

A corruíra da minha infância
pousa na pose dos meus anos.
Inabalável, idêntica,
intacta em sua eternidade afã.

No meu espelho
uma outra cara
espia a ave que enquanto pia
espia o cara que se guarda
entre as chaves
de uma brincadeira
que lá dentro
eu sou.


SACRILÉGIO

Ateu nas orações
procuro
a ovelha desgarrada
dos meus sonhos.

Espreito sobre o medo
a noite
e meço a escuridão
de cada esquina.

A solidão se mescla
à ausência nos olhares que meditam
sobre o que de fato
o fato que assistimos contamina.

Premedito as normas da felicidade.
Reedito no silêncio
a turbulência das mentiras
de cada verdade.

Manuscritos de uma fé que não se vê
sempre distante da razão subjetiva
em quase tudo o que se crê.

E encurralado pelo medo
encontro Deus
nas madrugadas do meu coração.

Um templo
de fiéis alucinados,
oscilantes sentimentos
entre o sonho e a razão.


TOCAIA

Pirilampos ameaçam
esta escuridão.
Na anomalia depressiva
da desesperança
as expectativas rondam
nossa imprecisão.

Por detrás dos sonhos
sentimentos em tocaia
que se movem
feito bichos peçonhentos
a nos espreitarem.

O medo a acovardar
nossa coragem
que oscila
entre o esperanto
e o palavrão.

Gírias boçais
que não traduzem emoções enclausuradas.

E no silêncio do amanhecer
a eternidade ameaçada
pelos manos que se atiram nas calçadas.

A fé no semelhante
morre estatelada na tocaia dos homens
que se emboscam pelo coração
estranhamente à procura do abstrato
que os libertem do concreto
de sua própria opressão.  




“E fingidor me entrego neste guizo,
e afago a dor,
que camuflada,
se transforma em riso.”


Espaço Editorial
2007