segunda-feira, 20 de junho de 2011


A PESSOA


Em minhas lágrimas,
relativamente sujas,
estão as incertezas
de uma alma contraditória
e incompartilhável.

Trago no meu coração
o ópio das horas.
Indiferente a quase tudo
atormento-me
com a simples futilidade metafísica
dos que passam ao meu redor.

Imaginar que no dia seguinte
seguirei vivo
traz a insônia necessária
ao que quero compor.

Seria tão fácil se eu fosse os outros.
Dentro de mim, múltiplo,
a traição é sigilosa.

Do outro lado da minha janela
inúmeros donos de tabacaria
riem-se de mim
que não me sinto pessoa.



A ordem civil me transformou em nada.
Sintetizado em cumpridor de obrigações,
sem sensação nenhuma de vida,
desarmonizo-me
meio a uma harmonia falsa.

O universo se reconstruiria
em ideal de esperança
se o sorriso dos que passam
do outro lado da minha rua
não fosse
só um fato infeliz.

As tabacarias quase não existem mais,
mas os poetas são os mesmos
e se multiplicam em cruzes
que demarcam milenares aflições.

O pássaro que avisto no horizonte é irreal.
Melhor não ver
o que a parede do imaginário
sanciona como fato.

Acreditar que a vida
arrasta o destino das coisas
é ceder ao medo do invisível
e ir às representações
que amenizam nossos crimes inafiançáveis
e perfeitos.

Paulo Franco

       

           3º PRÊMIO LITERÁRIO SÉRGIO FARINA - 2011
               CENTRO CULTURAL JOSÉ BOÉSSIO

               SECRETARIA DA CULTURA DE SÃO LEOPOLDO/RS
               MENÇÃO HONROSA E PUBLICAÇÃO EM ANTOLOGIA

2 comentários:

  1. Caro Poeta,
    Reiterando o que comentei em tua página de perfil Orkut:
    Saiba que fiquei muito encantada com a tua poesia, toda ela!
    "Pessoa" ... Muito maravilhoso este poema, viu?
    Tens aqui uma fã:

    "As tabacarias quase não existem mais,
    mas os poetas são os mesmos
    e se multiplicam em cruzes
    que demarcam milenares aflições"

    Já decorei isso... muito lindo de significativo que é, ou tornou-se para quem adotou esses versos daqui...
    Parabéns novamente, Poeta!
    Cris
    ___
    Agora, reparando a injustiça que cometi: todos os versos deste pooema são absolutamente geniais!

    "... Acreditar que a vida
    arrasta o destino das coisas
    é ceder ao medo do invisível
    e ir às representações
    que amenizam nossos crimes inafiançáveis
    e perfeitos."

    Sucesso cada vez mais (mais ainda) e sempre!
    Tua amiga, Cris.

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  2. Ser elogiado por alguém tão especial, que também vive a poesia, é de fato um grande prêmio. Obrigado, Cris.

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