segunda-feira, 4 de junho de 2012

A BICA


A tempestade passou.
O vento, a relva molhada
com cheiro de infância,
a andorinha a adornar em arco o ar
insistentemente não querendo ir
a nenhum outro lugar.

A estrada de terra, o pé da serra,
os sonhos de menino,
rebento a ver no céu rasuras de brinquedos,
desenhos que mesclavam esperanças e medos.

Na bica, o ruir da água
quase morna da montanha
a se fazer de mundo.

Tudo é tão grande
quando se é pequeno
que um dia pode ser a eternidade,
uma folha que cai vira balão,
um arco-iris após a tempestade,
com certeza, é felicidade
de tão simples que é, sem ilusão.

A correnteza a esculpir na terra
formatos de pequenas serras
lembra que o mundo se modifica
com o vento que corre,
com o tempo que morre,
com o sonho no cheiro da relva
que sempre fica
nas esperanças, nos medos, na ave que voa,
na água que escorre latente ruído que verte
no bico da bica.                                 

Paulo Franco