segunda-feira, 20 de junho de 2011

       O RUIR DAS HORAS


Na lembrança, qual um palco imaginário,
o cenário de coisas que vivi,
algumas pessoas, cães, carinhos que não foram percebidos
por entre as metáforas  não entendidas
enquanto a vida era apenas uma ordem.

Na desordem da natureza do tempo que nos deteriora, 
perdemo-nos um pouco a cada instante
e ainda à caça da felicidade para um futuro distante
sem vermos que não vemos nem mesmo o momento seguinte.

A casa a ruir abriga-nos dos sonhos que detemos
em cada quarto que nos prende
a rende-nos às nossas verdades e imaginários
e em cada um a quarta parede cai
desvendando um cenário de expectativas
desperdiçadas no que não sentimos no agora
que se esvai
como se fosse a lembrança
daquilo que jamais existiu.


                                                               Paulo Franco  

              SEXTO CONCURSO ON-LINE DE POESIA - JUNHO/2011
              GRUPO DE POETAS LIVRES - REVISTA VENTOS DO SUL

              FLORIANÓPOLIS/SC              
              MENÇÃO HONROSA 

INTERFACE


A me conduzir o poema perde-se
e pede que eu não o faça mais
enquanto me desfaço
refazendo versos incompartilháveis
que jamais deveriam ser escritos.

O poema que me acolhe
recolhe de mim
os dispositivos incompatíveis
com minhas sensações
de eternidade e insensatez.

A palavra que a mão conduz
é a mesma que dilacera
quando o sentimento não condiz
com o limite entre os corpos
já que a vida, muitas vezes,
não permite a conexão com a vida
e a razão vira a interface da emoção
que contamina o poema que se esvai
esfacelando-nos
sem sentido ou poesia
qual a tela que computa a dor.  
                            Paulo Franco   


              V CONCURSO POESIARTE - JUNHO/2011
              CABO FRIO/RJ  
              POEMA FINALISTA 

A PESSOA


Em minhas lágrimas,
relativamente sujas,
estão as incertezas
de uma alma contraditória
e incompartilhável.

Trago no meu coração
o ópio das horas.
Indiferente a quase tudo
atormento-me
com a simples futilidade metafísica
dos que passam ao meu redor.

Imaginar que no dia seguinte
seguirei vivo
traz a insônia necessária
ao que quero compor.

Seria tão fácil se eu fosse os outros.
Dentro de mim, múltiplo,
a traição é sigilosa.

Do outro lado da minha janela
inúmeros donos de tabacaria
riem-se de mim
que não me sinto pessoa.



A ordem civil me transformou em nada.
Sintetizado em cumpridor de obrigações,
sem sensação nenhuma de vida,
desarmonizo-me
meio a uma harmonia falsa.

O universo se reconstruiria
em ideal de esperança
se o sorriso dos que passam
do outro lado da minha rua
não fosse
só um fato infeliz.

As tabacarias quase não existem mais,
mas os poetas são os mesmos
e se multiplicam em cruzes
que demarcam milenares aflições.

O pássaro que avisto no horizonte é irreal.
Melhor não ver
o que a parede do imaginário
sanciona como fato.

Acreditar que a vida
arrasta o destino das coisas
é ceder ao medo do invisível
e ir às representações
que amenizam nossos crimes inafiançáveis
e perfeitos.

Paulo Franco

       

           3º PRÊMIO LITERÁRIO SÉRGIO FARINA - 2011
               CENTRO CULTURAL JOSÉ BOÉSSIO

               SECRETARIA DA CULTURA DE SÃO LEOPOLDO/RS
               MENÇÃO HONROSA E PUBLICAÇÃO EM ANTOLOGIA
CANTO DA LIBERDADE             

A ave que não sabe que está presa
não procura a liberdade
e vê beleza pela cela
porque é parte figurante
do cenário que lhe atrela
no teatro da prisão.

Mas a ave que percebe
que o seu canto é só tristeza
porque sabe que está presa,
logo busca de verdade
descobrir se a liberdade
é de fato uma ilusão.

E com certeza sentirá
que além do canto tem beleza,
tem encanto e realeza
e verá que a fortaleza que lhe prende
é a fraqueza que lhe rende
a ser ave rastejante
que só cisca pelo chão.

                                                          Paulo Franco

CONCURSO DE POESIA ACADEMIA VICENTINA DE LETRAS, ARTES E OFÍCIOS 
"FREI GASPAR DA MADRE DE DEUS" - SÃO VICENTE/SP - 2011
2º LUGAR